Conversa Positiva

  • Fonte normal
  • Aumentar fonte
  • Adicionar a favoritos
  • Imprimir
  • Envie para um amigo:





Saber Viver Edições Especiais » Conversa Positiva » Conversa Positiva n.03

11/2002

Edvaldo Fernandes de Farias e Cazu

Sentindo o preconceito na pele

Este episódio da vida de Edvaldo Fernandes de Farias, de João Pessoa (PB), é bem interessante para começar uma publicação sobre o preconceito vivido pelas pessoas soropositivas. Esta história comprova que, apesar de todos os avanços na ciência e de toda a informação disponível sobre a Aids, os portadores do HIV ainda enfrentam reações consideradas pré-históricas para os dias de hoje. Edvaldo é autor de dois livros: O amor vence a dor e faz viver e Aids: aspirações e vivências de um portador.

“Há um ano fui vítima de preconceito quando participei de uma excursão de João Pessoa a São Paulo. A pessoa responsável pela viagem, quando soube que eu era soropositivo, disse aos meus amigos que eu não poderia participar da excursão porque em viagens organizadas por ela “aidéticos não participavam para não colocar em risco a vida das outras pessoas”. As pessoas que conhecem a minha história em prol dos direitos dos soropositivos ficaram chocadas com esse comportamento e não tiveram coragem sequer de me contar. Eles preferiram ir diretamente ao hospital de referência Clementino Fraga (em João Pessoa – PB) para falar com a minha médica sobre o que estava acontecendo. Revoltada e triste, a infectologista sugeriu que os meus amigos levassem a responsável pela viagem ao consultório dela para esclarecer-lhe algumas questões sobre o HIV. Ela se recusou a aceitar o convite da médica, alegando que já sabia de tudo e que não precisava falar com ninguém. Mas, depois de muita insistência das pessoas que realmente gostam de mim, aceitou falar com a minha médica pelo telefone. A infectologista foi muito firme com essa pessoa e assegurou a ela que eu tenho o direito de ir e vir para onde pretendesse, que a minha soropositividade não me tornava diferente das outras pessoas e que eu poderia processá-la por discriminação. Essa senhora, demonstrando sua total ignorância, continuou relutando e pediu que minha médica fizesse um documento no qual eu assumiria a responsabilidade de alguém se contaminar pelo HIV durante a viagem. Obviamente, a infectologista se recusou a fazer isso.

Depois de muito desgaste, ela resolveu aceitar a minha presença na excursão, com restrições. Eu não poderia utilizar o microfone, teria que sentar em assento definido (os meus amigos se recusaram a definir assento, pois todos queriam que eu ficasse ao lado deles) e me hospedar num quarto isolado. Tudo isso aconteceu, sem que eu soubesse. Antes da viagem, eles resolveram me contar. Eu pensei em desistir, mas não me deixei abater. Sempre lutei contra o preconceito e decidi enfrentar esses obstáculos de cabeça erguida. Foi difícil. Cheguei a chorar por várias vezes porque me sentia como um peixe fora d`água. Mas não recuei. Na volta, expus o que eu passei para todos que participaram da viagem. Mais de 100 pessoas ficaram do meu lado. Mas essa senhora continuou pensando da mesma forma e se justificou dizendo que fez isso pela segurança de todos e que “o aidético é perigoso”. O mais impressionante é que ela é uma enfermeira. Não sei como consegue exercer a profissão com dignidade. Se eu não fosse um homem esclarecido e informado, talvez não tivesse coragem de contar este triste episódio da minha vida através desta revista. Possivelmente eu entraria em depressão e talvez não estivesse vivo.

Mas aproveito esta oportunidade para mandar um recado aos portadores do HIV e pessoas que são alvo de preconceito: não se abatam. Vençam! Vão em busca de seus direitos. Viver com HIV não é só vencer o vírus. É principalmente vencer o preconceito. Comece por você. Vença, dentro de si, o preconceito que ainda existe.

Há 7 anos descobri que sou portador do HIV e hoje me sinto bem. Isso porque eu não parei no tempo. Continuo a lutar por uma vida melhor para mim e para todas as pessoas soropositivas diariamente. O coquetel fabricado pelos laboratórios é importante, mas o complemento para a sua eficácia é o coquetel do amor”.

Sempre lutei contra o preconceito e decidi enfrentar esses obstáculos de cabeça erguida

“Luto diariamente contra o preconceito”

Apesar de ter passado por diversas situações de discriminação desde que descobriu que é portador do HIV, Cazu, 30 anos, nunca se deixou abater. Na empresa onde trabalhava, negou-se a assinar sua demissão, procurou ajuda jurídica em uma ONG e conseguiu chegar a um acordo: foi afastado da empresa, mas recebe seu salário integralmente, mais os benefícios. Agora, Cazu usa seu tempo livre levando informações sobre Aids a centenas de adolescentes através da Federação dos Bandeirantes onde presta serviço voluntário.

“Em 1990, fiz o teste para detectar o HIV pelo plano de saúde da empresa em que trabalhava e deu positivo. O médico responsável pelo exame revelou o resultado para a empresa e logo fui chamado no departamento pessoal para assinar minha demissão. Eu me recusei a assinar. Mesmo com a pouquíssima informação que eu tinha na época, deduzi que esse não poderia ser um motivo para que eu fosse demitido. A empresa, então, usou de todos os subterfúgios para me manter afastado do trabalho. Primeiro me deram uns dias de folga, depois férias. Cheguei a ficar três meses em casa recebendo o auxílio-doença e ainda me propuseram aposentadoria, mas eu me negava a ficar em casa, já que me sentia muito bem de saúde e queria voltar a trabalhar. Enfim, com um parecer médico dizendo que eu estava apto ao trabalho, eu voltei à empresa. Foi quando eles declararam abertamente que eu não poderia trabalhar, pois, devido à minha soropositividade para o HIV, haveria o perigo de eu contaminar os clientes. Resolvi recorrer ao serviço jurídico de uma ONG e foi então negociado um acordo: a empresa pagaria meu salário e todos os benefícios de um funcionário (13º, vale transporte, férias), com a condição de eu não ir mais trabalhar.

No ano passado, a direção da empresa mudou e eu recebi uma carta em que novo diretor reconhecia a atitude preconceituosa que eles estavam tendo comigo e dizia que queria rever esta questão. Eu fiquei super feliz com a perspectiva de voltar a trabalhar. Mas eles me ofereceram um trabalho completamente diferentemente da minha antiga função. Queriam me readmitir para trabalhar no departamento de xerox da empresa. Foi mais uma atitude de discriminação, porque eu era qualificado para outra função. Antes de ser afastado, eu trabalhava como monitor, eu treinava funcionários e verificava a qualidade dos produtos. Trabalhei durante dois anos nessa função e estava para ser promovido a assistente de gerente. Eu tinha planos de seguir carreira. Esses planos foram interrompidos por causa do preconceito. Dessa vez, queriam me colocar numa sala isolada, afastado do contato com outras pessoas.

Não aceitei trabalhar nestas condições.
Minha luta é incansável. Este ano, ganhei uma ação contra uma empresa de ônibus porque o motorista, além de não respeitar o fato de eu ter um passe que me dá direito a não pagar a passagem, ainda me agrediu verbalmente, me xingando e expondo minha condição de soropositivo para todos no ônibus. Um dos passageiros, que também era soropositivo, se dispôs a ser minha testemunha. Fomos então à delegacia, foi aberto um processo e a empresa foi condenada a pagar uma indenização por discriminação e preconceito.
Desde que eu fui afastado do trabalho, tenho usado meu tempo, minha determinação e minha coragem de enfrentar o HIV publicamente, para lutar pela questão do HIV. Presto serviço voluntário para a Instituição Bandeirante do Brasil, onde coordeno um projeto de agentes multiplicadores de informação. Adolescentes de 15 a 21 anos são treinados para incluir o tema de prevenção a Aids nas atividades que realizam. Quero transmitir para a sociedade a informação correta e mostrar que é necessário evitar o HIV e não o portador do HIV, e que a discriminação é crime.”

Compartilhe