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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.20

09/2010

Mortes por AIDS: porque elas ainda ocorrem?

Dados do último Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde apontam que a mortalidade por aids no Brasil é de 11 mil óbitos por ano, demonstrando que a doença, ainda hoje, revela-se como um importante problema de saúde pública no país. “Não pode ser natural 30 pessoas morrerem de aids por dia no Brasil”, afirma Mário Scheffer, presidente do Grupo Pela Vidda/SP. Segundo ele, o tema está banalizado. “Se um ônibus com 30 pessoas cai no precipício e nenhuma delas sobrevive, toda a mídia se mobiliza. No caso da aids, é como se tivéssemos uma tragédia diária dessas, mas ninguém fala sobre o assunto”, diz.

O ativista ressalta que estamos convivendo com um patamar de óbitos elevado há muito tempo. “Com a entrada de medicamentos mais potentes em 1996, observou-se uma queda na mortalidade de cerca de 50%. Porém, nos últimos cinco anos, temos uma taxa que, apesar de estável, é extremamente alta”, completa.

Diagnóstico tardio
Dentre as causas que contribuem para o cenário em questão, encontra-se o diagnóstico tardio. “Uma parcela muito alta da população chega tardiamente para a testagem, já doente ou com o sistema imunológico muito debilitado”, explica Mário Scheffer.

Segundo a infectologista Melissa Bianchetti, Coordenadora do Programa de DST/Aids de Betim, Minas Gerais, estudos demonstram que cerca de 35% dos pacientes que chegam às primeiras consultas de HIV têm CD4 menor que 200, ou seja, com diagnóstico de aids. “Os casos poderiam ser diagnosticados mais precocemente e possivelmente com redução da mortalidade”, afirma Melissa.

Condições favoráveis
Marcelo Freitas, assessor técnico da Unidade de Assistência e Tratamento do Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais afirma que, para ter impacto na mortalidade, é preciso começar o tratamento com condições favoráveis. “O diagnóstico precoce é um desafio não só da aids, mas de todas as doenças. Veja o exemplo do câncer. Qual a grande reclamação dos médicos? Que as pessoas descobrem a doença com um quadro já avançado”, afirma.

Nesse sentido, Marcelo ressalta a necessidade de deixar os testes mais acessíveis. “Por isso investimos em campanhas, como o Fique Sabendo, e campanhas de mobilização nas paróquias. Além disso, estamos buscando ampliar a oferta do teste na atenção básica e na cobertura às gestantes”, diz.

População vulnerável
A essa realidade inclui-se o fato de que a aids tem atingido uma parcela extremamente vulnerável da popula-ção. “A aids cruza com uma situação de miséria, na qual muitas pessoas não têm acesso ao serviço de saúde, renda e moradia”, afirma Mário Scheffer.

Para Melissa, é importante trabalhar na ponta com um olhar mais apurado para a oferta do teste, especialmente para os grupos mais vulneráveis, por isso tem apostado na divulgação de informações e ofertas dos testes. “O que fazemos é divulgar os dias e horários do CTA em todo o nosso material de campanha, como no Dia dos Namorados, semana da mulher e parada gay. “Além disso, fazemos treinamentos frequentes para a rede básica em aconselhamento e testagem de HIV, estimulando-os a realizarem o teste nas unidades básicas”, completa.

Outras causas
Há ainda uma parcela significativa de pacientes que se encontra em tratamento há muito tempo – iniciado com a monoterapia – criando resistência do vírus ao antirretroviral. Além disso, as comorbidades não relacionadas à evolução da infecção pelo HIV, como as cardiopatias, muitas vezes são subestimadas pelos profissionais de saúde. “Há pouco atenção dispensada a essas doenças por parte dos serviços de saúde, o que leva a óbito uma parcela significativa de pessoas”, diz Mário Scheffer.

MORTALIDADE POR CAUSAS NÃO ASSOCIADAS AO HIV/AIDS CRESCE NO PAÍS
Estudo publicado pela equipe coordenada pelo médico Mauro Schechter, chefe do laboratório de pesquisas em aids do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (UFRJ) avaliou os índices de mortalidade em pessoas com e sem o HIV, a partir de dados de todas as certidões de óbito brasileiras de 1999 a 2004. “Após comparar as certidões das pessoas que tinham o HIV citado
entre as quatro causas de óbitos e as que não tinham, observou-se que houve uma diminuição no número de óbitos por tuberculose e um aumento de óbitos por causas não associadas à aids”, afirma.

O médico explica que, no Brasil, a mortalidade por aids caiu entre 1996 e 1999, mantendo-se estável desde então. Entretanto, entre os portadores do HIV, cresceu a mortalidade por causas não associadas à doença. “No caso das doenças do coração houve aumento de 8%, contra 0,8% da população em geral”, ressalta.
A equipe de Mauro Schechter também participou de estudo realizado com 1200 pessoas com HIV em vários países, inclusive o Brasil, divulgado na XVIII Conferência Internacional de Aids. O levantamento constatou que, em todo o mundo, o médico não discute com seus pacientes questões fora da aids. “O sistema
de saúde, seja brasileiro, ou não, olha o HIV e esquece da pessoa”, diz Mauro.

O pesquisador destaca, assim, a importância de pedidos, por parte dos médicos, de exames como o colesterol e triglicerídeos, que devem ser feitos ao menos duas vezes ao ano, preferencialmente junto ao CD4 e carga viral.

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