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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.14

10/2008

Aids na terceira idade

Cuidados redobrados

Em 10 anos, a incidência de aids na população com mais de 60 anos teve um aumento de 50%, segundo o Programa Nacional de DST e Aids do Ministério da Saúde. Esse número não chega a surpreender, uma vez que a chamada terceira idade possui hoje maior expectativa de vida e é mais ativa sexualmente do que a de décadas passadas. Porém, um dado chama a atenção: a maioria das pessoas idosas é diagnosticada com HIV/aids tardiamente, quando a doença já está instalada. E dessas, 37% morrem um mês após o diagnóstico.

“O diagnóstico da aids na população idosa é muitas vezes dificultado porque tanto o idoso quanto seus familiares e profissionais de saúde tendem a não cogitar a possibilidade de aids nessa faixa etária”, afirma Mariângela Simão, diretora do Programa Nacional de DST e Aids. “O acolhimento da pessoa idosa pela equipe de saúde assume um papel de grande importância, tanto no reconhecimento de casos vulneráveis, como para delinear e acompanhar um plano terapêutico, levando em conta outras doenças associadas”, explica a diretora do PNDST/Aids, que este ano definiu como tema da Campanha de 1º de dezembro a aids na terceira idade.

Acompanhamento cuidadoso
O Programa Nacional de DST e Aids recomenda que o tratamento do idoso seja sempre interdisciplinar, incluindo geriatria, psicologia, serviço social, enfermagem, farmácia, fisioterapia e nutrição, entre outros. “Precisamos estimular o paciente a seguir o tratamento, adequando-o às atividades diárias. E reconhecer os idosos como sujeitos aptos a cuidar de sua saúde, sem infantilizá-los”, diz Mariângela Simão. Ela sugere que os profissionais de saúde, em função das dificuldades de visão dos idosos, usem letras de tamanho visível, de preferência de fôrma, nas prescrições, e, sempre que necessário, encaminhem o paciente para avaliação oftalmológica. E mais: “Por conta das falhas de memória, o profissional deve verificar se as informações foram bem apreendidas e sugerir estratégias que minimizem possíveis esquecimentos no uso da medicação, como despertadores, lembretes com bips no celular e tabelas com horários e doses”, aconselha.

Exames mais freqüentes
A psicóloga Marlene Zornitta que trabalha no Hospital da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e acaba de concluir dissertação de mestrado sobre o tema, alerta os médicos sobre as implicações clínicas que podem surgir com a escolha dos anti-retrovirais. “Os idosos podem sofrer de doenças pré-existentes e comorbidades clínicas, sem falar dos para-efeitos da medicação, que costumam ser mais intensos em pacientes com mais de 60 anos. Além disso, é preciso estar atento às interações farmacológicas entre os ARVs e os outros medicamentos utilizados”, ressalta a psicóloga.
O fato é que muitas doenças típicas do envelhecimento, como as infecções respiratórias e o comprometimento neurológico, também são comuns em pacientes com HIV, condoença fundindo o profissional de saúde e dificultando o diagnóstico. “É importante oferecermos um atendimento diferenciado para esta população, com uma maior interação com a geriatria e a clínica geral e exames mais freqüentes, uma vez que as infecções nessa faixa etária tendem a se desenvolver com maior velocidade”, sugere Valéria Ribeiro Gomes, infectologista do Hospital da UFRJ e do Hospital Pedro Ernesto, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ)


Preconceito prejudica o tratamento

Outro reflexo da infecção pelo HIV que é potencializado em pessoas com mais de 60 anos é o preconceito. “Os sentimentos de culpa e vergonha surgem com mais intensidade nessas pessoas, uma vez que são percebidas como ‘assexuadas’ pela população e pelos profissionais de saúde. Muitos optam por esconder acondoença até das pessoas mais próximas. A relação médico-paciente, bem como o suporte da equipe que o atende, são fundamentais ao sucesso do tratamento”, explica a psicóloga Marlene Zornitta. “Temos que tentar trazer a família para perto, desde que o paciente concorde”, completa a infectologista Valéria Ribeiro Gomes.

Estímulo ao uso do preservativo
Dados de uma pesquisa de 2005 revelam que apenas 37,5% das pessoas acima de 50 anos usam preservativos com parceiros eventuais. “Precisamos estimular mais o uso de preservativos nesta população, que está cada vez mais sexualmente ativa. O acesso às informações específicas para pessoas mais velhas vai tornar as escolhas possíveis (usar o preservativo, se cuidar ou correr o risco). O não acesso às informações representa uma privação de liberdade substantiva”, afirma Marlene Zornitta. “Sabemos que as pessoas que hoje estão na terceira idade iniciaram sua vida sexual num contexto em que não existia a aids e, por isso, não se reconhecem como um grupo vulnerável ao HIV. Estimular o uso de preservativos é a única forma de minimizarmos o impacto da aids nesta população”, conclui Mariângela Simão, do PNDST/Aids

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