Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids

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Saber Viver Edições Especiais » Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids » Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids n.02

03/2008

A sexualidade permeada pelo HIV

Na adolescência, quando a sexualidade está à flor da pele, o HIV toma uma dimensão ainda maior. A vivência do prazer, a expectativa do amor e o sonho de formar sua própria família são acompanhados por sentimentos de culpa, medo, raiva e fracasso. Tentando se equilibrar dentro dessa combinação explosiva e driblar suas próprias dificuldades, os profissionais de saúde se preocupam em fortalecer a auto-estima dos jovens  e forçar a importância do cuidado nas relações sexuais.

MANAUS
NO HOSPITAL TROPICAL, O DESPERTAR DA SEXUALIDADE

A pediatra Solange Dourado confessa ter dificuldade de falar sobre sexualidade com seus pacientes. “O que eles perguntam, eu respondo, mas não é um assunto que trago para a consulta”, diz ela. “Eu me formei em pediatria para cuidar de crianças até 12 anos. Atender adolescentes tem sido um aprendizado complicado para mim”. Por isso, Solange assiste apenas os jovens que são seus pacientes desde a infância. “Eu me apeguei demais a eles e eles a mim, e fui acompanhando seu crescimento, mas não me sinto à vontade atendendo adolescentes de transmissão horizontal, com vida sexual. Nesses casos, eles são encaminhados para o ambulatório de adultos”, revela.
Segundo a médica, o surgimento da puberdade entre seus adolescentes é tardio, assim como o despertar da sexualidade. “Talvez por serem superprotegidos desde pequenos”, observa.

Encontro de jovens foi libertador

Tais Cavalcante, psicóloga da Casa Vhida, ONG onde os adolescentes da pediatria do Hospital Tropical fazem acompanhamento, revela que eles já falam sobre namoro, principalmente depois do II Encontro de Jovens Vivendo com HIV/aids, em Salvador – BA, em outubro de 2007. “O encontro foi libertador! Lá eles se sentiram entre iguais e voltaram falando de namoro”, conta, acrescentando que tem conversado com eles sobre a importância do preservativo. “Tento mostrar que eles precisam se preservar de doenças e preservar o outro”, conclui.

BELO HORIZONTE
GRAVIDEZ É ASSUNTO FREQÜENTE NAS CONSULTAS DO CTR-DIP DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS

Odesejo de ter filhos faz parte das conversas entre a pediatra Flávia Faleiro e seus pacientes no Centro de Treinamento e Referência em Doenças Infecto-Parasitárias (CTRDIP) do Hospital das Clínicas da UFMG. Por serem muito jovens, Flávia os aconselha a primeiro estudar, trabalhar, casar e depois constituir família. “Os adolescentes que cresceram com o vírus não imaginam que tudo isso possa ser feito. É importante que eles tenham essa perspectiva”, observa, acrescentando que orienta as jovens que querem engravidar sobre os riscos e a importância do tratamento para prevenir a transmissão do HIV para o bebê.

“Algumas das minhas adolescentes descobriram o HIV ao fazer o teste durante a gravidez”, conta Flávia, que prescreve anticoncepcional para todas as meninas com vida sexual ativa e estimula o uso da camisinha entre os jovens. “Digo a eles que camisinha todo mundo tem que usar, de qualquer jeito”, enfatiza.

Sexualidade é pouco falada
Durante as reuniões do grupo de jovens que coordenam no hospital, a pediatra Patrícia Guimarães e a psicóloga Julia Mesquita percebem que a sexualidade aparece permeada pelo vírus, pelo medo de infectar o parceiro. “Muitos pacientes achavam que não podiam beijar. Os cuidadores dizem para os filhos “Você não pode namorar sério”, significando “Você não pode ter relação sexual”, revela Patricia.

Júlia acrescenta que é raro o assunto surgir no grupo, aparecendo um pouco mais nas consultas individuais, apesar de ser algo que traz muita angústia ao jovem. “Os adolescentes infectados no nascimento já sabem tudo sobre HIV, têm muita informação. Difícil, para eles, é saber
como viver sua sexualidade tendo o vírus”, diz Júlia.

FORTALEZA
NO HOSPITAL SÃO JOSÉ, HOMOSSEXUALIDADE É REJEITADA PELA FAMÍLIA

A equipe do Hospital São José afirma que convencer o jovem da importância do preservativo é um dos maiores desafios. “Não queremos que ele desenvolva um sentimento de inferioridade por ter o vírus, que se sinta diferente, mas é preciso fazê-lo entender que precisa tomar certos cuidados”, diz a médica Telma Queiroz. Por vezes, a presença da mãe na consulta impede o jovem de falar abertamente sobre sexo. “Ele se sente constrangido, o que dificulta a abordagem”, destaca.
Revelar a soropositividade para o parceiro aparece como o maior problema vivido pelo jovem. A pediatra Dayse Oliveira orienta seus pacientes a não contar logo no início do namoro. “Ainda existe muito preconceito”, justifica. “Digo que pode namorar à vontade, beijar na boca, mas, se passar disso, tem que usar camisinha”.

Enfrentando o HIV sozinho
Jandira Laprovitera, psicóloga, afirma que lidar com a homossexualidade dos filhos é o grande temor das famílias, maior até que o HIV. Por esse motivo, muitos adolescentes enfrentam o tratamento e até se internam sem que ninguém da família saiba. “Eles dizem que preferem morrer a dizer para a família que são homossexuais”, conta. “Nesses casos, pedimos que ele venha acompanhado pelo parceiro ou por um amigo”, diz a psicóloga. Entre as mulheres, o que se observa, às vezes, são problemas de discriminação por serem taxadas de promíscuas.

RIO DE JANEIRO
FALANDO SOBRE SEXO, NO HOSPITAL DOS SERVIDORES DO ESTADO

“A gente tem que partir da premissa que na adolescência tem o despertar da sexualidade e não tem volta”, diz a médica Maria Letícia Cruz do Hospital dos Servidores do Estado (HSE). “E isso vale para todos, não importa se nasceram com HIV ou adquiriram o vírus há pouco tempo”. Para Maria Letícia, a diferença é que, entre os jovens de transmissão vertical, a sexualidade, na maioria das vezes, desperta um pouco mais tarde.
Parte da consulta médica é usada para falar sobre namoro, beijo, sexo e uso do preservativo. “Dou camisinha para o menino treinar sozinho e a menina levar para o namorado, mesmo que digam que ainda não transam. Falo que é para ir treinando como colocar e que é normal descobrir as possibilidades do corpo”, relata.
Maria Letícia afirma que o grupo de jovens do hospital é um ótimo lugar para estimular a conversa sobre o tema e para aprender a conviver com diferentes orientações sexuais. “O grupo é a atividade principal do serviço. É o espaço dos jovens, onde eles podem falar abertamente sobre suas questões”, finaliza.

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