Notícias

  • Fonte normal
  • Aumentar fonte
  • Adicionar a favoritos
  • Imprimir
  • Envie para um amigo:





07/2013

Médico Fábio Mesquita assume a direção do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais

No próximo dia 8 de julho, o médico Fábio Mesquita assumirá a direção do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais. Considerado referência mundial para o tratamento da aids, o Departamento passa por um momento crítico, o que ficou evidente com a exoneração de seu diretor Dirceu Greco e a demissão dos co-diretores Eduardo Barbosa e Ruy Burgos Filho, no início de junho.

Os constantes vetos em campanhas de prevenção ao HIV/aids, durante a gestão do ministro da saúde Alexandre Padilha, são um sinal do retrocesso nas políticas de prevenção ao HIV no país, segundo gestores e profissionais da área da saúde e ativistas, que criticam o pouco diálogo entre governo e sociedade civil.

“O governo está aberto ao diálogo, mas a sociedade civil tem que vir desarmada”, diz novo diretor do Departamento de Aids, Fábio Mesquita

“O governo está aberto ao diálogo, mas a sociedade civil tem que vir desarmada”, diz novo diretor do Departamento de Aids, Fábio Mesquita

Expectativa sobre a gestão de Fábio Mesquita

Ativistas ouvidos pela Agência de Notícias da Aids destacaram a grande experiência de Fábio Mesquita no enfrentamento da epidemia. Alguns disseram ter más recordações da passagem dele pelo Programa de DST/Aids de São Paulo.

O professor da Faculdade de Medicina da USP e presidente do Grupo Pela Vidda, de São Paulo, Mário Scheffer, acredita que “o fato de Fábio Mesquita estar afastado há muito tempo da realidade brasileira e de não ter uma conexão direta com a sociedade civil talvez seja um empecilho”, embora sejam esses desafios também válidos para outros profissionais. Scheffer pontuou três grandes metas ao novo diretor: conseguir autonomia para enfrentar as censuras por parte do Ministério da Saúde; retomar o diálogo com a sociedade civil, interrompido há dois anos; e ter capacidade para apresentar inovações técnicas na resposta contra a epidemia.

Para Nair Brito, do Movimento Nacional das Cidadãs PositHIVas, “o Fábio não é legal”. A ativista disse que nas experiências anteriores ele demonstrou posturas equivocadas. “Não gosto muito dele porque tenho a memória de alguns anos atrás, mas as pessoas mudam… De repente ele vem com um espírito novo e paciência para se relacionar com o ministério. Pode ser que ele chegue arrojado e querendo implantar coisas novas que viu fora do País”, contrapôs. Nair acredita que uma boa escolha da pessoa para dirigir o Departamento de Aids é muito importante, mas ressalta que o cargo carece de respaldo do Ministério da Saúde. “No momento me preocupo mais com a atual política do Ministério. Com uma boa política de governo, qualquer pessoa que tenha atributos, como boa capacidade de gestão, consegue aprofundar as questões. O Dirceu [Greco] era competente, mas não adiantava só a competência dele”, comentou.

O diretor do Espaço de Prevenção e Atenção Humanizada (EPAH), Araújo Lima Filho, também lembrou das polêmicas envolvendo o trabalho de Fábio Mesquita no Brasil. “Ele tem uma historia muito interessante. No entanto, a passagem dele nos Programas Nacional e Municipal (de DST/Aids) de São Paulo não conseguiu atender o movimento e produzir frutos interessantes, deixando muito a desejar. Espero que agora, em outro contexto, ele consiga fazer o que deixou de fazer antes”, afirmou.

Pesquisador e integrante do Grupo de Incentivo à Vida (GIV), Jorge Beloqui disse que “enquanto o governo tiver um ministro da Saúde que faz acordo com as bancadas conservadoras do Congresso, não haverá espaço na prevenção para as populações vulneráveis”.  Para ele, “o problema é o ministro, que faz acordos que competem com os interesses da saúde da população”.

Beto Volpe, do grupo Hipupiara de São Vicente, acredita que Mesquita é uma pessoa com bastante experiência na área. “Ele pode dar uma grande contribuição desde que mantenha a independência do Departamento de Aids em relação ao projeto de governabilidade do governo, especialmente diante dos interesses de poder dos fundamentalistas religiosos. E que resgate o respeito do governo com a sociedade civil organizada, que foi perdido há tempos”, comentou.

Ativistas entrevistam Fábio Mesquita

Doutor em Saúde Pública pela USP, Fábio Mesquita coordenou os Programas Municipais de DST/Aids em Santos, São Vicente e São Paulo e chefiou as Unidades de Prevenção e Direitos Humanos do então Programa Nacional de Aids do Ministério da Saúde, hoje Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais. Antes de ser convidado para assumir a direção do Departamento, era membro do Corpo Técnico da Organização Mundial de Saúde (OMS), atuando no escritório do Vietnã.

Respondendo a perguntas feitas por representantes do movimento social de luta contra a epidemia, Fábio Mesquita disse: “O governo deve estar aberto para dialogar com a sociedade civil, mas a sociedade civil, por sua vez, deve vir desarmada para essa discussão”.

Leia a entrevista no site da Agencia Aids

________________________________________________________________________________________

ENTENDA A CRISE

O Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais é considerado uma referência mundial para o tratamento da aids, mas hoje passa por um momento crítico, que ficou evidente com a exoneração de seu diretor Dirceu Greco e a demissão dos co-diretores Eduardo Barbosa e Ruy Burgos Filho. O motivo da saída da diretoria foi o veto, por parte do Ministério da Saúde, à campanha lançada pelo Departamento no Dia Internacional das Prostitutas, 02 de junho, destinada à prevenção do HIV entre as profissionais do sexo e à redução do preconceito.

Os problemas em relação às campanhas de prevenção, no entanto, são antigos. Antes do carnaval de 2012, o Ministério da Saúde suspendeu a exibição de filme a ser divulgado na TV aberta com foco na prevenção do HIV em jovens gays e, em março de 2013, mandou recolher um material de prevenção das DST/aids dirigido a adolescentes, que abordava temas como homossexualidade, drogas e gravidez.

Em artigo para o site do jornal O Estado de S.Paulo, publicado no dia 12 de junho, e na Folha de S.Paulo em 16 de junho, os ex-diretores do Departamento de Aids Paulo Roberto Teixeira, Pedro Chequer e Alexandre Grangeiro assinaram um texto crítico conjuntamente. Eles apontaram um retrocesso nas políticas de prevenção ao HIV no País. “A posição governamental aponta para uma perigosa mudança de caminho, afastando-se da experiência bem-sucedida e do conhecimento técnico. Abre-se assim a possibilidade real de um agravamento da epidemia no País”. Ainda de acordo com o texto, a recente censura do Ministério da Saúde na campanha para as prostitutas “deixa no limbo um grupo que representa entre 10% e 15% das mulheres infectadas pelo HIV no País”.

Compartilhe