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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.20

09/2010

O médico e o humano

Examinar, diagnosticar, tratar. Esses são os verbos que melhor definem as atividades diárias do profissional de medicina. Mas há outro verbo, esquecido talvez com o avanço das tecnologias, mas ainda de grande valor nas consultas e atendimentos de saúde: o ato de ouvir.
“O médico precisa ouvir, olhar nos olhos do paciente e ter sensibilidade para identificar seus problemas e necessidades, que muitas vezes não são relatados claramente. Assim, é possível direcionar melhor o tratamento e encaminhar o paciente a atendimentos específicos, com psicólogos, nutricionistas ou assistentes sociais”, reconhece a infectologista Lia Adler, que atua há 20 anos na Clínica de Aids da Policlínica Antônio Ribeiro Neto (PAM 13 de Maio), no Rio de Janeiro.

Relação de confiança
A médica ressalta que estabelecer uma relação de confiança com o paciente é fundamental. “O paciente precisa saber que estamos comprometidos com ele, que o entendemos em sua totalidade – e não como um mero conjunto de sintomas. Somente desta forma ele também se comprometerá com a equipe de profissionais de saúde que o atende, com a clínica e com o seu tratamento”, Lia observa.

Para o infectologista Ricardo Tapajós, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), a atenção à saúde deve ser individualizada, humanizada e holística. “O paciente é um ser complexo, formado pelo somatório de múltiplas facetas e histórias. Tem afetos, sensações, valores, relações espirituais. O médico deve contemplar todo este pacote e não somente o quadro clínico evidente”, Tapajós considera.

Cuidar de quem cuida
O infectologista reforça que, além do paciente, o médico deve ser humanizado: “Também temos valores, necessidades e inserções sociais”. Lia concorda: “É preciso cuidar de quem cuida e humanizar as condi-ções de trabalho. Não é fácil lidar com o sofrimento alheio. A equipe de profissionais de saúde é muito cobrada e, no setor público, trabalha na lógica da escassez, sem investimento em qualificação e educação continuada. O capital humano é decisivo na atenção à saúde e deve ser valorizado”.

O professor da USP avalia que a humanização dos médicos deve acontecer desde a formação profissional: “Praticar a medicina significa aplicar conhecimentos científicos a pessoas. Por isso, todo atendimento deve partir de uma relação humanizada entre médico e paciente. Os currículos das universidades precisam ter eixos humanísticos claros como política educacional”, afirma.

Em suas aulas, Tapajós utiliza ferramentas alternativas aos materiais tradicionais. Recursos como artes plásticas, fotografia, música, cinema e literatura são incorporados às disciplinas humanísticas – história, religião, psicologia, filosofia, ética, bioética – e às científicas também. “No internato de doenças infecciosas, as aulas clássicas sobre antibióticos e antirretrovirais são complementadas por debates realizados a partir de filmes sobre a infecção pelo HIV”, o médico exemplifica.

Aids: novos desafios
Em 20 anos de atendimento em HIV/aids, o infectologista David Lewi, médico do Hospital Israelita Albert Einstein e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), avalia que hoje os desafios são outros. “A aids tornou-se uma doença crônica. Com o aumento da expectativa de vida dos pacientes, surgem novos problemas, como elevados índices de colesterol e triglicérides, complicações cardiovasculares, diabetes e câncer. Médicos e profissionais de saúde devem promover um atendimento ampliado, além da aids”, Lewi afirma e considera que a consulta clínica de uma pessoa que vive com HIVé muito semelhante à de qualquer outro paciente crônico: “É preciso investir em prevenção, mapear os fatores de risco que podem comprometer a saúde e controlar os efeitos colaterais da terapia antirretroviral”.

Multidisciplinaridade
Os três infectologistas são unânimes sobre a importância da equipe multiprofissional neste processo. “Cada profissional tem seus saberes específicos. O atendimento integral a quem vive com HIV – e a qualquer outro paciente – inclui, além do médico, cuidados de enfermagem, psicólogo, fisioterapeuta, nutricionista, capelão, rabino, pai-de-santo, assistente social, dentista e tudo o mais que contribua para contemplar o paciente em sua totalidade”, confirma Tapajós.

Na Clínica de Aids da Policlínica Antônio Ribeiro Neto, a equipe multidisciplinar é formada por três infectologistas, um psiquiatra, uma assistente social, duas nutricionistas, uma enfermeira, três auxiliares de enfermagem e um técnico administrativo. Ao todo são 12 profissionais, que atendem quase dois mil pacientes cadastrados. Lia Adler informa que a desproporção entre o número de pacientes e profissionais de saúde é comprometedora e obriga o agendamento espaçado de consultas – o que dificulta a adesão ao tratamento. “Quando as consultas são marcadas com um longo intervalo, o paciente tende a achar que está bom. O ideal é o acompanhamento mensal de cada indivíduo, para que possamos registrar a evolução do tratamento e compreender os diversos fatores que o influenciam”, diz a médica. “Como a aids é uma doença crônica, os pacientes permanecem. O sistema de saúde precisa estar preparado para esta realidade”, conclui a infectologista Lia Adler.

Paciente bem informado
Para a infectologista Isabella Nóbrega, do Centro Estadual Especializado em Diagnóstico, Assistência e Pesquisa da Bahia (CEDAP-BA), informar o paciente é um dever do médico. “Estar ciente sobre tudo o que envolve a infecção pelo HIVé fundamental para o paciente aderir ao tratamento e à regularidade das consultas e exames médicos”, aposta. Isabella ressalta que, além dos aspectos biológicos da infecção, o médico deve orientar o paciente sobre sua vida sexual e reprodutiva, incluindo o desejo de ter filhos, as mudanças que ocorrerem no corpo durante o tratamento (lipodistrofia) e todos os fatores que influenciam a adesão à terapia antirretroviral. “Orientações nutricionais, sobre atividades físicas, saúde mental e bem-estar emocional são muito importantes. Para o atendimento integral, é imprescindível a participação de toda a equipe multiprofissional”, conclui.

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