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Saber Viver » Saber Viver n.49

07/2012

A galinha, o ovo e o pintinho

Carregar o HIV sozinho não é fácil. Mas muitos soropositivos preferem não contar que têm o vírus, às vezes, até para alguém muito próximo. Parceiro que esconde de parceiro, mãe que não fala para filho, filho que não se abre com os pais, amigo que esconde da turma… E cada um tem seu motivo para não contar.

Uns não querem preocupar o ente querido, outros têm medo de ser discriminados e há também aqueles que preferem preservar sua intimidade. Mas e quando esse “segredo” se torna um fardo, tão ou mais pesado que o próprio HIV?

Não podemos negar que a aids ainda está rodeada de preconceitos. E como eles tornam nossa vida mais complicada! Mas será que, ao não falar sobre o assunto, também não estamos, de certa forma, reforçando esses preconceitos?

Quando me perguntam qual foi o pior tipo de preconceito pelo qual já passei por causa da aids, sempre respondo, o meu mesmo. Pois a partir do momento que me aceitei como sou, vivendo com HIV, tudo pareceu mais leve. É claro que foram anos de terapia, grupos de apoio, leitura, escrita, reflexão… Mas precisei primeiro aceitar o vírus dentro de mim, para então poder me expor com ele.

Acredito que todo mundo seja alvo de preconceito em algum momento de sua vida. Ou porque é feio, ou porque é bonito, porque é pobre, rico, alto, baixo, gordo, magro, inteligente, ignorante… Todos temos qualidades, defeitos, virtudes, diferenças. Entretanto, ao aprendermos a lidar com eles dentro de nós, torna-se mais fácil lidar com eles perante a sociedade.

Isso tudo tem a ver com autoestima, ou seja, com os conceitos e sentimentos que cada um tem sobre si mesmo. E é fato que um indivíduo com uma boa autoestima acaba transferindo essa segurança para o outro, que tende a tratá-lo melhor. Por outro lado, se eu não me gosto, quem vai gostar? E para ir mais além, se estou bem comigo mesmo e fulano me discrimina, me trata mal, será que isso me atingirá tanto assim?

Preconceito, HIV e autoestima estão tão interligados como o ovo, a galinha e o pintinho. Qual vem primeiro? Será que se a sociedade tivesse menos preconceito com o HIV minha autoestima seria mais alta? Ou será que se minha autoestima estiver boa em relação ao HIV, poderei lidar melhor com essa questão perante a sociedade e, com isso, diminuir o preconceito?

Talvez essas sejam daquelas perguntas sem resposta, cujo intuito parece ser dar um nó em nossas cabeças. Mas, na verdade, elas estão aí para nos fazer pensar e evoluir.

Por Valéria Piassa Polizzi, autora do livro Depois daquela viagem – diário de bordo de uma jovem que aprendeu a viver com aids. É jornalista, tem 40 anos e é soropositiva há 24.

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