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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.15

12/2008

Práticas sexuais de casais sorodiscordantes para o HIV/AIDS

Entre casais sorodiscordantes, a recomendação expressa do uso regular de preservativos é parte das intervenções médicas. Mas de que forma “sentimentos conjugais” – como erotismo, paixão, atração, tesão, desejo – estão sujeitos à medicalização?

A sexualidade e as práticas sexuais são, em grande medida, modeladas culturalmente, apresentando-se como hábitos, prescrições e normas coletivas que classificam o permitido e o proibido (e, muitas vezes, podem não coincidir com a lógica racional da prevenção).

Os significados atribuídos ao que é considerado “risco” estão relacionados às trajetórias sociais e à interação entre os parceiros. Com a soropositividade, há, em geral, um período de suspensão de beijos, carícias, contatos íntimos e atividade sexual e inicia-se um processo de adaptação ao risco da doença, repleto de emoções e dúvidas. As práticas sexuais se alteram, ainda que esta situação se relacione com outras mudanças próprias à esfera da conjugalidade, como o tempo de relacionamento. Os encontros sexuais podem tornar-se mais esporádicos, e o sexo passa a ser complementado por outros sentidos. Uma certa apreensão no contato sexual e muitas dúvidas em relação “ao que pode ou não ser feito” tornam-se presentes.

Diferenças de gênero incidem sobre os cuidados com a prevenção. Muitos homens acham que suas mulheres não transmitirão o HIV, pois a conjugalidade está simbolicamente associada à idéia de limpeza. A suspensão do uso do preservativo, muitas vezes sugerida pelos homens, também é justificada pelo desejo de “sentir a carne e a pele” da parceira. Embora com medo da possibilidade de transmissão do HIV ao parceiro, esta prática é aceita (não sem tensão e negociação) pelas mulheres, em nome do relacionamento, revelando as complexas decisões que envolvem a prevenção na esfera conjugal.

A imprevisibilidade do ato sexual parece desconsiderada pela lógica racional de prevenção. O sexo pode ocorrer em distintas situações (de madrugada, ao acordar ou no banho) e a utilização de preservativo nestes momentos rompe com a imagem de espontaneidade do ato e evoca um evento “que se quer esquecer”.

Os casais desenvolvem métodos caseiros de prevenção, como a redução da duração do ato sexual. O beijo na boca pode provocar confusão, em conseqüência da mensagem pouco clara veiculada pela Saúde Pública. Muitos consideram que beijos longos e demorados, com troca abundante de saliva, não devem ser dados. A penetração vaginal é a prática sexual mais freqüente, e muitas vezes é realizada sem preservativo. O “coito interrompido” e a masturbação masculina são formas de minimizar a possibilidade de transmissão do HIV. O sexo anal é o tipo de interação sexual menos praticado pelos casais heterossexuais, e o sexo oral não se constitui como uma prática recíproca e simétrica entre os pares. Apenas eventualmente é recebido pelos soropositivos. Para muitos, o contato da boca com os órgãos genitais – considerados “impuros” — parece mais arriscado do que o sexo vaginal desprotegido. Estratégias de prevenção durante o sexo oral – camisinha ou PVC – não são adotadas, pois revestir os órgãos sexuais é engraçado aos olhos dos casais, que, ainda, rejeitam o sabor e a textura destes materiais.

O exercício da sexualidade soropositiva é objeto de exame por parte das instâncias de saúde e da família, evidenciando tutela da sexualidade por terceiros, fora do âmbito conjugal. Os casais muitas vezes percebem esta intervenção como invasiva e referem receio de conversar explicitamente com os profissionais de saúde sobre seus desejos e práticas.

A descrição da rotina sexual possibilita entender um complexo quadro de valores desconsiderado pelas mensagens tradicionais de prevenção que falam vagamente de sexualidade sem abordar as práticas sexuais e seus significados para os parceiros. A gestão do risco sexual não significa uma simples introdução do preservativo e pode ter vários outros significados, estando relacionada a aspectos de gênero, de conjugalidade, ao processo de internalização da doença e outros fatores.

Esse artigo foi baseado nos resultados da pesquisa de doutorado Casais Sorodiscordantes: conjugalidade, práticas sexuais e HIV/AIDS, de Ivia Maksud. Leia a tese na íntegra clicando no link Biblioteca
* Cientista Social, Doutora em Saúde Coletiva e assessora de projetos da ABIA.

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