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Saber Viver » Saber Viver n.33

09/2005

3a IAS: novas pesquisas, novos desafios

Cerca de 5.600 pessoas, de 128 países, reuniram-se de 24 a 27 de julho no Rio de Janeiro para discutir os últimos avanços científicos e novas políticas de prevenção e tratamento do HIV / aids. A 3ª Conferência Internacional sobre Patogênese e Tratamento da Aids (IAS) apresentou novidades nas áreas científica, clínica e preventiva e lançou a profissionais de saúde e líderes comunitários do mundo todo o desafio de trazer o conhecimento teórico à prática.

Para atingir esse objetivo, duas metas foram traçadas: uma resposta global à aids, tão ampla e dinâmica quanto a epidemia, e a adaptação de pesquisas para ações efetivas de prevenção e tratamento. Na cerimônia de encerramento, Peter Piot, diretor da Unaids, apontou cinco áreas de desafio: acesso universal à prevenção e tratamento, ampliação de pesquisas, enfretamento do problema a longo prazo, manutenção da aids na agenda internacional e o entendimento da epidemia em toda sua complexidade e excepcionalidade.
A IAS ocorre a cada dois anos, em locais diferentes, e a escolha do Rio de Janeiro para sede desta edição reflete a crescente projeção do Brasil na área científica. O país – que obteve o segundo lugar em número de trabalhos inscritos – ganhou papel de destaque na conferência. Foi elogiado por seu programa pioneiro de acesso universal aos antiretrovirais, por promover a integração entre tratamento e prevenção e pelas ações de redução de danos entre usuários de drogas injetáveis. Pedro Chequer, do Programa Nacional de DST / Aids, aproveitou a oportunidade para ressaltar o maior obstáculo a ser vencido: a dependência por importações de anti-retrovirais.
A discussão afinou o tom político da conferência. A importação de medicamentos antiretrovirais representa 80% do orçamento de R$ 1 bilhão do Ministério da Saúde.

 

Pesquisas em destaque

Ciência básica: Pesquisa sobre formas recombinantes do HIV (combinação de dois ou mais subtipos do vírus) sugere que a reinfecção pode levar ao aumento da diversidade genética do vírus e alerta para a necessidade de ações para reduzir a incidência de infecções entre portadores.
Área Clínica: Medicamentos já conhecidos ganham novas formulações, que podem ser mais eficazes e menos tóxicas e oferecer, por isso, maior conforto posológico aos pacientes. Uma nova classe de drogas, os inibidores de CCR5 (receptor responsável pela entrada do HIV na célula), também atraiu as atenções. A expectativa é que em três anos esses medicamentos estejam disponíveis à população.
Prevenção: A ampliação do acesso ao tratamento anti-retroviral para a prevenção de novos casos de HIV foi considerada fundamental, pois pode diminuir a carga viral de secreções genitais e sanguíneas. Outro estudo revelou uma significativa redução da incidência do HIV entre homens circuncidados. SV

Ser infectado pelo HIV mais de uma vez
Isso é possível e preocupante

Tema presente em diversas apresentações na IAS, a múltipla infecção pelo HIV tem preocupado profissionais de saúde e soropositivos.
Em estudo apresentado durante a conferência, a pesquisadora Francine McCutchan demonstrou que a infecção repetida pelo HIV deflagra o aumento da diversidade genética do HIV (quando dois ou mais subtipos do HIV se combinam geneticamente).
O assunto é complexo e ainda pouco estudado. Segundo a infectologista Márcia Rachid, o que se pode afirmar é que, ao praticar sexo sem proteção, a pessoa soropositiva se expõe à coinfecção pelo HIV (quando uma nova infecção ocorre num período de até trinta dias após a primeira infecção) e à superinfecção (quando uma nova infecção ocorre quando a primeira já está estabelecida). “Ainda há muitas dúvidas sobre a superinfecção”, diz a médica. “Não se sabe se ela está relacionada a alterações imunológicas do indivíduo que favorecem a recontaminação ou se acontece apenas quando o subtipo do HIV da segunda infecção é diferente do primeiro, entre outras questões”.

As conseqüências podem ser graves
As conseqüências de uma nova infecção pelo HIV podem ser graves. De acordo com Márcia, há o risco de contrair um vírus resistente aos anti-retrovirais, o que diminui as alternativas de tratamento. “A maior prevalência de transmissão de vírus resistentes aos anti-retrovirais está bem documentada”, afirma. “E isso reduz consideravelmente as opções terapêuticas”. Diante destes fatos, a infectologista conclui alertando que “medidas preventivas a novas infecções pelo HIV tornam-se agora ainda mais importantes”.
Nunca é demais lembrar que o uso da camisinha em todas as relações sexuais previne uma nova infecção pelo HIV, além de reduzir o risco de outras doenças sexualmente transmissíveis, como sífilis e gonorréia.

 

Vida saudável faz bem ao coração
O cardiologista Bruno Caramelli afirma que tabagismo, alcoolismo e sedentarismo são responsáveis por complicações cardiovasculares entre soropositivos.
Os riscos de acidentes cardiovasculares entre os portadores do HIV foram tema de várias palestras realizadas na 3a IAS. De acordo com o cardiologista Bruno Caramelli, diretor da Unidade de Medicina Interdisciplinar em Cardiologia do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas de São Paulo, os soropositivos apresentam um risco de complicações cardiovasculares maior do que a população não infectada pelo vírus da aids. Isso, segundo Caramelli, está associado à infecção pelo HIV e ao uso de anti-retrovirais. “A soropositividade para o HIV provoca uma diminuição nas taxas do HDL, o chamado colesterol bom, e um aumento nas taxas de triglicérides. Com a entrada dos anti-retrovirais, especialmente dos inibidores de protease, esse quadro foi agravado, levando a um risco maior de complicações cardiovasculares”, explica Caramelli.

Tabagismo é mais alto entre portadores do HIV
O cardiologista chama a atenção para outros fatores que podem aumentar as chances de acidentes cardiovasculares e infarto: obesidade, sedentarismo e tabagismo. Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos revelou que 56% dos portadores do HIV eram fumantes, sendo que a média de tabagismo nacional entre a população é de 19%. No Brasil, a taxa tabagismo entre os soropositivos também está acima da média nacional. “O tabagismo é o principal fator de risco entre os portadores de HIV”, afirma Caramelli.
A receita para evitar acidentes cardiovasculares, segundo o cardiologista, é manter um estilo de vida saudável. Uma dieta equilibrada, com baixo consumo de gordura e bebida alcoólica, não fumar, praticar exercício físico regulamente e controlar pressão arterial e glicose são medidas importantes que devem ser adotadas imediatamente. “O indivíduo não precisa entrar em uma academia para fazer exercício. É só ele caminhar 20 minutos todo dia e parar de fumar já”, recomenda Caramelli.

 

 

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