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Saber Viver » Saber Viver n.25

12/2003

1983 – 2003: 20 anos da epidemia de aids no Brasil

A morte do estilista Marquito foi um dos fatores para que 1983 fosse considerado o marco da chegada da epidemia no país. Também neste ano, o Brasil iniciou a sua luta contra a aids: o estado de São Paulo criava o primeiro programa de DST/aids do país, que veio a se tornar referência para toda a América Latina. Sem dúvida, uma boa notícia em uma época em que não havia tratamento para a aids. “Era muito difícil atender os pacientes sem saber o que fazer ou como ajudar. Só tratávamos as infecções. Até hoje, custo a acreditar que vivi situações tão difíceis e tão desafiadoras”, lembra a infectologista Márcia Rachid.

HIV: o inimigo desconhecido

De fato, há apenas duas décadas, receber um diagnóstico positivo para o HIV era o mesmo que uma sentença de morte. Não havia muitas histórias otimistas que fizessem crer que logo seria possível viver e conviver com o vírus da aids. Porém, a epidemia de aids mobilizou pesquisadores, médicos, profissionais de saúde e pessoas infectadas a tal ponto que, em 20 anos, se conhece mais sobre aids do que sobre muitas outras doenças que existem há mais tempo. Em 1986, surgia o primeiro de uma série de medicamentos que iriam mudar o rumo da epidemia de aids, não só no Brasil, mas no mundo. O AZT, no entanto, era restrito aos poucos que podiam pagar, e sua eficácia como terapia única era duvidosa. Foi nessa época que o Ministério da Saúde criou o então Programa Nacional de DST/Aids.São muitas as datas que nos levam ao início da epidemia de aids no Brasil. Em 1982, quando se iniciou a testagem para detecção do HIV, cinco brasileiros foram diagnosticados soropositivos. Em 1985, descobriu-se que um rapaz morto em 80 tinha, de fato, sido a primeira vítima fatal da doença no Brasil. Mas foi em 1983, com a morte de um famoso estilista de São Paulo, que a sociedade brasileira se deu conta de que a epidemia chegara ao país.

AZT chega ao país

Em 1990, pressionado por ativistas e portadores do HIV, o governo de São Paulo iniciou a distribuição do AZT. Um ano depois, foi a vez do Ministério da Saúde iniciar a distribuição do AZT (zidovudina) e do ddI (didanosina) em todo o país. “Quando come – çou a distribuição, a quantidade de AZT já não era suficiente para os que o esperavam. Naquela época, havia os que compravam (a maioria, com sacrifício) através da Varig e os que nunca tinham visto o medicamento. Todos se inscreveram no programa de distribuição do remédio, passando a ser incluídos nos casos notificados”, conta Raldo Bonifácio, diretor adjunto do Programa Nacional de DST e Aids do Ministério da Saúde. Por causa disso, em apenas dois anos, quase dobrou o número casos notificados de aids, passando de 8.700 casos em 90 para quase 15.000 em 92. “A taxa de mortalidade nos primeiros 10 anos da epidemia era de quase 90%”, conta Raldo. “Era uma catástrofe. Sem remé dios e sem muita informação, os soropositivos viviam uma pressão e um de ses pero enormes”, relata o diretor do PNDST/Aids.

Lei garante distribuição de anti-retrovirais

A ciência, no entanto, não descansou, e nos primeiros anos da década de 90 foram surgindo novas opções de tratamento que acende – ram uma luz no fim do túnel para pacientes e profissionais de saúde. Em 96, já havia seis medicamentos disponíveis na rede pública e outros tantos em estudo, prontos para serem lançados no mercado. Nesse mesmo ano, o Congresso Nacional aprovou uma lei, do Senador José Sarney, que obrigava o governo a distribuir gratuitamente todos os anti-retrovirais disponíveis. Nos dois anos seguintes, mais cinco medicamentos chegaram ao mercado, trazendo opções de tratamento, tornando o chamado ‘coquetel’ uma tábua de salvação para milhares de pacientes.

Surgem os inibidores de protease

“A partir de 96, com o surgimento dos inibidores de protease, sentimos um impacto positivo tanto clínico quanto epidemiológico. Houve uma redução de 50% nas mortes por aids e uma melhora significativa da qualidade de vida dos portadores”, conta Márcia Rachid. “O acesso à terapia anti-retroviral tornou possível o controle das infecções oportunistas e, conseqüentemente, as internações foram reduzidas drasticamente”, ressalta a médica. Segundo o Ministério da Saúde, somente entre os anos de 1997 e 2001, 360 mil hospitalizações foram evitadas, trazendo uma economia brutal aos cofres públicos e confirmando a sensível melhora na qualidade de vida dos pacientes com aids.

Aids abre caminho para discussão da sexualidade

As conquistas não foram somente na área cientifica, mas também na social. “Hoje o governo disponibiliza 16 anti-retrovirais gra tuitamente nos mais de 500 postos de saúde e hospitais credenciados e a socie – dade brasileira deu um exemplo de responsabilidade ao permitir uma discussão aberta sobre sexualidade e formas de prevenção”, diz Raldo Bonifácio.

Futuros Desafios

Apesar das conquistas e avanços nos últimos 20 anos, muito ainda precisa ser feito no combate à epidemia de aids no país. Na área da prevenção, um dos desafios é vencer o preconceito e a desinformação nas escolas, incluindo a discussão sobre sexualidade nas salas de aula. No campo científico, a maior meta é a des coberta de uma vacina capaz de impedir a reprodução do HIV e a infecção pelo vírus. Enquanto esta vacina não é descoberta, pes quisadores continuam buscando medicamentos contra a aids cada vez mais fáceis de serem to ma dos e com menos efeitos colaterais. “O grande de safio agora é en frentar os efeitos adversos dos medicamentos e manter a eficácia da terapia”, avalia Márcia Rachid. Jorge Beloqui, um dos fundadores do Grupo Pela Vidda de São Paulo e membro do Grupo de Incentivo a Vida (GIV), concorda com a médica e vai além. Segundo ele, que defende a produção local de me dica mentos contra a aids como forma de baratear os gastos públicos, para combater os efeitos colaterais e as infecções oportu nistas é preciso um maior compromisso dos estados e municípios. “Temos remédios anti-retro virais, que são uma responsabilidade Federal. Mas tratamento não é só anti-retroviral. Infelizmente, sempre faltam remé dios pa ra doenças oportunistas e efeitos colaterais e exames para detectar os níveis de carga viral e CD4, responsabilidade dos estados e municípios. Precisamos garantir um maior compromisso das autoridades estaduais e municipais. Só assim, seremos de fato um modelo mundial no combate à epidemia de aids.

 

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