Saber Viver Jovem

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Saber Viver Edições Especiais » Saber Viver Jovem » Saber Viver Jovem n.01

01/2004

Cinco jovens que correm atrás de seus sonhos

QUANDO TÔ A FIM DE ALGUÉM, CORRO ATRÁS!

Nome: Mariana Barbosa Teobaldo
Idade: 18 anos
Vive com HIV há 18 anos
Onde mora: Belo Horizonte – MG
Série na escola: Pré-vestibular
Profissão que escolheu: Engenharia eletrônica

Mariana tem um brilho muito especial no olhar. Uma força só dela que não combina muito com o seu corpo miúdo e frágil, mas se encaixa perfeitamente com os seus planos para o futuro. Ao mesmo tempo em que quer ser uma “grande engenheira elétrica”, tem coragem suficiente para assumir que não consegue tomar os remédios contra a aids direito: “O gosto é horrível e tenho dificuldade de engolir”. Por causa disso, Mariana fica muito doente com freqüência. Quando ela conversou com a Saber Viver Jovem, estava com pneumonia, mas fez questão de contar um pouquinho de sua história. Mariana é assim, guerreira. Torcemos para que ela mude a sua relação com os remédios anti-aids. Afinal, com tantos planos pela frente, é fundamental estar forte. Um beijão, Mariana, de toda a equipe da Saber Viver Jovem.


Você se acha diferente das outras meninas adolescentes?
Eu me acho sim, porque o meu corpo é muito pequeno. Tem outras meninas que são pequenas, mas, por eu ser doente, fica aquele constrangimento. Eu penso que está todo mundo olhando para mim na rua.

Qual é a maior dificuldade que você tem para conviver com o vírus da aids?
Tomar remédio. Gente, eu não consigo tomar aqueles remédios! Parece que tem uma força negativa falando “não toma não, pra quê?”. O gosto é horrível! Às vezes, eu tenho dificuldade de engolir porque eles são muito grandões.

Você fala sempre para o seu médico quando não toma os medicamentos?
Eu não falo sempre, não.

Você gosta de namorar? 
Eu gosto de paquerar. Quando estou a fim de alguém, eu corro atrás. Se ele não tiver a fim de mim, pelo menos eu fico logo sabendo e não me iludo. Eu já tive um namorado firme. Durou uns dois meses. Eu sou muito pontual e gosto de tudo muito certinho. Não gosto de quem faz hora com a minha cara. Marca e não vai. Eu fico uma fera!

Você acha que o HIV atrapalha os seus namoros?
Não. Eu não vou querer passar o que eu tenho para outra pessoa. Quando eu tiver uma relação sexual, eu vou querer me proteger e proteger o meu parceiro. Se eu tiver um problema na boca, eu não vou querer beijar ninguém. Eu sou cuidadosa com o outro.

E na escola, você já foi discriminada por causa do HIV?
Já. Foi na 3ª série. Minha tia achou que poderia contar para minha professora. Mas ela me discriminou na aula. Falou que eu tinha que sentar no fundo da sala porque eu não poderia respirar o mesmo ar que os outros alunos. Minha tia teve que ir à escola. Saiu nos jornais e na revista esta discriminação que eu sofri.

Você ficou com raiva?
Essa reação da professora me deixou muito triste. Arrasada! Eu gostava de sentar na primeira carteira. Eu era muito pequena, não enxergava direito e tinha que ficar em pé no fundo da sala de aula.

Você sabia que tinha o HIV na época?
Eu não sabia, mas desconfiava. Cresci junto com os meus primos, mas só eu tinha que tomar remédios. Depois desse problema na escola, a psicóloga me procurou para contar.

Quais são os seus planos para o futuro?
Quero ser uma grande engenheira elétrica. Não quero casar, porque homem dá muito trabalho. É melhor ficar só nas paqueras. Quero fazer muitas viagens, porque eu gosto de sair. Pretendo adotar uma criança. Não quero ter filhos. Sei que eu poderia tentar, que as chances da criança ser soropositiva são pequenas, mas prefiro adotar.

Você tem muitos amigos? 
Tenho muitos amigos com HIV e sem HIV. Ter amigos é muito importante.

O que você gostaria de dizer para os outros adolescentes que vivem com HIV igual a você?
Nós não somos diferentes dos ou-tros. A gente pode fazer tudo que os outros fazem, só devemos ter alguns cuidados porque a nossa saúde é mais sensível. Se alguém colocar uma pedra em seu caminho, não a chute. Abaixe e a apanhe, porque assim você não corre o risco de encontrá-la na frente novamente.


O HIV ME DEU ÂNIMO PRA CORRER ATRÁS DOS MEUS SONHOS

Nome: Jorge
Idade: 24 anos
Profissão: Enfermeiro
Onde mora: Rio de Janeiro – RJ
Tem o HIV há um ano


Como foi para você descobrir que era soropositivo?
Jorge é enfermeiro e já atendeu vários pacientes com aids. Foi um susto muito grande quando ele se viu infectado pelo o HIV. “Passei para o outro lado”, diz. Superado o choque, Antônio agora só quer saber de curtir os mimos de sua mãe e realizar seus antigos planos. E acha que a melhor coisa que lhe aconteceu foi saber que tinha o HIV sem estar doente.

Em 2002 fiz o exame para o HIV e deu negativo. Por sugestão de uma colega resolvi repetir o exame ano passado. Quando peguei o resultado positivo fiquei com muito medo do que poderia acontecer. Tive receio, principalmente, da reação da minha mãe, da minha irmã e do meu namorado. Fui retardando o momento de contar para eles e isso ia me deixando cada vez mais deprimido.

E o que aconteceu quando você contou?
Fiz uma carta imensa para meu namorado contando e terminei nossa relação de seis anos porque eu não quis ficar naquela paranóia de quem passou o HIV para quem, quem traiu quem. Ele ainda não quis fazer o exame para ver se tem o vírus.

Qual foi a reação da sua mãe quando soube?

Minha mãe foi forte, disse que a aids tem tratamento e que vai estar sempre ao meu lado. Depois que me separei, voltei a morar com ela. Estou tendo agora uma mãe que nunca tinha tido. Antes do HIV a gente nem se dava muito bem. Agora ela cuida o tempo todo de mim: se preocupa com a minha alimentação, não me deixa sair sem um casaco, quer ver todos os meus exames. Eu adoro.

Como você está se sentindo agora em relação à aids?
Acho que a melhor coisa que me aconteceu foi ter descoberto que tenho o HIV sem ter aids. Isso me dá muitas chances de tratamento. Tem gente que descobre quase à beira da morte. É muito pior. Mas a possibilidade de ficar doente me preocupa.

O HIV mudou sua forma de encarar a vida?
Sempre tive planos de sair do Rio, ser enfermeiro em comunidades carentes, cuidar de índios na Amazônia. O HIV me deu ânimo para correr atrás das coisas que eu quero e não ficar só sonhando.

VOCÊ TEM QUE VIVER INTENSAMENTE!!!!

Nome: Roziane Ferreira Gomes Araújo
Idade: 26 anos
Descobriu o HIV quando tinha 18 anos
Mora em Boa Vista (Roraima)
O que faz: Participa da Rede de Pessoas Vivendo com HIV/aids de Roraima
Profissão que escolheu: Assistente social ou Psicóloga
Onde faz o tratamento: Hospital Coronel Mota

Roziane segurou uma barra pesada. Quando tinha 18 anos, descobriu que estava infectada pelo HIV e achou que fosse morrer logo. Grávida, não recebeu orientação dos profissionais de saúde e passava noites chorando, desesperada. Hoje, com 26 anos, Roziane mudou a sua vida. Tornou-se uma defensora dos direitos dos soropositivos que vivem no norte do país. Com um sorriso meigo e doce, ela vive feliz ao lado da filha de 7 anos e diz ter certeza que vai vê-la completar 20 anos.

Quando eu tinha 18 anos, descobri que estava infectada pelo vírus HIV. Foi difícil. Senti aquela sensação de morte, porque naquela época, quando não existiam os remédios, quem descobria que estava com HIV pensava que iria morrer logo.
Engravidei depois de saber que era soropositiva. Na época, fiquei desesperada porque não sabia se eu podia ter um filho. Sentia muita falta de informação no local onde eu me tratava em Roraima. Não existia esse acompanhamento que é oferecido hoje em dia. Eu sentia muito medo do que poderia acontecer na hora do parto. Passava dias no quarto, chorando, sozinha.
Hoje, eu me sinto mais preparada e mais conformada. Aprendi muito e ganhei uma filha maravilhosa, que tem 7 anos e é soronegativa. Estou casada com o pai dela, que é soropositivo, até hoje. Fazemos parte da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/aids de Roraima.
Muita coisa mudou, mas ainda falta humanização para o atendimento ao jovem.Todo mundo vê o tratamento contra a aids a partir do remédio. Os profissionais de saúde sempre falam: tem que tomar os remédios. Eles são importantes, mas não são tudo. Eles (os profissionais de saúde) não percebem que o que mais incomoda é o preconceito e a discriminação.
Todo jovem tem que ter uma pessoa que o ouça, que o acompanhe e que o oriente. O jovem está com todo o gás para curtir a vida. De repente, se deparar com uma situação como essa é barra! É importante ter uma pessoa que mostre para ele que é possível viver e superar as dificuldades.
Quando a minha filha nasceu, eu não queria que ela se apegasse a mim. Tentei me afastar dela, mas quanto mais eu me afastava, mas ela me queria. Hoje, ela é uma das coisas mais importantes pra mim. Tenho certeza que vou vê-la completar 20 anos.
Os jovens que descobriram o HIV recentemente têm uma vantagem que eu não tive: eles têm muitos exemplos visíveis. Eu sou um deles. Passei por muita coisa e estou aqui.
A galera de hoje deve viver a vida normalmente, cuidando muito bem da saúde. Tem que viver, amar, batalhar pelos seus sonhos e viver intensamente.

NA MINHA CASA TEM SEMPRE MUITA BRINCADEIRA

Nome: João Paulo
Idade: 13 anos
Estudo: Está na 6ª série
Onde mora: Na casa de apoio da Sociedade Viva Cazuza no Rio de Janeiro – RJ
Vive com HIV desde que nasceu

João Paulo vive com seus 21 irmãos em uma linda casa com quintal no Rio de Janeiro. A casa de apoio da sociedade Viva Cazuza oferece a crianças e adolescentes soropositivos e carentes a oportunidade de ter um lar cheio de afeto, educação e muita bagunça. João Paulo conta nesta entrevista quais são as vantagens e desvantagens de viver em uma família tão grande.

Conte um pouco do seu dia-a-dia na casa Viva Cazuza.
De manhã vou para a escola e à tarde faço as lições de casa. Nos finais de semana, nós geralmente vamos a shows, ao cinema, a parques e museus. Mas não é sempre.

Que tal ter 21 irmãos?
Por um lado é bom. Tem sempre muita brincadeira. Eu me dou bem com todo mundo, principalmente com três meninos que considero meus melhores amigos. As meninas são meio bagunceiras, e eu adoro perturbar os menores. De vez em quando sai alguma briga, mas é normal.
O lado ruim é que, às vezes, quem faz as coisas direito e na hora certa acaba sendo prejudicado por quem não faz.

Como assim?
Tem uma regra de só ligar a televisão depois que todo mundo tomar banho. Tem gente que fica enrolando e aí ninguém pode ver televisão.

Você se dá bem com os adultos da casa?

Gosto de todos os funcionários daqui, principalmente os mais antigos. Sei que posso contar com eles para tudo. Quando tenho algum problema, peço ajuda e conselhos. A única coisa ruim é que eu queria ter mais liberdade.

Do que você sente falta?
Gostaria de poder sair mais para rua. De jogar futebol ou ir ao cinema com meus colegas da escola, por exemplo.

Você já pensou em sair daqui?
Às vezes, quando eu me chateio com alguma coisa. Mas aí eu paro para pensar e sei que não quero ir embora. Vivo aqui desde os cinco anos e já me acostumei. Eu adoro quando o meu pai vem me visitar, mas prefiro ficar aqui.

Quais são seus planos para o futuro?
Quero ser advogado porque acho que levo jeito. Sempre que tem uma confusão com os meninos aqui na casa, sou eu quem defende o pessoal e dou idéia do que falar para os funcionários.

 

NÃO FICO PENSANDO EM AIDS O TEMPO TODO

Nome: João
Idade: 18 anos
Onde mora: Ji-Paraná, Rondônia
Estudo: Está no 2º ano do nível médio
Trabalho: Artista gráfico
Vive com HIV há 11anos

João encara a aids numa boa. Infectado pelo HIV através de uma transfusão de sangue quando tinha 7 anos, só descobriu que era soropositivo aos 12. A partir daí passou a querer saber tudo sobre o HIV. Bem informado, ele evita transmitir o vírus para suas namoradas, conversa sobre o assunto com seus amigos e nem se abala com o preconceito.

Como você leva sua vida sendo um jovem vivendo com HIV/aids?

Eu encaro a aids de forma tranqüila, como se fosse mais uma barreira. Todo mundo tem barreiras na vida. Eu levo uma vida praticamente normal.

Como você encara o preconceito?

Não sinto preconceito. A empresa na qual trabalho sabe que tenho o HIV e eu me dou super bem com as pessoas. Na escola tive problemas com a diretora, mas eu a processei alegando preconceito e a direção foi mudada. Agora todo mundo na escola me respeita. Converso com meus amigos sobre aids numa boa e não me sinto excluído. Meu pai gosta de arrumar confusão quando alguém preconceituoso tenta me ofender. Mas eu acho que no fundo o que essa pessoa tem é falta de informação sobre a aids.

E na hora de arrumar namorada é fácil?

Agora eu estou namorando firme e minha namorada é virgem. Mas antes tinha muita menina dando em cima de mim. Para algumas namoradas, eu contei que era soropositivo; para outras, não. Sem problemas. Eu sempre transei com camisinha. Não quero infectar ninguém.

Você se cuida?

Procuro tomar os remédios direito, vou ao hospital quando é necessário. Me sinto privilegiado por estar bem, ter meus pais, ter minha casa. Mas vivo cansado e durmo pouco. Meu trabalho exige demais de mim e a escola também. Tenho medo de ter problemas de saúde no futuro.

Quais são seus planos para o futuro?

Quero me formar, ser engenheiro e me casar. Isso está praticamente certo que vou conseguir. É só eu continuar lutando como estou. Quero também ter filhos.

Você é bastante seguro em relação à aids. A que você atribui isso?

Quando soube que era soropositivo senti necessidade de saber tudo sobre o que eu tinha. Li muito sobre o assunto. Hoje, se alguém chegar com um preconceito bobo de que beijo na boca transmite aids, tenho a possibilidade de provar que não, devido à informação que tenho. Informação é sempre bom. Por outro lado, não fico o tempo todo pensando em aids. Tenho outras coisas para me ocupar também.

 

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