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Saber Viver » Saber Viver n.31

03/2005

AIDS NÃO ESTÁ RESOLVIDA NO BRASIL

 

O mundo acredita que o Brasil resolveu o problema da aids com a distribuição gratuita dos medicamentos anti-retrovirais. Sem dúvida, depois de 1996, a doença passou a ter tratamento e o número de mortes diminuiu. Mas a recente crise de abastecimento de anti-retrovirais é mais uma prova de que o tratamento não está garantido no país. Médicos e ONGs dos municípios do Rio de Janeiro e de São Paulo – locais que somam 68 mil pessoas vivendo com HIV/aids – apontam os obstáculos, como a falta de acesso ao serviço público de saúde, que tornam o tratamento da doença um desafio para o Brasil.

Estudos internacionais indicam que as causas de morte e internações mais freqüentes entre soropositivos ocorrem quando a pessoa descobre o HIV muito tarde, quando o tratamento não dá mais certo e quando efeitos colaterais dos anti-retrovirais são muito fortes. Porém, o infectologista Estevão Portela aposta que a maioria das pessoas no Brasil descobre que está infectada pelo HIV quando está doente porque não consegue acesso ao serviço de saúde: “Temos que assumir que há uma dificuldade de acesso ao serviço de saúde, totalmente sobrecarregado no Brasil. Com isso, há uma tendência das pessoas só procurarem ajuda quando já estão muito doentes. Muitos morrem sem saber se são soropositivos”.

Descobrindo a aids tarde demais

William Amaral, do Grupo Pela Vidda RJ, calcula que no Rio de Janeiro uma pessoa pode esperar um ano e meio entre descobrir o HIV e começar a se tratar contra a aids: “No Rio, o resultado do exame de aids pode demorar até 6 meses. Dando positivo, a pessoa precisa arranjar um local que tenha vaga para atendê-la, porque a maioria não está aceitando novos pacientes. Depois, tem que aguardar os exames de CD4 e carga viral, que não estão disponíveis em todos os serviços. Toda essa espera pode levar muita gente à morte”.

A clínica geral Rosimeire Bernardes da Cunha Silva realizou um levantamento do perfil dos internados por aids no Hospital da Piedade, zona norte do Rio de Janeiro, no período de janeiro a outubro de 2004. Todos descobriram o HIV quando já estavam doentes e haviam procurado atendimento nos postos de saúde, sem sucesso. “Geralmente essas pessoas vão às emergências dos hospitais, recebem uma medicação e voltam para casa. Dias depois, retornam em estado grave”, relata Rosimeire.

Sem CD4 há dois anos

O infectologista Gustavo Magalhães atende cerca de 800 pessoas no centro de saúde Lincoln de Freitas, na zona oeste carioca. Desses, 300 nunca conseguiram fazer exame de CD4 e carga viral e 200 não realizam a testagem há dois anos. “A cota de exames para a nossa unidade é bem menor do que a demanda. Em janeiro e fevereiro, conseguimos realizar apenas 20 exames”, conta o médico. Liliam de Mello Lauria, gerente do Programa de DST/Aids do município do Rio de Janeiro, reconhece que o maior problema do Rio de Janeiro é o diagnóstico tardio. “O fornecimento de kits para exames é muito precário no município. Assim, essas pessoas caem nas emergências dos hospitais e muitas acabam morrendo. Sobre as internações, estamos montando uma central de regulamentação de leitos. Os exames de carga viral e CD4 estão em falta nos locais onde há muita demanda”. Quanto à falta de vagas para atendimento de primeira vez,Liliam assegura que há ambulatórios com vagas na cidade, porém, por serem de difícil acesso, são menos procurados pela população. Pedro Chequer, coordenador do Programa Nacional de DST/Aids, diz que houve um aumento pela procura de tratamento e a rede pública não se expandiu proporcionalmente. Porém, para ele, o problema do Rio de Janeiro é político: “Estado e município precisam se unir para fortalecer o Sistema Único de Saúde; caso contrário, quem perde é a população”, avalia Pedro, que participou de duas reuniões em 2004 para analisar o problema do atendimento a soropositivos na cidade.

“Quando voltei ao hospital, todas as portas, que antes estavam fechadas, se abriram para mim. Parecia um milagre” Neuci

ONGs furam bloqueio e conseguem vagas

A interferência do grupo Pela Vidda/RJ salvou a vida de Neuci Paula de Mello, 47 anos. Depois de ser recusada pelo posto de saúde da Penha, bairro próximo onde mora no subúrbio da cidade, e pelos hospitais Universitários Grafrée e Guinle e Pedro Ernesto, ela pediu ajuda ao serviço Disque Aids Pela Vidda. A ONG localizou umamédica que atendeu Neuci no hospital Pedro Ernesto, um dos locais que a recusaram anteriormente. “Quando voltei ao hospital, todas as portas, que antes estavam fechadas, se abriram para mim. Parecia um milagre”, conta. “Essa rede informal que garante o acesso das pessoas aos serviços deve acabar. O povo tem que ter consciência que a saúde é um direito e lutar por ela”, revolta-se Juan, coordenador da ABIA. William Amaral, do Pela Vidda, concorda com Juan: “A aids é uma epidemia que não se controla só com antiretrovirais. Os serviços têm que estar preparados para lidar com ela”, desabafa.

Faltam leitos para aids

A falta de leitos públicos para doentes de aids atinge Rio e São Paulo. “Quando precisamos de leitos, não há vagas. Os leitos são ocupados por outras doenças”, denuncia Gil Casimiro, presidente do Grupo de Incentivo à Vida (GIV/SP). “Antes da distribuição dos anti-retrovirais, o município de São Paulo tinha cerca de 800 leitos exclusivos para aids. Hoje, são apenas 560, apesar da demanda ser bem maior”, revela a gerente da Área de Assistência Integral à Saúde do Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo, Estela MarisBueno. Ela afirma que são necessários mais 120 leitos para atender à demanda do município. “Quando tenho que internar um paciente, é um desespero. Não há leitos no Rio. Ele bate na porta de um hospital e volta”, desespera-se Estevão Portela. Rosimeire Bernardes conta que os leitos de aids permanecem ocupados nos três hospitais onde trabalha no Rio, mesmo depois dos anti-retrovirais. “Antes dos medicamentos, a mortalidade era muito alta por falta de opção de tratamento. Agora, as pessoas são internadas, e algumas chegam a morrer, por falta de estrutura do serviço público”.

O drama do CTA no Rio

A demora no resultado dos exames nos Centros de Testagem Anônima (CTA) no Rio de Janeiro muitas vezes gera situações dramáticas. Juan Carlos Raxach, assessor de projetos da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), recebeu a denúncia de um rapaz que foi ao CTA para fazer o teste com todos os sintomas clínicos da aids e depois de 5 meses o seu resultado ainda não havia chegado. “Entrei em contato com uma médica que tratou as doenças oportunistas, senão ele teria morrido. Eu o aconselhei a fazer o exame na rede privada para ter logo a confirmação e começar o tratamento. Mas quem não pode pagar?” indaga Juan, reconhecendo, inclusive, que este rapaz só conseguiu facilmente acesso a um serviço para iniciar o tratamento por influência da Abia.

João se assustou ao receber apenas 10 comprimidos de Biovir e não os 40 regulares, em São Paulo. Ele está usando sua última opção de tratamento contra a aids.

Falta de medicamentos – A maior crise de abastecimento do país

 A crise de abastecimento envolvendo o biovir, indinavir e atazanavir, gerou insegurança e estresse em pacientes, que foram pegos de surpresa. João Gonçalves, 42 anos, se assustou ao receber apenas 10 comprimidos de Biovir e não os 40 regulares, em São Paulo. Usando sua última opção de tratamento, se ele perder alguma dose, pode desenvolver resistência aos remédios e ficar sem alternativa de medicação. Pedro Chequer enumera alguns dos problemas que causaram a falta de antiretrovirais, que vão desde dívidas do Ministério da Saúde com os laboratórios oficiais (produtores de alguns medicamentos) até a falta de matéria prima para a produção dos remédios. “Os laboratórios oficiais, produtores do biovir e indinavir, não entregaram a remessa de janeiro. Além disso, o Ministério da Saúde atrasou o pagamento desses laboratórios e faltou matéria prima, vinda da Índia, para a fabricação dos remédios”. Pedro Chequer revela que os processos envolvendo compra de insumos estão mais lentos desde maio, após a “operação vampiro”, quando foram descobertas fraudes em processos de licitação do Ministério da Saúde. “Porém, estamos tomando medidas enérgicas para evitar o desabastecimento. Além da compra emergencial de medicamentos da Argentina e da Índia, vamos reforçar o estoque para enfrentar imprevistos. Temos um compromisso com a população que vai além da questão burocrática”, garante Pedro.

ONDE ESTÁ O PROBLEMA?

Faltam compromisso, responsabilidade e respeito com a população. É assim que Gil Casimiro, do GIV, avalia a situação da saúde no país. Para ele, o problema ocorre nas três esferas do Governo – municipal, estadual e federal. “A nossa participação nos conselhos de saúde é muito limitada. A população precisa compreender que a crise é séria e se aliar às ONGs para ajudar a mudar esta realidade”. Juan Carlos Raxach, da Abia, também acha que as pessoas estão reclamando pouco. “Tudo que foi conquistado no Brasil deve-se à luta dos soropositivos no início dos anos 90. Hoje, faltam medicamentos e o atendimento no serviço de saúde é muito ruim. Temos que achar os responsáveis por isso”.

O assessor da Abia pretende reunir ONGs e profissionais de saúde para traçar um plano de ação cujo foco é o atendimento na área da saúde. “A chegada dos anti-retrovirais trouxe novos desafios e demandas para o Brasil. Um deles é a melhoria do atendimento”, desabafa Juan.

Pedro Chequer esclarece que não houve falhas no planejamento do Programa para a compra de anti-retrovirias: “Entregamos, no dia 10 de setembro, o relatório de compra de medicamentos para 2005 à Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos. Mas este planejamento só entra em vigor a partir de abril. A crise que enfrentamos está relacionada ao ano de 2004”.

Porém, para o coordenador, esta crise expôs desafios para o país. “Precisamos produzir a matéria prima para a fabricação desses remédios. Não podemos depender de outros países. No mundo, houve um aumento pela procura dessas drogas, mas não se ampliou a produção da matéria prima para produzi-las”.

 

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