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Saber Viver » Saber Viver n.31

03/2005

Amizade faz bem à saúde

Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), o conceito de saúde

vai além do tratamento de doenças. Ter uma boa amizade, por exemplo, baseada no respeito mútuo e na solidariedade, faz muito bem à saúde. Isso porque as relações sociais ajudam a superar as

dificuldades da vida. Apostando nisso, várias pessoas soropositivas criaram e freqüentam espaços em busca do apoio que precisam para superar medos, equilibrar a cabeça, vencer a doença, rir e, lógico, fazer novos amigos.

No dia em que chegou a um grupo de pessoas vivendo com HIV/aids, Luis Antônio, na época com 29 anos, percebeu que estava diante da sua nova família. “O soropositivo é um trapezista que precisa de muito equilíbrio para não cair. O grupo funciona como se fosse a rede de segurança, amortecendo a queda e evitando que o artista se machuque. Foram essas palavras que eu ouvi no primeiro encontro com o meu grupo”, conta Luis, hoje com 40 anos.

 

Uma penca de amigas

Com o tempo, a idéia dos grupos foi se multiplicando e, hoje, é possível encontrálos em hospitais públicos e postos de saúde, sempre prontos para receber, amortecer e devolver a vida aos soropositivos que escorregam do trapézio.

“Quando pegamos o resultado do diagnóstico, é importante saber que o HIV não é o fim, mas o começo de uma nova vida. E que não estamos sozinhos nessa”, conta emocionada Carla Costa, de 46 anos, que tem três filhos, três netos e “uma penca de amigas”. Embora seja moradora do Méier, zona norte do Rio de Janeiro, Carla se trata no Hospital de Ipanema, na zona sul, desde 2001, onde conheceu o Gatahi – Grupo de

Apoio ao Tratamento da Aids do Hospital de Ipanema. “Eu e minhas amigas vamos à praia, viajamos, saímos para comer na churrascaria

e, é claro, para paquerar”, conta, envergonhada, a dona de casa que já passou um mês internada no hospital, sempre recebendo a visita dos colegas do grupo.

“Minha médica disse que estou ótima. Minha carga viral zerou e meu CD4 subiu bastante nesses últimos anos”. Eliane Domingos freqüenta o Gatahi junto com o marido, André Luiz, com quem é casada há 11 anos. “Sou uma mulher feliz. Mas quando entro em crise, ele me traz ao

grupo”, conta, mostrando o maridão soronegativo.

“O Gatahi nos dá ajuda psicológica, faz troca de remédios, agiliza exames de carga viral e de CD4, facilita internação. Não sei o que seria de nós sem ele”, diz André.

 

Ter com quem conversar

No Instituto de Infectologia Emílio Ribas em São Paulo, um dos maiores centros de referência para o tratamento da aids do país, Silvia* participa de um grupo onde já fez amigos muito especiais. “Sentia-me

sozinha porque em casa não posso conversar com a minha família. Agora, quando estou insegura ou preocupada, ligo para os amigos, que me escutam e me acompanham nas consultas”. Fernando Oliveira, um dos amigos de Sílvia, embora seja soronegativo, freqüenta o grupo como voluntário há 11 anos.

“Falamos sobre a doença, mas também falamos sobre outros assuntos. A vida de um soropositivo não deve se resumir a assuntos ligados apenas à aids”, diz ele.

 

Os jantares de Charlote

Reconhecendo a importância de um grupo de amigos, Charlote promove em sua casa, no Rio de Janeiro, há 15 anos, jantares para pessoas soropositivas. Aos 80 anos de idade, a jovem Charlote exibe tanta energia que não há quem saia dali cabisbaixo ou triste. “Esse grupo é a família que eu não tive”, conta Valdir*, 60 anos. “Me sentia uma ET. Passei 12 anos sem conseguir transar novamente, até que conheci uma

amiga, aqui na casa da Charlote, que me apresentou um cara e quebrei esse jejum sexual. Já não estou mais com ele, mas perdi o medo de ir pra cama com outro homem”, conta Leila*.

 

Amizades muito positivas

Outro grupo informal é o Amigos Positivos, que se reúne semanalmente no consultório de uma psicóloga em Copacabana. “Todos servem de continente um para o outro. Quando um expõe seus problemas, o outro se identifica, e assim nos sentimos melhor”, conta Tânia Torres, psicóloga e facilitadora. “Além do mais, procuramos ampliar o conhecimento, levando informação para que cada um possa lutar pelos seus direitos, tomar a sua vida nas próprias mãos e crescer, vencendo”.

 

* Nomes fictícios

 

Colaborou na reportagem: Tatiana Vieira, de São Paulo

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