Publicações

  • Fonte normal
  • Aumentar fonte
  • Adicionar a favoritos
  • Imprimir
  • Envie para um amigo:





Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.01

07/2005

A relação profissional de saúde e paciente: a palavra-chave é CONFIANÇA

Não há dúvidas de que, em qualquer especialidade, o profissional de saúde precisa transmitir confiança ao paciente. Porém, quando esta relação envolve o tratamento de uma doença tão complexa como a aids, a confiança se torna ainda mais importante. Ela ajuda a construir um diagnóstico, a acompanhar a adesão, a sugerir medidas preventivas diante da exposição a outras doenças, entre outras vantagens. Para o infectologista de São Paulo, Caio Rosenthal, a prática mostra o quanto uma relação de confiança pode auxiliar no tratamento: “Quando uma pessoa confia no profissional e vice-versa, eles conseguem estabelecer um pacto mais harmonioso com a terapia contra a aids”. Rosenthal começou a atender pessoas com aids quando muitos profissionais tinham receio de se aproximar de soropositivos. Uma delas freqüenta seu ambulatório há 20 anos. “Sem dúvida, construímos uma relação de afeto. Eu sei muito da vida dessa pessoa e a considero como amiga”, avalia Rosenthal. Juan Carlos Raxach, assessor de projetos da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), aposta que um profissional de saúde consegue conhecer realmente o seu paciente quando há uma relação de confiança mútua. Médico cubano, Raxach conta o quanto a sua formação acadêmica priorizou a relação entre médico e paciente: “Os professores pediam que observássemos as pessoas na sala de espera. Durante as consultas, a orientação era ouvir com atenção. Ao final, construíamos um diagnóstico baseado em todas as informações captadas, a partir de uma visão holística”. Atualmente, ele é voluntário do Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) do Hospital Rocha Maia no Rio de Janeiro. Durante os aconselhamentos, tanto na Abia quanto no CTA, Raxach incentiva os usuários a escolherem uma pessoa com a qual seja possível estabelecer um diálogo e negociar alternativas para o tratamento: “Quando o profissional de saúde tem disponibilidade para ouvir o paciente, fica caracterizado maior interesse pela profissão”, analisa.

UMA RELAÇÃO EM QUE A CONQUISTA É DIÁRIA
Através de muita conversa, Tácito Molica conseguiu construir uma relação de confiança mútua com o seu médico. Ele descobriu a infecção pelo HIV em 1992 e, desde 2002, está em terapia de resgate. “Confio no meu médico por causa do respeito e de sua capacidade de escuta”. Apesar da boa relação, Molica sente que a terapia de resgate, às vezes, gera tensão entre eles. “Um exemplo foi quando eu parei de tomar os remédios numa sexta-feira, porque não estava me sentindo bem. Avisei a ele apenas na terça. Levei uma bronca e ficamos uns dias estremecidos um com o outro. Por outro lado, depois ele me pediu para conversar com um paciente com dificuldade para aderir aos remédios, demonstrando confiança em mim”. Para a médica clínica Valéria Saraceni do Rio de Janeiro, em qualquer tratamento em que o paciente precisa ver o médico com mais freqüência, é necessária uma relação em que os dois possam conversar abertamente. Ela destaca que os soropositivos geralmente são mais bem informados, o que é diferente de outras patologias, em que o paciente faz o que o médico manda: “Este aspecto amplia a possibilidade de diálogo, incentivando o paciente a buscar o melhor para o seu tratamento”.

“MINHA ADESÃO ERA RIDÍCULA E MENTIROSA”
Hugo Hagstrom descobriu o HIV há 13 anos e nunca trocou de médico, mas reconhece que construir uma relação de confiança foi muito difícil: “Na época, eu não gostava do meu médico e a minha adesão ao tratamento era ridícula e mentirosa. Como eu poderia gostar de uma pessoa que tratava de uma doença que eu negava em mim?”. A capacidade profissional e a afetividade fizeram com que a impressão de Hugo mudasse com o tempo. “Eu mentia e ele não dizia nada. Eu achava que ele era um tonto. Precisei ser internado em estado grave para mudar a minha forma de pensar. Hoje, eu entendo que ele cuidou de mim o tempo todo. Se ele tivesse perdido a paciência na época e me chamado de mentiroso, eu teria abandonado o tratamento. Ele entendeu o meu comportamento e me respeitou”.

O DESAFIO DE RESPEITAR O DIFERENTE 
Para manter uma relação de confiança com os seus pacientes, Caio Rosenthal faz questão de priorizar algumas atitudes: “O profissional de saúde nunca deve depender de seu paciente. Além disso, apesar de alguns pacientes manterem hábitos não aceitáveis socialmente, o profissional de saúde não deve interferir nessas questões. O foco é o bem-estar daquele indivíduo”. O psicólogo Marlos Alves, que ministrou treinamentos para profissionais de saúde pelo Núcleo de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, acredita que este seja um dos maiores desafios que o profissional de saúde enfrenta no trato com o seu paciente soropositivo: “Uma relação entre duas pessoas é uma troca constante de emoções, positivas e negativas. Logo, quando um profissional de saúde atende um soropositivo, o contato vai além do nível técnico, envolvendo emoções que consciente ou inconscientemente o paciente suscita naquele profissional”, reflete. Durante treinamentos, Alves observou que os profissionais geralmente passam a questionar o comportamento de seu paciente com base nas questões relacionadas à sua própria sexualidade. Além disso, o trabalho com os portadores de HIV/aids os coloca em contato com a eminência da morte que essa doença ainda suscita no imaginário social. “Percebemos que quanto maiores são as atitudes e reações conflituosas com os pacientes, maiores serão os sintomas de esgotamento físico do profissional de saúde. Portanto, sugiro que cada especialista desvende os próprios sentimentos e identifique limites e dificuldades. Grupos de discussão no trabalho para compartilhar e diluir questões, além de buscar supervisão quando possível, podem contribuir para remover obstáculos para a construção de uma relação de confiança com seus pacientes”.

“A EQUIPE DO SERVIÇO PÚBLICO É MAIS ATENCIOSA E COMPROMETIDA”
Quando Marcos Damatta recebeu da empresa em que trabalha um plano de saúde, imaginou o quanto seria confortável deixar o serviço público para realizar o tratamento contra a aids no conforto de um consultório particular. Ledo engano. Depois de passar por dois profissionais diferentes, Marcos percebeu que a equipe da unidade pública de saúde da zona norte do Rio de Janeiro é muito mais atenciosa e comprometida com o seu bem-estar. “O primeiro médico particular era totalmente estressado. Mal conversava comigo. O outro, não olhava para minha cara e ainda desenhava no receituário enquanto eu falava. Eu não confiava neles. Voltei para o serviço público de saúde onde me cuidava anteriormente. Utilizo o plano de saúde apenas para os exames laboratoriais”.


Compartilhe