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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.12

04/2008

A adesão do profissional

Apesar dos baixos salários, das precárias condições de trabalho e de se tratar de uma doença incurável

Em seu livro de memórias*, Silmara Retti define o profissional de saúde que, na sua opinião, consegue uma boa adesão ao tratamento anti-retroviral: “é aquele que fala a linguagem do paciente, que joga limpo com ele, que é verdadeiro e claro, sem se tornar rude. É aquele que compreende as “dores” do paciente e que, mesmo sem sentir, é solidário a ele, respeitando o momento dele.” Para a escritora, que é soropositiva, “esse profissional não precisa ser o coordenador, o enfermeiro ou o médico. Precisa ser o amigo de todas as horas, disposto a ouvir, orientar e acalentar, muitas vezes sem saber se vai ser compreendido ou correspondido, mas com a convicção de que procurou fazer o seu melhor”, descreve.

Nas suas palavras, Silmara alude à adesão do profissional de saúde ao tratamento dos pacientes. O ponto de vista dela, como paciente, dá uma idéia da pressão a que esses profissionais estão sujeitos dia a dia. Além de problemas a curto prazo insolúveis, como um salário insatisfatório, as condições precárias da saúde pública e o fato de a aids não ter cura, há que se lidar com uma demanda de afeto comparável, apenas, à da criança pequena – que tudo pede aos pais ou responsáveis. A Saber Viver Profissional de Saúde perguntou a quatro médicos como eles conseguem aderir ao tratamento de seus pacientes, apesar de tudo isso. As respostas formam um conjunto de boas dicas para o dia-a-dia de todos.

“Eu me coloco no lugar dele”

“Conquisto a confiança dos meus pacientes, humanizando o atendimento. Sempre me coloco no lugar deles, pensando como seria se aquilo estivesse acontecendo comigo. Se eu estivesse ali, como gostaria de ser tratado pelo meu médico? Escuto o que me dizem com atenção, me interesso pela vida deles. Não me detenho apenas nos sintomas da infecção. Fora isso, estou sempre sorrindo e não faço grosserias. Acho que levanto o astral deles, falando positivo. Procuro levar esperança, sem mentir ou esconder nada.” Gustavo Magalhães, infectologista.

“O eixo da adesão está no paciente”

“Sabemos, a cada dia mais e com mais evidências, que a correta adesão ao tratamento é o alicerce da luta contra a aids. Mostrar ao paciente que ele é o personagem principal dessa história é fundamental para que alcancemos a adesão desejada e eficaz. Só conseguimos isso se o vínculo que estabelecemos com o paciente for forte. Então conseguiremos a adesão perfeita ou próxima disso. Assim, não importam as condições da Saúde Pública no Brasil, tampouco os baixos salários, o eixo da adesão está no paciente e não na equipe, por mais humilde e sem instrução que ele seja, devemos tentar”.
Karla Gripp, infectologista

“A vida deles nas minhas mãos”

“Antes de tudo, o Programa DST/Aids foi um desafio para mim. Ele já existia no Posto de Saúde onde fui trabalhar, em 1996. Os pacientes chegando, alguns doentes graves, outros pouco doentes e, ainda, os assintomáticos. Percebi que o tempo, para eles, era fundamental. Ou melhor, não havia tempo a perder. Eu não poderia vacilar nas minhas decisões, pois a vida deles estava literalmente nas minhas mãos. Por isso, resolvi estudar muito, me atualizar sempre, oferecer o melhor de mim, sem condicionar isso à infra-estrutura que encontro no trabalho ou ao salário que recebo no final do mês. Creio que devemos cobrar melhores condições de trabalho e salário, mas enquanto isso não acontece, há muito o que fazer. Decidi também cobrar a participação dos pacientes no tratamento, cobrar responsabilidade, freqüência às consultas, realização de exames. Fazemos uma parceria para o tratamento e o acompanhamento. Esta estratégia parece que tem dado certo.” Sandra Príncipe Passini, clínica geral.

“Sinto-me feliz”
“O médico que opta pela especialidade de infectologia já sabe que irá enfrentar um contexto complicado de trabalho. Sem a menor dúvida, existem outras especialidades com perspectivas financeiras bem melhores. Quanto a mim, gosto muito do que faço, sintome feliz em contribuir para que diversas pessoas consigam ter uma vida absolutamente normal, ainda que tenham uma doença incurável. A aids é uma doença controlável”. Paulo Roberto Nascimento dos Santos, infectologista.

“E o paciente que não tem o que comer?”

“Sabemos que a aids caminha ao encontro da pobreza e, quando estou diante de um paciente que não tem o que comer, mora embaixo de um viaduto, não sabe ler nem escrever, eu me pergunto como tratar esse indivíduo. Como pedir para que ele tome seus remédios de forma 100% correta, quando muitas vezes ele nem tem o que comer? Nesses momentos, redobro a atenção, reforço as estratégias e, de forma criativa, consigo chegar a um tratamento correto.” Karla Gripp, infectologista.

ENFRENTANDO A TENSÃO*

A tensão promove e influencia o crescimento. É essencial que todos os profissionais de saúde aprendam a identificar e compreender a tensão e suas causas, de modo que possam cuidar-se mutuamente, de uma tal maneira que o crescimento seja incentivado e poucas pessoas sofram. As fraturas saram, tornando-se um acidente, e não significam, necessariamente, que uma pessoa não esteja apta para o seu trabalho, embora isto às vezes aconteça. Poderia significar que alguém foi submetido muito cedo a uma demasiada tensão. Há pessoas que podem tornar-se mais úteis, se forem muito bem ajudadas, enquanto elaboram sozinhas suas próprias crises. A tensão pode ter tornado evidente um problema seu, a vulnerabilidade que precisava ser curada e só pode ser atingida quando foi exposta. O crescimento pessoal e uma nova vida podem sair do sofrimento. Nós devemos estar dispostos a perceber isso, em primeiro lugar por nós mesmos. Somente então poderemos transmitir nossos conhecimentos através de uma maneira gentil que necessita de poucas palavras e capacita nossos pacientes a fazerem as mesmas descobertas por si mesmos.

* Extraído de STEDEFORD, Averil. Encarando a morte: uma abordagem ao relacionamento com o paciente
terminal. Porto Alegre: Artes Médica, 1986, p. 129.

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