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Saber Viver » Saber Viver n.26

02/2003

Pegos de surpresa!

Exames de dois laboratórios particulares, no Rio, mostram aumento de carga viral em pacientes que eram indetectáveis

Uma mudança na forma de realizar os exames de carga viral, que começou em maio do ano passado nos laboratórios Bronstein e Lâmina, no Rio de Janeiro, alterou o resultado de alguns exames em pacientes cuja carga viral era indetectável, que passaram, em média, para 3 mil cópias por mililitro de sangue. Depois de muita ansiedade e apreensão de médicos e pacientes, o laboratório paulista Diagnósticos da América, dono do Bronstein e do Lâmina, anunciou, no início de fevereiro, que essas alterações são causadas pela forma de utilização de um tubo de ensaio na hora da realização do exame, que mantém componentes do sangue que concentram mais HIV. Segundo Luiz Gastão, vice-presidente do Diagnósticos da América, para chegar a esta conclusão, a empresa fez uma investigação interna que durou seis meses. Ele afirma também que essas alterações só foram percebidas no Rio de Janeiro porque esses tubos de ensaio já eram utilizados em São Paulo e em outras cidades do país.

Infectologista comunica o caso a laboratório e Ministério

No ano passado, o infectologista Mauro Schechter verificou a alteração em exames do Bronstein e do Lâmina em 5 de 7 pacientes atendidos em seu consultório que antes apresentavam carga viral indetectável. “Na época imaginei que poderia haver algum problema com o exame ou com os medicamentos. Isso estava acontecendo também com pacientes de outros médicos no Rio de Janeiro”. Em julho, o infectologista alertou o Diagnósticos da América e, após enviar vários e-mails cobrando uma investigação rigorosa, o laboratório iniciou as pesquisas. Mauro Schechter avisou também ao Programa Nacional de DST/Aids, que, na época, comunicou o fato à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), órgão que controla vários serviços da área de saúde, desde a produção de medicamentos a laboratórios.

Após ter acesso aos estudos realizados pelo laboratório paulista, o infectologista afirma que não há erro técnico nos exames. “Ao julgar o que me foi mostrado, todos os exames estão sendo feitos conforme recomendação dos fabricantes dos kits”. Contudo, é inegável o transtorno e a ansiedade que esses resultados geraram na vida de muitas pessoas. ?

Vários meses de apreensão

George de Gouvea (foto), 41 anos, chegou a realizar três exames seguidos no Lâmina no período de junho a setembro do ano passado e todos apresentaram um aumento progressivo de sua carga viral, que antes era indetectável. “Quando eu recebi o último exame, me senti mais próximo da morte”, conta George que, na época, entrou em depressão. Sem opção de tratamento, ele foi encaminhado pelo seu médico a um centro de pesquisa para um ensaio clínico com novas medicações. “Eu e ele (seu médico) acreditávamos piamente na falha terapêutica”, diz. A surpresa veio quando George recebeu os resultados dos exames realizados pelo centro, nos EUA, que apontaram carga viral indetectável. A pedido do médico, realizou novas testagens em laboratórios diferentes, no Rio de Janeiro, e o resultado também foi indetectável. “Na época, se eu ainda tivesse opção de tratamento, provavelmente o meu médico teria mudado a minha medicação. Ele não tinha porque duvidar do resultado. Acho que o Lâmina, quando percebeu alguma diferença nesses exames, deveria ter nos comunicado”, desabafa.

Jeremias Souza, 34 anos, também levou um susto ao receber seu exame, realizado no Lâmina em julho. “Meu médico perguntou se eu estava tomando os remédios direito. Sou um caxias com os horários. Há 9 anos descobri que estava infectado pelo HIV. Já tive vários problemas de saúde e sinto quando algo não vai bem comigo. Na época, eu estava ótimo”. Depois de repetir o exame no próprio Lâmina um mês depois, o número de cópias havia subido de 1.430 para 2.420 cópias. “A minha cabeça pirou”. Indicado pelo seu médico, Jeremias tentou fazer o exame de genotipagem em um outro laboratório e se surpreendeu ao saber que sua carga viral estava indetectável. Por iniciativa própria, ligou para o Lâmina e explicou o que aconteceu. “O médico que me atendeu disse que iria entrar em contato de novo. Mas, até hoje, nada!”, lamenta Jeremias.

Laboratório garante que entrará em contato com Ministério

Quando conversou com a Saber Viver, Luiz Gastão assegurou que entregaria as conclusões do estudo ao Ministério da Saúde. Até o fechamento desta matéria (13 de fevereiro), o Programa Nacional de DST/Aids não havia tomado conhecimento do material. Porém, o assessor responsável pela Área de Diagnóstico, Tratamento e Assistência do Programa, Rogério Scapini, antecipa que este caso deverá ser encaminhado à Anvisa.

Como avaliar o exame

A partir deste episódio com os exames do Bronstein e do Lâmina, a questão passa a ser como interpretar o seu exame. Para Mauro Schechter, este exame, como todos os outros realizados em laboratório, deve ser visto como um complemento à observação clínica. Rogério Scapini, por sua vez, ressalta que o consenso brasileiro prevê o monitoramento do paciente através dos exames de CD4 e carga viral que, dependendo dos resultados, poderão indicar a troca dos remédios. O assessor do Programa Nacional de DST/Aids lembra que os testes de genotipagem, disponíveis na rede pública, são capazes de avaliar se o paciente está com falha terapêutica e, conseqüentemente, necessitando mudar a medicação. “Enfim, todos os exames e medicamentos estão disponíveis na rede pública, basta solicitá-los a um médico credenciado”, diz Rogério Scapini. Os endereços dos laboratórios públicos que fazem carga viral e CD4 estão na homepage do Programa Nacional de DST/Aids (www.aids.gov.br).

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