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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.12

04/2008

A prevenção na adesão

O psicólogo Nélio Zuccaro aponta para a prevenção secundária

No final de 2007, a Gerência de DST/Aids do Estado do Rio de Janeiro realizou a I Jornada Estadual de Adesão à Terapia Anti-Retroviral. Na ocasião, o psicólogo Nélio Zuccaro, que é técnico do setor, aproximou o conceito de vulnerabilidade, na perspectiva da prevenção, e a questão da adesão ao tratamento anti-retroviral. Nélio atua na área da prevenção e, mais especificamente, na interface da aids com o uso de drogas. Satisfeito com o rumo do trabalho, quer seguir em frente: “Meu plano é contribuir para a construção de respostas mais eficazes em relação à prevenção e à assistência das DST e do HIV/Aids”, afirma.

SV Prof: A Jornada era sobre adesão à terapia anti-retroviral (TARV) e você falou em prevenção. Qual o motivo desse enfoque tão específico?
Nélio Zuccaro: As medidas de prevenção no campo do HIV/Aids ocupam-se, igualmente, tanto da prevenção primária quanto da prevenção secundária. O primeiro objetivo da prevenção é o de trabalhar no sentido de evitar que uma pessoa se infecte pelo vírus HIV. Caso a infecção já tenha ocorrido, outras medidas devem ser empreendidas, no âmbito das vulnerabilidades, a fim de evitar que a infecção evolua para a síndrome clínica (a aids). A prevenção também está voltada para medidas de preservação da qualidade de vida das pessoas que já vivem com o vírus HIV, alertando-os para que não sejam alvos de novas infecções, o que, invariavelmente, agrava a infecção anterior e dificulta o tratamento.

Você enfatizou que não tem sentido dizer que alguns grupos não são aderentes à TARV. Como assim?
As noções conceituais de “grupos de risco” e de “comportamento de risco” não chegam a dar conta de toda a complexidade nem desta nem de outras questões. Ao valorizar mais os fatores individuais, em detrimento de sua interação com os fatores sociais e programáticos, esquecem que nossos comportamentos, atitudes e subjetividades são sempre marcados pela cultura e pelos valores vigentes. Tudo depende do momento histórico e político da sociedade.

Imagine que uma médica pense que um paciente esquizofrênico não adere devido ao transtorno mental. Não tem sentido ela pensar assim?
Uma pessoa com transtorno mental grave muitas vezes necessita de abordagens especiais que, se bem utilizadas, podem levar a uma boa adesão. Partir do princípio de que determinadosgrupos de pessoas não são aderentes ao tratamento é não considerar a possibilidade de mudança dessa condição.

Que princípio você propõe?
Devemos estar atentos aos fatores de vulnerabilidade em jogo. Há fatores individuais que podem, de fato, aumentar e dificultar a adesão ao tratamento anti-retroviral. O importante é identificar quais são eles e quais são os recursos ou intervenções mais apropriados a que podemos recorrer para melhorar a adesão.

O paciente nunca deve ser culpado por não aderir?
O processo de adesão envolve sempre uma co-responsabilidade entre o paciente e a equipe que o assiste, além da participação do sistema de saúde como um todo. O paciente não é o principal responsável pela falta de prevenção nem pela baixa adesão ao tratamento.

Na sua fala, você criticou a “pedagogia do terror”. Ela existe mesmo?
Não é raro encontrar profissionais de saúde que, no intuito de obteruma adesão mais rápida de alguns pacientes, utilizam argumentos amedrontadores do tipo: “Se você não se tratar, vai morrer!” ou “Assim, você vai ter complicações muito sérias!”. Mas nós sabemos que a adesão é mais eficiente quando o paciente encontra confiança e apoio emocional na equipe que o assiste e se torna, ele próprio, sujeito de sua saúde e transformação.

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