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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.20

09/2010

Construindo uma família sem HIV

Com o aumento da expectativa de vida das pessoas com HIV, cresce entre elas o desejo de ter filhos. E o que fazer nessa hora? O Ministério da Saúde está preparando um guia completo sobre Reprodução Assistida em tempos de HIV/aids, mas, enquanto o guia não está disponível, a Saber Viver conversou com especialistas no assunto para que a falta de informação dos profissionais de saúde não se traduza na negação de um direito.
O assunto vem sendo amplamente abordado pelo Ministério da Saúde e pela Organização Mundial de Saúde (OMS). No caso de os dois serem soropositivos, a orientação é planejar a gravidez na melhor fase clínica: fazer sexo desprotegido quando os dois estiverem com carga viral indetectável e CD4 elevado, não ter doença crônica associada nem infecções genitais, e escolher bem a data para o sexo desprotegido de acordo com o período de maior fertilidade da mulher. Em 2008, segundo o Ministério da Saúde, cerca de 3.000 mulheres portadoras do HIV engravidaram.
“A palavra-chave quando falamos em reprodução é autonomia. Devemos fornecer orientações sobre o melhor momento para que os pacientes tenham seus filhos e informá-los sobre os riscos contidos nessa decisão. Com orientação, ter ou não filhos é parte da autonomia dessas pessoas”, afirma Unaí Tupinambás, Professor Adjunto do Departamento de Clínica Médica da UFMG.

Claudia Navarro é médica do Serviço de Reprodução Humana do HC de Belo Horizonte/MG.

Casais sorodiscordantes 
Em Belo Horizonte, Minas Gerais, casais soropositivos que desejam ter filhos contam com o serviço do Hospital das Clínicas, que oferece o tratamento através do SUS. A técnica varia se o casal é sorodiscordante com parceira ou parceiro infectado ou se ambos estão infectados. “Para a mulher soropositiva o indicado é a Inseminação Intra Uterina (IIU) em ciclo natural. Caso a paciente não tenha nenhum problema de infertilidade, pode-se apenas rastrear a ovulação e inseminar com o sêmen beneficiado do marido”, explica a médica Claudia Navarro, integrante do Serviço de Reprodução Humana do Hospital. As chances de gravidez nesses casos se assemelham à de uma gravidez natural. “Se considerarmos que a fecundidade da raça humana está em torno de 20% (chance de 20% de engravidar em um ciclo), às vezes é necessário que se realizem vários ciclos de IIU para que se alcance a gravidez”, diz Claudia.

Quando o homem é soropositivo, a indicação é a Fertilização in vitro com micromanipulação, onde um único espermatozóide é injetado dentro do óvulo. “Outra opção é a Inseminação intrauterina (IIU) onde o sêmen é beneficiado através de técnicas que irão lavá-lo”, completa Claudia. Vale lembrar que o serviço atende toda a demanda de infertilidade do estado, por isso a fila de esperaé grande.
De acordo com Unaí Tupinambá, pode-se comparar a temática com a da lipodistrofia, na qual portaria do Ministério da Saúde estabelece disponibilidade de profissionais e equipamentos, mas o acesso ao tratamento ainda é difícil devido ao elevado número de pessoas que precisam do procedimento. No caso da reprodução, o número de interessados é grande, mas poucos centros especializados em reprodução assistida permitem a admissão de casais com HIV. Somam-se a isso custos altos. Pelo SUS, o tratamento em sié gratuito, mas o casal deve arcar com as medicações.

Isabella Nóbrega lamenta que não haja serviço

Falta de apoio
A infectologista e coordenadora da Clínica Aids da Policlínica Antônio Ribeiro Neto, no Rio de Janeiro, Lia Adler, reforça as dificuldades enfrentadas pelo Estado. “Não existe na estrutura do SUS no Rio de Janeiro apoio para reprodução assistida, que está restrita a clinicas particulares”, afirma. O fato acarreta na inexistência de um fluxo de orientação ao usuário. “Para estabelecer um, é necessária a participação coletiva dos serviços que atendem pacientes com HIV/aids no Rio, para que se implantem os serviços públicos que atuarão na área”, diz.
Conforme apontado por Lia, para os que podem arcar com os custos, existem as clínicas particulares. A biomédica Fabianne Coutinho, responsável pelo Laboratório de Andrologia da Clinica Pró-Nascer/RJ conta que, após dois meses de tratamento, a equipe obteve sucesso em seu primeiro caso de sorodiscordantes para o HIV: trigêmeos livres do vírus.
Em Salvador, Bahia, a realidade sobre o assunto assemelha-se à do Rio de Janeiro. “Ainda não dispomos de reprodução assistida pelo SUS. Inclusive, na própria rede privada, não há lugares onde se faça a purificação do sêmen”, afirma a infectologista Isabella Nóbrega. Ainda assim, o assunto tem demanda crescente.

EM SÃO PAULO A REPRODUÇÃO ASSISTIDA PARA SOROPOSITIVOS JÁ É UMA REALIDADE

OCentro de Referência e Treinamento em DST/AIDS-SP oferece desde maio o 1° Programa de Reprodução Assistida para Soropositivos. A iniciativa, pioneira na rede pública do país, é uma parceria da Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo com o Centro de Reprodução Assistida em Situações Especiais (CRASE) da Faculdade de Medicina do ABC.

Até o momento, o ambulatório já atendeu cerca de 30 portadores do HIV. “Deste total, 6 homens estão dentro do critério para o procedimento, que é CD4 alto e carga viral indetectável”, explica Rita Manzano Sarti, infectologista e coordenadora do serviço.

O programa tem priorizado a inclusão de casais em que o homem é soropositivo e a mulher soronegativa. O procedimento nestes casos é a lavagem do esperma e a fertilização in vitro. Esta técnica permite aos casais reduzirem ao máximo a chance de transmissão do vírus para a parceira e também para o bebê.

Joaquim, 57 anos, é portador do HIV desde 1993. Pai de três filhos de seu primeiro casamento, Joaquim deseja realizar o sonho de sua nova parceira de ser mãe. Usuário do CRT DST/AIDS-SP ele ficou animado quando soube do programa de reprodução assistida e está na fila para o procedimento. “Minha namorada está radiante. Agora só falta fazer alguns exames para a realização do proce dimento”, comemora Joaquim.

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