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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.07

11/2006

Adesão de crianças ao tratamento anti-retroviral

Com brincadeiras, muita conversa e uma equipe de saúde atenta, Serviço de Atendimento Especializado em DST/Aids (SAE)
Cidade Dutra, em São Paulo, consegue driblar dificuldades

O grupo de adesão ao tratamento anti-retroviral formado pelas crianças atendidas no Serviço de Atendimento Especializado em DST/Aids (SAE) de Cidade Dutra, zona sul de São Paulo, existe desde 2003. Nessa época, médicos e pais encontravam grande dificuldade em fazer com que as crianças continuassem a tomar seus medicamentos.

“Quando atingiam a idade de 6 a 12 anos, eles começavam a se negar a engolir os xaropes e comprimidos e também não queriam mais ir até o serviço”, conta a psicóloga Maria Teresa Blota. Preocupados, os profissionais da equipe multidisciplinar do SAE decidiram criar alternativas capazes de estimular pais

e crianças a lidar com a situação. “Iniciamos com oficinas de história, fantoche, teatro e vídeo. Nosso objetivo era fazer com que as crianças vissem o serviço não só como um lugar de tomar remédio e ir ao médico, mas também como um espaço de diversão”, relembra Gisele Franzine Dias Ré, terapeuta ocupacional.

Por entender a questão da adesão como algo muito mais complexo do que tomar ou não o medicamento, a equipe passou a se reunir também com as mães, pais e cuidadores. “A adesão envolve uma série de sentimentos relacionados à doença”, diz Maria Teresa, ressaltando a importância de discutir com os responsáveis pelas crianças sua própria adesão e a revelação do diagnóstico. “Percebemos que as mães que não são aderentes ao tratamento não conseguem fazer com que os filhos sejam”, comenta a psicóloga.

TRABALHO PARA ADESÃO COMEÇA NA NUTRICIONISTA

Segundo Maria Teresa, a maioria dos pacientes de aids fala o que o médico quer ouvir. Portanto, para confirmar se a mãe realmente seguia as orientações dos infectologistas e pediatras, a equipe teve que sair à procura de um caminho alternativo e acabou por descobrir que o consultório de nutrição seria o local ideal para iniciar a discussão sobre adesão. Cabe à nutricionista do SAE Cidade Dutra, Fernanda Gil Mendes de Faria, distribuir a fórmula láctea para todas as crianças cadastradas no serviço até os cinco meses de idade e, depois dessa faixa etária, o leite integral até os dois anos.

Fernanda desenvolveu um sistema simples de controle da freqüência das mães. Com um caderno, uma caneta e disciplina ela anota todas as retiradas de leite das crianças do serviço.

“Quando percebo que uma criança faltou por duas vezes consecutivas para retirar o leite, vou atrás do prontuário dela, vejo se ela passou pelo pediatra e se realizou o exame que estava agendado. Aí já aproveito e dou uma olhada no prontuário da mãe, vejo se ela passou na farmácia e vou rastreando o vínculo dela com a unidade”, explica a nutricionista.

Após os dois anos de idade, o acesso à nutricionista continua aberto para todas as crianças do SAE. As que são soropositivas continuam visitando essa profissional regularmente; as demais têm as portas abertas para acompanhamento anual, como assegura Fernanda. “O vínculo estabelecido entre as mães e a nutricionista é tão forte que a torna referência para a equipe quando o assunto é adesão”, completa a psicóloga Maria Teresa.

GRUPO TRABALHA A QUESTÃO DA REVELAÇÃO DO DIAGNÓSTICO

Cerca de 30 crianças e pré-adolescentes participam do grupo de adesão do SAE Cidade Dutra; a maioria tem entre 5 e 10 anos de idade e os mais velhos têm 13. As reuniões são mensais e, além dos vídeos, da pipoca e do fantoche, todos conversam e fazem desenhos livres. Normalmente, ao final do encontro, os pais ou responsáveis são convidados a participar. No SAE, são desenvolvidas ainda outras atividades, como oficina de artesanato e ginástica Lian Gong, das quais muitos participam.

Maria Teresa conta que, no grupo, há crianças que sabem que têm o HIV e outros que não têm a menor idéia do porquê de ir até o serviço. “Durante as atividades, os que sabem do diagnóstico costumam fazer desenhos do seu corpo cheio de vírus. Nós trabalhamos essa questão e, depois de um tempo, as representações contêm muito menos vírus”, diz a psicóloga. Outro instrumento que ajuda bastante no trabalho é o livro Daniel e Letícia, Falando Sobre Aids – uma publicação do Grupo de Incentivo à Vida (GIV) e da Casa Siloé – que, em linguagem adequada para o público infantil, aborda as formas de transmissão e prevenção do HIV, a identidade da criança vivendo com aids, o preconceito e a solidariedade.

Segundo Teresa, o livro torna as discussões mais reais. A questão da revelação do diagnóstico também está sempre presente nas conversas com os pais, que são incentivados pela equipe de saúde a revelar o diagnóstico positivo para seus filhos. A assistente social Márcia Capassi Ferreira comemora o fato de a maioria das mães, pais e cuidadores que freqüentam o grupo ter contado para os filhos sobre o HIV. “Isso demonstra que o trabalho da equipe está na direção certa”, diz.

MAIS INFORMAÇÕES
SAE Cidade Dutra:
saecdutra@itelefonica.com.br
Livro: Daniel e Letícia, Falando Sobre
Aids: www.giv.org.br

CONSELHO TUTELAR: ACIONAR OU NÃO?
Às vezes, a equipe do SAE Cidade Dutra se depara com situações difíceis nas quais tem que intervir. São momentos extremos, como quando as mães se negam a cuidar dos filhos. Quando isso acontece, antes de tomar a decisão de acionar o conselho tutelar, os profissionais fazem visitas domiciliares e conversam com os responsáveis pela criança para tentar ajudar. “Resolvemos trabalhar em parceria com o conselho tutelar após o falecimento de um menino cuja mãe se negava a aceitar o HIV dele e a tratá-lo”, comenta a psicóloga Maria Teresa. “Porém, a decisão de contatar o conselho só é tomada após a equipe perceber que a mãe não está mudando sua conduta em relação ao filho, mesmo depois de ser avisada de que isso poderá acontecer”.

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