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Saber Viver » Saber Viver n.11

08/2001

AMOR POSSÍVEL AMOR

 

Uma grande parte das pessoas soropositivas procura seu par entre pessoas da mesma sorologia, supondo que assim o namoro tem mais chances de dar certo. Mas isso nem sempre é verdade. Não é porque os dois têm o vírus da Aids que tudo vai correr às mil maravilhas. Hoje, cada vez mais pessoas de sorologias diferentes estão se apaixonando e aprendendo a conviver com suas diferenças e semelhanças. Sabemos que não é fácil, pois a Aids traz, sim, novas questões. Para enfrentá-las, é preciso, primeiro, estar bem informado. Fora isso, muita conversa, compreensão mútua e vontade de aprender com o outro. Coisas, aliás, que devem fazer parte de qualquer relacionamento.

Kauê tem o vírus HIV e se separou há quatro anos. Sua ex-mulher não foi contaminada. Ele acha que o fato de ser soropositivo foi um fator a mais para a separação, mas admite que o casamento já estava falindo. “A descoberta de que eu tinha o vírus HIV detonou nosso processo de separação. Para ela, Aids era sinônimo de morte. Por isso, sentiu medo e preferiu se afastar. Hoje somos amigos e ela diz que, se tivesse mais informação na época, teria sido diferente”.

Depois da separação, Kauê caiu em depressão. Durante um ano não se relacionou com ninguém. Depois que começou a namorar, em todo início de relação, ele ficava num dilema: contava logo sobre o HIV ou esperava um pouco? O medo da rejeição o angustiava. Esse é um dos momentos mais difíceis na relação entre pessoas de sorologias diferentes. Tudo vai depender da sua própria forma de encarar o fato de que tem Aids e de como se estabelece a sua relação com o outro. “Em alguns casos eu adiava um pouco. Esperava criar um vínculo com a pessoa, antes de contar. Mas, quando ia rolar uma relação sexual, eu acabava contando. Mesmo com o medo ser rejeitado”, revela Kauê. E a rejeição acabou acontecendo algumas vezes. Isso fez com que ele pensasse em só se relacionar com pessoas soropositivas. Mas logo viu que a sorologia não era um fator preponderante para que o namoro desse ou não certo. Muitas outras afinidades podem existir entre duas pessoas, além do fato de terem o vírus da Aids.

Vida nova
Há oito meses, Kauê está namorando Ana, que não tem o vírus HIV. Eles se conheceram no GIV (Grupo de Valorização da Vida), uma ONG de convivência para pessoas com o vírus HIV, seus amigos e familiares, em São Paulo. Ana já sabia que Kauê tinha o vírus quando começou a se interessar por ele. No início, eles conversaram bastante sobre a Aids, sobre o perigo de contaminação, sobre o que pode e o que não pode fazer na relação sexual. O diálogo e a informação foram fundamentais para que o namoro seguisse tranqüilo. Kauê conta que tinha medo, por exemplo, de o preservativo rasgar. “Se ela fosse contaminada, eu iria me sentir muito culpado. Mas Ana me tranqüilizou dizendo que, se isso acontecesse, não haveria culpa nem culpado”, diz. Ana conta que pensou muito antes de começar o namoro: “Ficava pesando os prós e os contras. Hoje estou tranqüila. Eu confio muito nele”

A psicóloga Valvina Adão atende a um número cada vez maior de casais sorodiscordantes (quando uma pessoa é soropositiva e a outra soronegativa) no Centro de Referência e Treinamento – CRT – em São Paulo. Em sua experiência clínica, ela observa que, entre os casais homossexuais, o sexo seguro já está bem incorporado, enquanto os casais heterossexuais ainda têm dificuldade de usar o preservativo, principalmente quando a mulher é soropositiva. Valvina conta que, nas oficinas sobre sexo seguro realizadas por sua equipe no CRT, quando o homem é o soronegativo e a mulher é soropositiva, dificilmente o homem aceita transar com preservativo. “Eles têm uma onipotência muito grande”, diz a psicóloga.

Superando obstáculos
Além do sexo seguro, Valvina aponta diversas outras questões que envolvem o relacionamento entre pessoas de sorologias diferentes: “O HIV está sempre presente na vida desses casais. Seja porque a Aids, apesar de todo o avanço da medicina nesse setor, ainda carrega o estigma da morte, seja porque o próprio tratamento anti-Aids é muito penoso para o paciente”. A ingestão dos anti-retrovirais, os horários rigorosos e principalmente os efeitos colaterais provocados pelos medicamentos costumam desgastar a relação. “O parceiro ou parceira não infectado/a pelo HIV também sofre, junto com o outro, todo o processo de aceitação dessa nova realidade. Brigas e separações são comuns, nesse momento”, diz ela. Muitos casais, no entanto, estão dispostos a ultrapassar esses obstáculos. Valvina destaca o interesse do não portador do HIV em participar do tratamento, comparecendo às consultas com seu parceiro/a e procurando, junto com ele/a, apoio psicológico. Discutir as questões que a Aids traz para a relação é um trabalho difícil, mas enriquecedor.

A vontade de ter filhos é outro assunto que faz parte constantemente dos atendimentos da psicóloga. Mas o medo da contaminação, em alguns casos chega a ser paralisante. “Na verdade, o que existe é um grande conflito entre o desejo de ter um filho e o medo de arriscar. Por mais que o risco seja baixo e o casal se cerque de todos os cuidados de que a ciência dispõe hoje”, constata Valvina.

Planos para o futuro
Kauê e Ana estão passando por essa situação. Os dois têm muita vontade de ter um filho e vivem em busca de informações de como proceder para que Ana não se contamine com o HIV. “Existe uma técnica de ‘lavagem’ de esperma que ainda não é feita no Brasil. Mas vi na internet que algumas outras pesquisas estão sendo feitas e isso nos enche de esperanças”, conta Kauê. Mas Ana tem medo. “Às vezes sofro muito pensando nisso. Quem sabe daqui há um ou dois anos? A possibilidade de não ter filhos me deixa triste”, diz ela.

Ana, agora, tem outra preocupação: “Tenho medo de que ele fique doente”. Antes de começarem o namoro, Kauê havia parado de tomar a medicação e agora começa a apresentar alguns problemas de saúde relacionados à sua baixa imunológica. “Insisti muito para que ele voltasse às consultas médicas. Por causa dele, eu entendo tudo sobre anti-retrovirais, CD4, carga viral, etc.”, conta Ana. Kauê sabe o quanto esse apoio é importante: “Hoje, me sinto vivo novamente, capaz de tudo. Antes de encontrar a Ana, eu estava sem referência, sem perspectiva, quase desistindo do tratamento. Juntos, nós fazemos planos e eu preciso estar bem de saúde para conseguir alcançar esses objetivos. Por isso voltei a me tratar. Quando você começa a superar os limites que a Aids traz, se sente fortalecido”.

O casal pretende morar junto, em breve. “Nós nos damos super bem, temos muita coisa em comum. Eu admiro muito ele, não por causa da Aids, mas por ele estar sempre aberto para ajudar outras pessoas, por ser uma pessoa engajada politicamente. Agora, ele dirige a ONG Lutando pela Vida, em Diadema”, conta Ana. Alimentando o amor que há entre os dois, existe não só uma admiração mútua, mas, acima de tudo, compreensão, como mostra Kauê: “Eu sei que é difícil se relacionar com uma pessoa soropositiva. Eu admiro a Ana por isso. Tento me colocar em seu lugar e vejo o quanto ela é corajosa, uma pessoa especial. Isso me faz gostar dela cada vez mais. Porque é fácil para quem vive com o HIV se colocar numa situação de vítima e achar que é incompreendido. Mas muitas vezes a gente precisa tentar compreender o outro lado também”, diz ele. “A Aids traz uma série de coisas, detona uma série de tabus e valores. Nós discutimos sobre tudo. O diálogo é super importante. Sem ele não existe relacionamento”.

*** FAÇA PARTE DE UM LIVRO ***

Editora promove concurso para selecionar textos de pessoas soropositivas

Quais são as expectativas e como vivem as pessoas soropositivas no brasil? Com base nesta pergunta, a Editora Madras (SP) está promovendo a “Jornada biográfica – vivendo com HIV/AIDS”. A proposta é promover um concurso que selecionará 15 textos de pessoas soropositivas, em todo o país, para compor uma obra a ser lançada no início do mês de dezembro. Qualquer tipo de texto, inédito, poderá fazer parte do concurso: ensaios, biografias, crônicas, reflexões, romances e artigos. Eles devem estar em letra de forma, datilografados ou digitados.

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