Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids

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Saber Viver Edições Especiais » Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids » Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids n.01

01/2004

A consulta do adolescente e jovem

Luiza Cromack1, Maria Helena Ruzany2,
Eloísa Grossman3, Stella Taquette4
1 Ginecologista e obstetra. Mestrado em Saúde Coletiva pelo NESC/UFRJ
2.Diretora do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente (NESA)
3 e 4. Pediatras do NESA

Os adolescentes atravessam um processo dinâmico e complexo de mudanças. As transformações do corpo, o surgimento de novas habilidades cognitivas e seu novo papel na sociedade são determinantes do questionamento dos valores que os cercam. Muitas vezes se predispõem a novas experiências, que podem ameaçar sua saúde, como por exemplo, exposição a risco de acidentes, relações sexuais desprotegidas e uso de drogas.

A assistência aos adolescentes e jovens nos serviços de saúde não deve ser desvinculada do contexto em que vivem. Houve mudanças significativas no perfil de morbi-mortalidade neste grupo populacional, com aumento de agravos que poderiam ser evitados por medidas de promoção de saúde e prevenção, como a aids. Cabe aos profissionais de saúde incluir medidas preventivas como componente fundamental de sua prática clínica.

A equipe de saúde
A atenção integral à saúde de adolescentes e jovens requer a abordagem de profissionais de diversas disciplinas que devem interagir através de um enfoque multi ou interdisciplinar. O trabalho multidisciplinar tem como principal característica a prestação do serviço a uma mesma população através da interconsulta ou referência. Essa atuação, mesmo com uma boa interação entre os componentes da equipe, é realizada de forma independente, às vezes em diferentes locais e na maioria das situações com a visão apenas de sua própria especialidade e/ou disciplina.

O trabalho interdisciplinar é centrado no sujeito, não havendo limites disciplinares. Define-se a equipe interdisciplinar como um conjunto de profissionais de diferentes disciplinas que interatuam para prestar o atendimento ao cliente. Ele permite uma discussão conjunta. As decisões são compartilhadas e tomadas dentro das diferentes perspectivas, resultando em uma proposta de intervenção mais eficaz.

A recepção nos serviços de saúde
A acolhida aos adolescentes e jovens nos serviços deve ser cordial e compreensiva, para que se sintam valorizados e à vontade, buscando garantir sua adesão ao serviço, que deve ser permanentemente acessível. Muitas vezes, eles têm dificuldades em respeitar os horários de agendamento, determinando que o serviço construa mecanismos de organização mais flexíveis. Vale lembrar que toda a equipe está envolvida neste acolhimento e deve estar capacitada para o mesmo: segurança, porteiro, recepcionista, auxiliar de enfermagem

A adequação do espaço físico
Em geral, os adolescentes preferem uma sala de espera exclusiva para sua utilização nos horários de atendimento. Esse espaço deve ser, acima de tudo, acolhedor e confortável para os clientes e seus acompanhantes. Isto pressupõe locais amplos, bem ventilados e limpos, adequados para o desenvolvimento de atividades de grupo que podem ter múltiplos objetivos, tais como a apresentação do serviço, integração com a equipe e educação para a saúde. O acesso a materiais educativos (livros, revistas, vídeos, programas de informática) é de grande valor porque, além de facilitar a troca de informações, ajuda a aproveitar o tempo livre e permite o desenvolvimento de autonomia nas escolhas. Divulgação dos serviços existentes e local para distribuição de preservativos, bem como materiais específicos sobre DST/aids e práticas sexuais mais seguras devem estar disponíveis.

A entrevista – características do profissional de saúde
Independentemente da razão que faz com que o adolescente/jovem procure o serviço de saúde, cada visita oferece ao profissional a oportunidade de explorar outros aspectos de sua vida, contribuindo para a detecção, reflexão e resolução de outras questões distintas do motivo principal da consulta. A entrevista deste usuário e sua família ou acompanhante é um exercício de comunicação interpessoal, que engloba a comunicação verbal e a não-verbal. Além das palavras, deve-se estar atento às emoções, gestos, tom de voz e expressão facial do cliente. É importante formular perguntas que auxiliem a conversação, buscando compreender sua perspectiva, afastar preconceitos, evitando fazer julgamentos, especialmente no que diz respeito à abordagem de determinadas temáticas como sexualidade e uso de drogas.

O profissional de saúde não deve ficar restrito a obter informações sobre o motivo focal que levou o adolescente ao serviço de saúde, mas oferecer um espaço de escuta, para que o adolescente se sinta à vontade para trazer dúvidas e anseios, que muitas vezes escondem-se em uma dor física.

As ações preventivas como componentes da consulta
É importante trocar informações com os adolescentes a respeito de seu crescimento físico e desenvolvimento psicossocial e sexual. Deve ser discutida a importância de se tornarem ativamente envolvidos em decisões pertinentes aos cuidados de sua saúde, como uso de preservativos e outros métodos para evitar gravidez, adesão a tratamentos etc. As consultas são momentos privilegiados para o aconselhamento de práticas sexuais responsáveis e mais seguras. Também se tornam um espaço de esclarecimento de dúvidas, de conversa sobre a importância do afeto, do cuidado e do prazer nas relações e de aconselhamento sobre situações de risco para abuso sexual.

O consumo de cigarros, álcool ou drogas ilícitas e anabolizantes deve ser abordado nas consultas para reflexão e encaminhamento. Outros assuntos importantes são as dificuldades na escola e no trabalho. Essa abordagem deverá ser desenvolvida de forma criativa, não se revestindo de um caráter inquisitivo. Não há obrigatoriedade de esgotar todos os tópicos em uma única ocasião.

A família
É importante estar disponível para atender o paciente e sua família sem autoritarismos, promovendo uma relação profissional horizontal. De forma ideal, devem existir dois momentos na consulta: o adolescente sozinho e com os familiares/acompanhantes. Entrevistar o adolescente sozinho cria a oportunidade de estimulá-lo ao diálogo, buscando que se torne, de forma progressiva, responsável por sua própria saúde e pela condução de sua vida. A entrevista com a família é fundamental para o entendimento da dinâmica e estrutura familiar e para a elucidação de dados da história pregressa e atual. Bem como inserir a família/cuidadores no acompanhamento e apoio do adolescente, construindo um vínculo de parceria entre equipe de saúde – familiares e adolescente. É fundamental que o adolescente e a família tenham claro o papel confidencial e sigiloso da consulta do adolescente, que é o foco da equipe, sem o que ficaria comprometida toda a assistência.

Trabalho de grupo/dinâmicas
É bastante interessante que todo o serviço voltado para adolescentes possa desenvolver práticas educativas de grupo. Estas práticas visam proporcionar um espaço de troca de vivências, no qual o adolescente possa sentir-se à vontade para trazer suas dúvidas e compartilhá-las com o grupo. Neste espaço, trabalha-se com o conhecimento trazido pelos participantes buscando a construção do conhecimento daquele grupo. Para isso, são utilizadas técnicas lúdicas, tais como desenho, corte e colagem, dramatização, exposição de vídeo entre outras. A coordenação idealmente é realizada por dois profissionais de saúde capacitados, de qualquer categoria profissional. O adolescente sugere os temas a serem discutidos e estabelece conjuntamente com a coordenação as normas de funcionamento do grupo. São temas que sempre surgem: conhecimento do corpo, gênero, sexualidade, namoro, masturbação, virgindade, contraceptivos e DST/aids.

O grupo deve ter duração máxima de duas horas para não perturbar a rotina de adolescentes e cuidadores, e a confidencialidade é um ponto a ser marcado. É uma atividade de que os adolescentes gostam muito e que complementa o trabalho da consulta individual. O mesmo trabalho pode também ser realizado com familiares e cuidadores.

Conclusão
O momento da consulta dos adolescentes e jovens, bem como das atividades de grupo, deve ser aproveitado pela equipe de saúde para a troca de informações. A equipe deve ter em mente que, tratando-se de uma população em constante mudança, é necessário que, para aumentar a efetividade dos serviços, exista uma preocupação de conhecer o que está em transição e os novos costumes adotados.

Outra questão, que muitas vezes os serviços evitam adotar, é a maior participação do usuário na gestão e na atenção prestada. Com esse grupo etário, o distanciamento poderá significar a pouca compreensão das normas e condutas, diminuindo a aderência ao serviço e às atividades planejadas. É muito importante que o adolescente sinta que faz parte daquele serviço e ajude a construí-lo.

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