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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.13

07/2008

A vulnerabilidade depois do diagnóstico: vulnerabilidade potencial*

Artigo de Maria Helena Costa-Couto (foto)1,Kenneth Rochel de Camargo Jr. 1, Claudia Medina Coeli 2, Rosane Harter Griep 3 e Juliana Val Porto 4

A vulnerabilidade após o diagnóstico, a iniqüidade social e os novos riscos devido às transformações societárias padecem de plena compreensão face à insuficiência de dados sobre as condições de vida das pessoas vivendo com HIV/aids (pvha). Tal insuficiência dificulta o entendimento da relação entre a epidemia, a pobreza, a desigualdade e a exclusão.

Aqui são apresentados alguns resultados da pesquisa realizada em 2006 e 2007 em cinco unidades de saúde do município do Rio de Janeiro, com 609 pvha. Os objetivos deste estudo são identificar diferentes vulnerabilidades associadas às condições de vida e de saúde e propor novos marcadores para auxiliar na formulação e avaliação de políticas voltadas para pvha e em desvantagem.

O questionário construído é predominantemente estruturado e abrange as seguintes dimensões: socioeconômica e demográfica; rede suporte social formal e acesso a serviços, direitos e assistência social; aspectos da vida pessoal, familiar e sexual; condições de moradia; tempo de diagnóstico e situação de saúde, rede de suporte familiar e social e discriminação.

Foram entrevistados 367(60%) homens e 242(40%) mulheres, apresentando uma relação homem/ mulher de (1,5). As pvha tinham de 18 a 75 anos de idade, média de idade de 42,7(DP±10,9). Encontramos níveis mais elevados de escolaridade entre os homens. Houve predominância de auto-classificação de pardos (45%), seguido de brancos (30%). Cerca de 48% responderam ter parceria. Destes, 49% disseram que o/a parceiro/a é sorodiscordante e 7,5% desconhecem a sorologia para o HIV do/a parceiro/a.

Sobre a fonte de renda, o trabalho assalariado é fato para 62% dos entrevistados. O vínculo trabalhista, porém, é realidade para 66% dos homens e 34% das trabalhadoras. A maioria das pessoas que declararam não possuir renda é mulher. A desigualdade entre os sexos é reforçada pela renda familiar per capita no mês anterior à entrevista. As faixas mais elevadas de renda são predominantes entre homens. A maioria das pvha referiu possuir dinheiro para comprar alimentos, pagar contas, comprar remédios, vestuário, educação e lazer. Porém, nas unidades situadas nos bairros de piores indicadores socioeconômicos, foi freqüente a referência à falta de dinheiro para estas despesas. O estudo do uso e do acesso de rede de suporte assistencial mostrou que o Bolsa-família é desconhecido para 18%, o LOAS é ignorado por 27%, 40% ignoram a cesta básica e 49% desconhecem outras doações assistenciais. A maioria dos entrevistados fez o teste porque ficou doente e comunicou o resultado para alguém. O tempo médio de diagnóstico é de seis anos e a maioria usa TARV.

Embora 63% recebam apoio familiar, 41% não possuem parentes para conversar sobre quase tudo e 29% não têm amigos. Apenas 26% participaram de grupos de apoio, os quais são mais freqüentes nas unidades de saúde.

A discriminação persiste nos locais de trabalho, abordagem da polícia, moradia, estabelecimentos públicos e colégio, nessa ordem. Os principais motivos de discriminação é ser HIV+, parceria sexual e raça/cor. Os resultados reforçam a persistência no país da desigualdade de gênero, isolamento social e discriminação.

Os diferentes fatores de vulnerabilidade após o diagnóstico e sua associação às possíveis dificuldades adicionais de viver em situação de pobreza, desigualdade ou exclusão foi denominado “vulnerabilidade potencial”. A abrangência deste conceito pode ser útil para visualizar e defender políticas intersetoriais de inclusão social, exercício pleno da cidadania e autonomia econômica destas pessoas.

1 – Instituto de Medicina Social – UERJ; 2 – Faculdade de Medicina – UFRJ; 3- Instituto Osvaldo Cruz – FIOCRUZ ; 4 – Assistente social bolsista do projeto

* Alguns resultados da pesquisa “Vulnerabilidades, lacunas da seguridade social brasileira e HIV/Aids”, desenvolvida com apoio do Programa Nacional de DST e Aids e financiada pela UNESCO.

E-mail para contato: costacoutomh@gmail.com

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