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Solução » Solução n.20

08/2007

A semente germinou

Mas o papel do farmacêutico na enfermaria ainda pode crescer muito


Apontado pela nova geração como referência em assistência farmacêutica, o prof. Levy Gomes Ferreira desconversa: “Plantei uma semente para os outros, cresceu um pouquinho, mas a árvore ainda não ficou frondosa”, avalia. Levy foi funcionário da Universidade Federal do Rio de Janeiro por 43 anos, período em que atuou como diretor da Faculdade de Farmácia e como chefe da farmácia do Hospital Universitário Clementino Fraga. A árvore que plantou pode não estar crescendo tão rapidamente quanto ele gostaria, mas já deu frutos. Um exemplo é o trabalho do farmacêutico junto aos pacientes internados realizado no Instituto de Pesquisa Evandro Chagas (IPEC-Fiocruz). Ali a maioria dos 32 leitos é ocupada por soropositivos que usufruem, além dos cuidados de enfermeiros e médicos, a atenção de farmacêuticos como Noemi da Rosa Pereira.

Os limites entre o farmacêutico e o enfermeiro
“O enfermeiro cuida do paciente e o farmacêutico cuida para que o medicamento chegue ao paciente da forma mais correta”, explica Noemi. O trabalho começa com a análise da prescrição médica. Na internação, os detalhes das prescrições precisam ser observados diariamente, enquanto na farmácia ambulatorial só se faz uma conferência mensal por paciente. A prescrição sempre pode mudar e há ainda o problema da divergência entre o papel e o computador: “O médico faz a prescrição no computador, mas a correção ele costuma fazer à caneta, simplesmente riscando o papel impresso. Então, no dia seguinte, a prescrição será impressa sem as correções da véspera”, observa. A intervenção do farmacêutico na enfermaria é bem-vinda: “A enfermagem gosta, pois assim recebe a dose bem certinha”, assegura Noemi. Fora isso, pode haver troca de via de administração: “Nisso a farmácia também ajuda”, diz ela.

Os limites entre o farmacêutico e o médico
Noemi aponta duas circunstâncias em que o farmacêutico costuma auxiliar especialmente os médicos: quando há recomendação de diminuir a sensibilidade do paciente a uma determinada substância, e quando o paciente precisa de um medicamento feito exclusivamente para ele. No primeiro caso, se uma pessoa precisa tomar um medicamento que contenha justamente a substância que não tolera, o médico muitas vezes conversa com o farmacêutico sobre o que prescrever para amenizar essa intolerância. No segundo caso, ela fala de uma paciente que veio da Itália e está internada no IPEC fazendo uso de um medicamento que não existe no Brasil. Agora, a farmácia vai decidir junto ao médico se a prescrição será trocada ou não.

Os limites entre o farmacêutico e o paciente
“Procuro me preservar na relação com o paciente. Alguns ficam meses internados. Se a gente se apega, pode sofrer”, observa Noemi. O “apego” ao paciente de que ela fala é o reflexo natural do avanço da assistência farmacêutica desde o início dos anos 80, quando se descobriu o HIV. O prof. Levy Gomes Ferreira lembra que até meados dos anos 90 a relação era bem diferente. Todos os pacientes portadores do vírus eram terminais e, mesmo entre os profissionais de saúde, havia o receio da aproximação com esses doentes: “Nem se pensava em acompanhamento farmacêutico na enfermaria”, afirma. Formado em 1950 pela própria UFRJ, Levy é coordenador de estágio na Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro. Ele sabe que ainda faltam farmacêuticos nos hospitais para suprir a demanda da internação. Exercendo o papel de educador, porém, não desistiu de cuidar da árvore que plantou um dia.

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