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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.14

10/2008

17ª Conferência Internacional de Aids

Especialistas e ativistas debatem, no México, avanços e desafios para enfrentar a epidemia


Especialistas em HIV/aids de todo o mundo estiveram reunidos entre os dias 3 e 8 de agosto durante a 17a Conferência Internacional de Aids, na Cidade do México, para debater os principais avanços e desafios no enfrentamento da epidemia que atinge 33 milhões de pessoas em todo o mundo. Após muitos debates, o consenso de que é preciso intensificar os esforços mundiais para atingir a meta estabelecida para 2010: o acesso universal ao tratamento e à prevenção da infecção.

Em seis dias, mais de cinco mil estudos foram apresentados e debatidos em conferências, mesas-redondas e sob a forma de pôsteres. Protestos protagonizados por ativistas sociais de todo o mundo exigiram a redução do preço de medicamentos anti-retrovirais e melhores condições de vida para as pessoas vivendo com HIV/ aids, incluindo a criminalização do preconceito contra soropositivos. Diferentes abordagens foram trabalhadas, organizadas em cinco áreas temáticas: Biologia e Patogênese do HIV; Pesquisa clínica, tratamento e cuidado; Epidemiologia, profilaxia e pesquisas de prevenção; Ciências econômicas, sociais e comportamentais; e Vigilância e ciências políticas.

Experiência brasileira em foco
O Programa Nacional de Doenças Sexualmente Transmissíveis e Aids do Ministério da Saúde (PN-DST/Aids) integrou a programação do evento com 28 atividades, entre pôsteres, debates e oficinas.

A emergência de uma microepidemia pelo subtipo C do HIV no sul do Brasil foi tema de estudo que analisou os índices de resistência viral em pacientes infectados por diferentes subtipos do vírus da aids. O trabalho foi apresentado por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo, da Universidade de Caxias do Sul, do Serviço Especializado de HIV/AidsHerbert de Souza, do Hospital Sanatório Partenon de Porto Alegre e da Universidade de Carolina-São Francisco, nos Estados Unidos. Os resultados da investigação molecular de amostras sorológicas obtidas de 109 indivíduos soropositivos que vivem na região sul do país indicam a prevalência do sorotipo C em 61,5% dos pacientes. O subtipo B – de maior prevalência nacional – foi identificado em 28,4% das amostras.

Segundo os pesquisadores, o estudo colabora para o melhor entendimento da epidemiologia do HIV no sul do Brasil, que apresenta características distintas à epidemia nacional, e alerta para o maior índice de resistência viral entre os indivíduos infectados pelo sorotipo B do HIV, naquela região do país.

Uma sessão satélite promovida no terceiro dia do evento debateu experiências de países em desenvolvimento sobre a quebra de patentes. Gabriela Chavez, da Associação Brasileira Internacional de Aids (Abia), descreveu o processo de licenciamento compulsório do anti-retroviral efavirenz no Brasil e comemorou a iniciativa anunciada pela Unitaid (agência internacional para a compra de remédios para aids, tuberculose e malária) para a criação de um fundo de patentes para fabricar medicamentos para países pobres.

Integração entre prevenção e tratamento é urgente
A partir da premissa de que a quantidade de novas infecções pelo HIV já ultrapassou a capacidade dos sistemas de saúde oferecerem tratamento e acompanhamento médico, a 17a edição da Conferência Internacional de Aids, primeira na América Latina, enfatizou a prioridade de intensificar iniciativas de prevenção em todo o mundo. Durante a cerimônia de abertura do evento, o diretorexecutivo da Unaids, Peter Piot, destacou que iniciativas de prevenção e tratamento são complementares e devem ser combinadas estrategicamente. “Combinar prevenção e tratamento é a única escolha factível. Qualquer outra opção é francamente irresponsável”, Piot alertou.

O pesquisador Myron Cohen, da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, reforçou essa idéia durante sua apresentação. “Para o enfrentamento da epidemia é urgente casar o tratamento e a prevenção do HIV”, disse. Cohen descreveu como intervenções profiláticas podem ser aplicadas anterior e posteriormente à exposição ao HIV, citando como exemplo o sucesso da prevenção da transmissão vertical do vírus a partir da administração de medicamentos anti-retrovirais.

O pesquisador ressaltou ainda que a prevenção do HIV/aids deve integrar diferentes abordagens: a combinação de estratégias primárias; o revigoramento de iniciativas para o desenvolvimento de vacinas e de outros mecanismos imunológicos capazes deprevenir a infecção; a administração de terapia anti-retroviral; e, sobretudo, o encorajamento à investigação do status sorológico.


Estudo inédito sobre papel dos ARVs na prevenção do HIV 

Sob a mesma perspectiva, um estudo inédito apresentado por pesquisadores canadenses do BC Centre for Excellence in HIV/Aids indica que a ampla cobertura de terapia anti-retroviral altamente ativa pode influenciar positivamente a prevenção da infecção do HIV. Intitulado Expanded acess to highly active retroviral therapy: a potencially powerful strategy to curb the growth of the epidemic e publicado no Journal of Infectious Diseases, o trabalho utiliza um modelo matemático inédito para calcular como a ampliação do acesso aos medicamentos anti-aids – e, consequentemente, o aumento do número de pacientes em tratamento – pode colaborar para a prevenção de novas infecções.

Os resultados, relativos aos próximos 25 anos na província de British Columbia, no Canadá, sugerem que a expansão em 50% da cobertura antiretroviral poderá reduzir em até 30% o número de novos casos ao ano. Proporcionalmente, a ampliação em 100% da administração da terapia em pessoas vivendo com HIV/aids comprometeria em 60% a expansão da epidemia. “Utilizar a terapia antiretroviral como estratégia de prevenção reforça a importância do acesso universal aos medicamentos disponíveis. Mas não podemos nos esquecer de que todo esquema terapêutico deve integrar uma abordagem compreensiva do paciente, que considere toda a sua individualidade”, comentou o enviado especial das Nações Unidas para o HIV na África,Stephen Lewis. “É impossível pensar em uma cobertura universal para terapia anti-retroviral, por exemplo, em comunidades africanas submetidas à desnutrição e à insegurança alimentar”, reconheceu.

Participação de soropositivos na formulação e execução de políticas de saúde
A definição do esquema terapêutico – quando e como iniciar o tratamento – também foi alvo de discussões. O médico Anton Pozniak, do Hospital de Chelsea e Westminister, no Reino Unido, considerou imprescindível equilibrar os efeitos positivos do tratamento precoce aos riscos que esta estratégia pode provocar, como a ocorrência de importantes efeitos colaterais em função da alta toxicidade dos medicamentos e a seleção de vírus resistentes. Neste sentido, o palestrante alertou para estudos recentes que detectaram taxas inesperadas de toxicidade relacionadas à administração de inibidores não-nucleosídeos da transcriptase reversa.

O fortalecimento e a expansão simultânea de sistemas de saúde, integrando programas especiais na área, também emergiram como consenso entre os debates. Os especialistas ressaltaram que, para o sucesso das iniciativas de enfrentamento à epidemia, é imprescindível a participação de pessoas vivendo com HIV/aids na formulação e execução de políticas públicas de saúde.

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