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Saber Viver » Saber Viver n.35

03/2006

Aids e terceira idade

Na sociedade ocidental, existem muitos mitos em relação ao envelhecimento.Pessoas mais velhas geralmente são vistas como improdutivas e assexuadas, tabus que aos poucos vão caindo por terra. Uma pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde, em 2002, revelou que 39% das pessoas acima de 60 anos – fase em que se inicia a terceira idade, segundo a Organização Mundial de Saúde – são sexualmente ativas. Paralelo a isso, a cada ano cresce o número de soropositivos nesta faixa etária. A médica Valéria Ribeiro Filho, do Departamento de Doenças Infecto Contagiosas e Parasitárias do Hospital Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), acredita que o prolongamento da atividade sexual seja o fator determinante para a evolução da epidemia na terceira idade. Entretanto, ela acha que ainda é cedo para associar o aumento de casos de aids entre esse grupo à utilização de drogas para disfunção erétil: “a partir dos quarenta anos já se percebe o interesse cada vez maior por esses medicamentos. Entretanto, não existem dados concretos que reforcem a teoria que o aumento dos casos de aids nesta faixa etária está relacionado a essas drogas. Como a notificação demora a ser feita, só daqui a alguns anos poderemos fazer essa avaliação”. A psicóloga Marlene Zornetta, também do hospital da UFRJ, acrescenta outro aspecto importante: “Pessoas com mais de 60 anos não foram criadas com a cultura do uso da camisinha. Normal para jovens de vinte e poucos anos, o preservativo não faz parte da rotina das pessoas mais velhas”.

Número de mulheres infectadas com mais de 50 anos sobe 396%
Apesar do número de casos confirmados de aids, entre 1993 a 2003, ter subido 130% entre os homens e 396% entre as mulheres com mais de 50 anos, até hoje não foram criadas campanhas publicitárias específicas para esse público. Na Câmara de Deputados em Brasília, está em tramitação um Projeto de Lei, do deputado Carlos Nader (PL-RJ), propondo uma campanha permanente e obrigatória de prevenção à aids para pessoas da terceira idade, circulando, no mínimo, duas vezes por ano na mídia impressa e eletrônica, incluindo sites na internet. A proposta sugere que as mensagens publicitárias tenham como enfoque a prevenção, como o uso de preservativos.

Doenças podem se agravar com o uso dos anti-retrovirais
Embora os procedimentos para o tratamento de pessoas vivendo com aids com mais de 60 anos sejam os mesmos previstos no Consenso Brasileiro do Ministério da Saúde para adultos, percebe-se que algumas doenças comuns à Terceira Idade podem se tornar mais graves com o uso freqüente dos anti-retrovirais. A médica Valéria Ribeiro Filho explica que há uma tendência de maior fragilidade do sistema imunológico nesta faixa etária. Segundo ela, “são pessoas mais sujeitas a pneumonias e gripes, tanto que tomam vacinas para se prevenir. Doenças como a osteoporose, por exemplo, costumam se intensificar com o uso de anti-retrovirais, o que torna necessário um reforço de cálcio para esses pacientes”. No caso das mulheres, observa-se que a menopausa é mais precoce, mas a médica do hospital da UFRJ ressalta que faltam pesquisas para confirmar cientificamente essa hipótese.
A psicóloga Marlene Zornetta, que está estudando o comportamento de pacientes da Terceira Idade infectados pelo HIV, observa que essas pessoas, em alguns momentos, apresentam características semelhantes aos adolescentes: “Eles são preconceituosos e temerosos em revelar sua condição de soropositivos para o HIV, dificultando o trabalho psicológico em grupo”. Quanto à adesão ao tratamento, tanto Marlene quanto Valéria afirmam que a disciplina com os anti-retrovirais é uma característica pessoal e não varia conforme a faixa etária: “A adesão ao tratamento está relacionada a diversos fatores individuais, e não à faixa etária. Essa atitude positiva ao tratamento é uma decisão de cada paciente”, destaca a psicóloga. SV

Grupo de apoio ajuda a transformar a vida
No Rio Grande do Sul, Judite Lopes Xavier, de 60 anos, trabalhava em uma creche como cozinheira quando descobriu ser soropositiva. Casada quatro vezes, Judite tem oito filhos e vários netos. “Quando minha filha mais nova soube que eu vivia com HIV, entrou em pânico. Eu consegui acalmá-la, explicando que iria viver a partir dali da melhor maneira possível”. Assim, Judite obteve total apoio familiar. Com a saúde estabilizada, ela entrou para um grupo de apoio, o Com Vida. “Quando entrei no grupo, me senti ainda mais apoiada. Hoje, consegui me transformar em outra pessoa”, afirma com orgulho.

Receio de expor a família
Teresa*, 61 anos, sabe que tem o vírus há sete anos e nunca contou para as filhas. Ela trabalha como empregada doméstica e seu patrão também é soropositivo. Teresa foi quem aconselhou o rapaz a fazer o teste e cuidou dele depois que veio o diagnóstico positivo. Contudo, nunca contou para ele que também é soropositiva. No corredor do Hospital da UFRJ, histórias como a de Teresa se repetem. Ana* está perto dos sessenta e apenas seus filhos conhecem seu diagnóstico: “tenho medo do preconceito, de ser apontada na rua”, revela. Sentado ao seu lado, um homem bem humorado de 67 anos diz que os seus seis filhos sempre o apoiaram. Entretanto, José* não pretende contar a mais ninguém porque também não quer expor a sua família a algum tipo de discriminação. Evangélico e aposentado, hoje ele se dedica a inúmeros trabalhos comunitários: “a aids fez com que eu pensasse um pouco mais em mim. Passei a viver mais intensamente”. Em vários serviços de saúde do Brasil é possível encontrar pessoas como Judite, Teresa*, José* e Ana*. Suas histórias mostram que a epidemia de aids é uma realidade entre esta faixa etária. Só não vê quem não quer.

 

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