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11/2012

Entrevista com Dirceu Greco, diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde

Dirceu Greco

Saber Viver: Para o senhor, como está o tratamento da Aids hoje no Brasil? Que principais pontos o senhor destacaria nesses 30 anos?

Dirceu Greco: Em relação ao tratamento, o número de pessoas que recebem medicamentos antirretrovirais do Sistema Único de Saúde (SUS) tem aumentado substancialmente ao longo dos anos. No ano de 1999, por exemplo, eram cerca de 85 mil pacientes em tratamento. Hoje são aproximadamente 217 mil. É importante ressaltar que os medicamentos oferecidos no Brasil são os mais modernos e recentes que existem no mundo. Nos últimos anos, foram incorporados enfuvirtida (2005), darunavir (2008), raltegravir (2009) e etravirina (2010), adequando a política de tratamento às pessoas com multirresistência viral.

O número de Serviços de Atendimento Especializado (SAE) para pessoas vivendo com HIV/aids aumentou no país. Passou de 636, em 2007, para 712, em 2010. Há também 95 hospitais-dia e uma rede de 25 serviços credenciados para tratamento da lipodistrofia, que já realizaram 998 preenchimentos faciais e 120 cirurgias reparadoras, desde 2009. É importante destacar, ainda, que a rede pública de saúde do país dispõe de 90 laboratórios que realizam exames de CD4 e 80 de carga viral. Na última década, foi implantada a Rede Nacional de Genotipagem (RENAGENO), formada por 23 laboratórios que realizam testes de resistência genotípica. Esses são exemplos claros dos avanços brasileiros na área de assistência em HIV/aids no SUS, que impactam diretamente na qualidade de vida das pessoas que vivem com HIV/aids.

Saber Viver: Quais as maiores dificuldades encontradas pelo Departamento para estabelecer uma política ampla de atendimento, detecção de novos casos e tratamento?

Dirceu Greco: O número de serviços de atendimento especializados para pessoas vivendo com HIV/aids tem aumentado nos últimos anos, como citado anteriormente. Dados da pesquisa Qualiaids – divulgada no IX Congresso Brasileiro de Prevenção das DST e Aids 2012 – também mostram que a maioria das unidades especializadas (94,2%) estão localizadas em regiões com fácil disponibilidade de transportes (85,6%), funcionam cinco ou mais dias por semana e durante oito ou mais horas por dia (81,6%). Isso é resultado do compromisso do Ministério da Saúde em ampliar o acesso aos serviços. Mas sabemos que o Brasil tem características geográficas diversas, com populações que vivem em locais de difícil acesso, e aí está o desafio: chegar onde essas pessoas estão.

O diagnóstico das populações em situação de maior vulnerabilidade  – como profissionais do sexo, usuários de drogas, travestis e transgêneros e homens que fazem sexo com homens (HSH) – é um obstáculo e, ao mesmo tempo, uma prioridade para países em que a epidemia é concentrada, como o Brasil. Por isso mesmo, o Departamento tem investido na testagem rápida de HIV, sífilis e hepatites.

A demanda por exames de testagem vem aumentando e só este ano foram adquiridos 8,3 milhões de testes para o HIV, buscando diagnosticar as cerca de 250 mil pessoas infectadas e que ainda não sabem. Para o diagnóstico da sífilis foram adquiridos 4,8 milhões e para as hepatites B e C, 2,8 milhões de testes – insumos cruciais para a eliminação da transmissão vertical (da mãe para o filho) do HIV e da sífilis congênita.

A adesão ao tratamento antirretroviral é um desafio para a assistência. A interrupção ou descontinuidade do uso dos medicamentos leva à resistência do vírus aos antirretrovirais e uso de esquemas mais complexos e com risco de mais efeitos colaterais. Outra questão importante é o aparecimento de efeitos adversos e suas consequências, como o aumento do risco de eventos cardiovasculares, lipodistrofia (que pode afetar a autoestima), toxicidade renal e hepática (fígado). É preciso que o paciente tenha acesso a cuidados profissionais de qualidade, com capacidade para ajudá-lo a enfrentar as dificuldades inerentes ao tratamento prolongado. E também para estimular e dar acesso a dieta equilibrada e exercícios físicos.

Saber Viver: Como o Departamento está lidando com os pacientes que, graças ao coquetel, estão entrando na 3a. idade? Há algum planejamento para isso?

Dirceu Greco: Historicamente, o Departamento tem se preocupado com esse público. A campanha do Dia Mundial de Luta contra a Aids de 2006, por exemplo, teve como protagonista Beatriz Pacheco, de61 anos, que vive com a doença há 10, é mãe de quatro filhos e avó de três netos. O material publicitário foi elaborado após discussões com a sociedade civil e, veiculado amplamente, durante 15 dias. Beatriz é advogada e desenvolve ações direcionadas para a prevenção da aids em mulheres e pessoas da terceira idade.

Em 2007, a campanha de 1º de dezembro também mostrou preocupação com a prevenção para as pessoas com mais de 50 anos. Em um dos filmes, a mãe orienta a filha a usar preservativo com o namorado e a moça diz que a mãe também precisa se cuidar.

No ano de 2008, o Dia Mundial de Luta contra aids teve como foco principal aids entre homens acima dos 50 anos. Com o slogan “Sexo não tem idade. Proteção também não”, foram abordados assuntos ligados à sexualidade, como o uso do preservativo e dicas para melhorar a relação sexual depois dos 50.

No Carnaval 2009, a campanha deu continuidade à campanha do Dia Mundial de Luta contra a Aids 2008, mas dessa vez foi voltada para mulheres dessa faixa etária. O mote da ação foi o “Bloco da Mulher Madura”. Formado apenas por mulheres acima dos 50 anos, o grupo valorizava o sexo seguro. “Homem sem camisinha a gente não atura, nem para uma aventura”, dizia uma das protagonistas no filme de 30 segundos.

Atualmente, esses pacientes com mais de 50 anos têm acesso a uma ampla rede de serviços de saúde e profissionais capacitados para atendê-los.

Saber Viver: Considerando o atual panorama da Aids no Brasil, estabilização dos casos em 0,6% da população, apesar de inúmeros problemas de infraestrutura no atendimento, quais são as suas perspectivas no trabalho desenvolvido pelo Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais para os próximos 10 anos? O que ainda falta fazer no trabalho desenvolvido pelo Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde? 

Dirceu Greco: Em relação à epidemia da Aids, a focalização da resposta nacional e a intensificação das estratégias de diagnóstico, prevenção e assistência para populações em situação de maior vulnerabilidade são estratégias centrais para aumentar o diagnóstico em tempo adequado, o impacto na qualidade de vida, na sobrevida e na redução da incidência do HIV.

Apesar do reconhecimento da atuação brasileira neste enfrentamento, há vários desafios a superar. É necessário fortalecer a prevenção e o diagnóstico, além de melhorar a rede de atenção a pessoas que vivem com HIV/aids ou hepatites virais e continuar a luta contra a discriminação e o preconceito.

Entre as perspectivas de atuação para os próximos anos, podemos destacar as seguintes:

 ·         Orientar as ações dirigidas às populações em situações de maior vulnerabilidade, a partir de intervenções baseadas em evidências.

·         Diversificar as estratégias de acesso ao diagnóstico, por meio da ampliação da cobertura de serviços de saúde que fazem teste de HIV, intensificar ações de base comunitária, implantar unidades móveis e ações de mobilização.

·         Utilizar diferentes metodologias de testagem para diagnóstico do HIV que considerem diferentes cenários e situações. Por exemplo, teste rápido para populações em regiões de difícil acesso; portadores de tuberculose; pessoas sintomáticas; serviços de emergências.

·         Combinar ações de intervenções comportamentais, biomédicas e estruturais, otimizando as ferramentas disponíveis para responder às necessidades atuais da epidemia. Entre as medidas estão: melhorar a ligação entre os serviços de diagnóstico e os de monitoramento e acompanhamento, incluindo a abordagem consentida nos serviços de saúde; adequar serviços já existentes, estabelecendo serviços de referência, de forma a desencadear uma cultura de seguimento de populações vulneráveis soronegativas, considerando suas necessidades em saúde para o desenvolvimento de programas de atenção integral; expandir a utilização da Profilaxia Pós-Exposição Sexual (PEP), como estratégia de prevenção, de oportunidade de acesso ao diagnóstico e de redução de risco e vulnerabilidade.

·         Desenvolver e utilizar esquemas com um comprimido diário, otimizando a adesão e a manutenção do tratamento.

·         Fortalecer estratégias de prevenção positiva, promovendo ações direcionadas ao estilo de vida e ao convívio com HIV ao longo do tempo.

·         Desenvolver programas de atenção integral para coinfecção tuberculose/HIV, incluindo diagnóstico oportuno do HIV, prevenção da TB e organização das redes de atenção, com disponibilização de medicamentos anti-TB para Serviços de Atenção Especializada (SAE) e Unidades Dispensadoras de Medicamentos (UDM).

·         Implementar rede de pesquisa clínica em DST/HIV/aids, com estruturação de coorte nacional de pessoas vivendo com HIV/aids e populações em situação de maior vulnerabilidade soronegativas, suprindo a lacuna existente de informações sobre prevenção, cuidado e tratamento no contexto brasileiro. 

O Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais reafirma que continua acreditando que a resposta brasileira à aids deve ser construída pela sociedade, por diversas e experientes mãos, respeitando os direitos humanos e as garantias já conquistadas pelas pessoas que vivem e convivem com a aids no país, lutando continuamente contra a discriminação, contra a violência e em busca de justiça e equidade. Hoje temos nas mãos os instrumentos e a vontade política para o efetivo controle da epidemia, com a participação solidária e efetiva da sociedade brasileira.

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