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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.13

07/2008

Ampliando as fronteiras da saúde

Desde a década de 80, quando o Brasil conheceu o Sistema Único de Saúde (SUS), até hoje, os profissionais da área sabem que para promover saúde é preciso mais do que investir em prevenção e tratamento. Na teoria funciona bem, mas na prática nem sempre é assim. Para reverter esse quadro, o Ministério da Saúde tem investido em discussões mais aprofundadas sobre o tema e buscado parcerias intersetoriais. Prova disso são dois grandes eventos promovidos pelo Programa Nacional de DST/Aids, no primeiro semestre de 2008: o VII Congresso Brasileiro de Prevenção das DST e Aids e o II Seminário Nacional de Direitos Humanos e HIV/aids.

Congresso de Prevenção das DST/Aids reúne 4 mil em Florianópolis
Maior evento brasileiro da saúde pública em aids, o Congresso de Prevenção é destaque não só pelo grande público (este ano foram quatro mil participantes, entre gestores, profissionais de saúde, estudantes e ativistas) e diversidade das atividades, mas também pela riqueza dos assuntos debatidos. O local escolhido para esta edição, realizada entre 25 e 28 de junho, foi Florianópolis (SC), primeira cidade da região Sul a sediar o encontro. A partir do tema “Município- Mundo”, três eixos temáticos orientaram a programação do VII Congresso: “O município como território das práticas de saúde”, “Cenário global, respostas locais” e “Práticas de prevenção: refletir, agir, inovar”.

Na abertura do Congresso, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, esclareceu como esses temas estão relacionados: “Com a descentralização progressiva do SUS e o conseqüente aumento da responsabilidade dos municípios frente à epidemia, a construção da resposta local adquire relevância cada vez maior, com impacto no global”. Ele associou a história do SUS e de outros movimentos importantes, como a luta anti-manicomial, com o despertar da luta contra a aids no Brasil. Em comum, eles tiveram a necessidade de enfrentar tabus, ignorâncias e dogmas religiosos para avançar, mostrando que a saúde pública é baseada na ciência.

Outro aspecto importante levantado pelo ministro é a humanização do atendimento, principalmente na atenção básica. “Na saúde”, disse Temporão, “quanto mais tecnologia usamos, mais precisamos de profissionais preparados para oferecer bom atendimento”. Saber ouvir, saber tocar e compreender o paciente foram características apontadas
por ele como fundamentais para os profissionais de saúde.

Integração e diversidade: palavras de ordem
Integrar as agendas inter e intrasetoriais e adaptar ações às realidade locais foram as palavras de ordem do Congresso. “Num cenário em que os desafios se renovam a cada dia, a resposta brasileira precisa também inovar. A inter-setorialidade segue como nosso principal instrumento para o fortalecimento da resposta em rede que procuramos construir”, disse a diretora do Programa Nacional de DST/Aids, Mariângela Simão, na abertura do Congresso. Ela destacou o caráter inclusivo do evento que, pela primeira vez, discutiu a questão da aids entre pessoas com deficiência num pré-congresso e em outras atividades.

Outros sub-temas mereceram destaque no Congresso, como prevenção positiva, propriedade intelectual, direitos sexuais e reprodutivos, vulnerabilidades, drogas, pesquisa e desenvolvimento, outras DSTs e outras co-infecções. Essa abrangência surpreendeu o diretor do Programa Nacional de Tuberculose, o médico Dráurio Barreira. Em sua opinião, o Congresso de Prevenção tem sido um excelente fórum de integração das agendas e de visibilidade da tuberculose, hepatites e DSTs. “Nas duas últimas edições, houve um avanço, um ganho na qualidade e na inclusão de outros setores nos debates”, reconhece.

O diretor espera que essa articulação seja cada vez maior, sobretudo porque a tuberculose é a doença que mais mata os portadores do HIV. Embora o tratamento das duas doenças esteja disponível na rede pública, o SUS enfrenta o desafio de ampliar o diagnóstico e melhorar a adesão. “O agravante é que a tuberculose atinge principalmente os menos favorecidos e essas pessoas nem sempre conseguem acessar os serviços”, diz o médico. Para promover o enfrentamento dessas doenças, foi anunciado no Congresso um incremento de US$ 15 bilhões do Fundo Global de Combate à Aids, Tuberculose e Malária para países em desenvolvimento, no período de 2008 a 2010. Atualmente, a América Latina recebe 10% dos recursos do Fundo.

Saúde, educação, trabalho e direitos caminham juntos
Pelo que se viu durante o Congresso, a integração não tem sido estimulada apenas dentro da área da saúde. Representantes de outros ministérios e secretarias – como Educação, Previdência e Trabalho – também estiveram por lá. A discussão sobre direitos previdenciários, anteriormente debatida no II Seminário Nacional de Direitos Humanos (ver pág 13), voltou à tona, num esforço de unir diferentes áreas de atuação em prol das pessoas que vivem com HIV/aids.

Na III Mostra Saúde e Prevenção nas Escolas, uma das atividades pré- Congresso, educação e saúde também se encontraram. O objetivo era criar,junto com os jovens participantes, projetos inovadores nas áreas de assistência e prevenção das DST/aids. Ainda como atividade pré-congresso, houve a II Mostra Brasil Afroatitude.

Devido ao caráter intersetorial do evento, este ano os organizadores buscaram promover uma maior interatividade entre os participantes, que se dividiram entre muitas apresentações, palestras, oficinas, mesas-redondas, bate-papos, reuniões, fóruns, premiações, cursos e atividades culturais.

Usuários reclamam de baixa qualidade na assistência
Do ponto de vista do usuário, queixas quanto à falta de cuidado e ética de profissionais de saúde foram as mais freqüentes. Rosaria Piriz, que vive com HIV e promove a prevenção em bairros da periferia de Salvador (BA), conta que o temor de ter seu diagnóstico revelado para outras pessoas da cidade faz com que soropositivos deixem de procurar os serviços. “Algumas pessoas têm medo de que os profissionais de saúde não mantenham seu diagnóstico em sigilo” diz ela. “Não precisamos de pena, mas queremos um atendimento humanizado, que nos faça sentir mais perto dos agentes de saúde”. Moradores de favela e de outras comunidades menos assistidas também reclamaram da ausência do estado e do atendimento precário, o que os torna mais vulneráveis ao HIV.

A jovem Juliana Manzi, 19 anos, membro da Rede Nacional de Jovens Vivendo com HIV, já sentiu na pele o peso da falta de preparo dos profissionais de saúde. Em sua primeira gravidez, há cinco anos, ela conta que não conseguiu receber o resultado do teste do HIV antes do nascimento do filho, por conta do atraso ocorrido no serviço de saúde, em Maceió (AL). Para evitar problemas como esse e reduzir a transmissão vertical do HIV, o governo tem investido no teste rápido no prénatal e no parto. O tema foi palco de discussões acaloradas no Congresso. O interesse foi tanto que faltou espaço dentro das salas, deixando muitos congressistas na fila de espera.

Acolhimento integral é um grande desafio para as equipes de saúde
Outro assunto que despertou o interesse dos profissionais da área foi a chamada “busca consentida” de pacientes que falham na adesão ao tratamento anti-retroviral. Uma pesquisa desenvolvida pela equipe da assistente social Wania Carvalho, da Universidade de Brasília, criou uma metodologia que auxilia os profissionais de saúde a encontrar o paciente que deixou de freqüentar o serviço, sem gerar constrangimentos, e convidá-lo a retomar o tratamento. “Se for mal feita, a busca pode comprometer o vínculo do paciente com o serviço e sua adesão ao tratamento”, justifica. A pesquisa foi feita em 2007, mesmo ano em que o Ministério da Saúde aprovou uma portaria autorizando a busca consentida. Na opinião de Wania, “a portaria dá a regra, mas não diz como fazer o contato pautado em valores éticos e alicerçado na compreensão do outro”.
Para o estudo, a farmácia do Hospital Universitário de Brasília (HUB) encaminhou à equipe de pesquisadores os boletins mensais de 156 pacientes, com destaque para os que não foram receber medicação nos últimos dois meses. O primeiro passo foi analisar seus prontuários, conhecer o histórico de cada paciente e detectar possíveis problemas. Depois, era tentado um contato telefônico e, se autorizada, a equipe ia até a casa do paciente, sem carro ou uniforme identificando a instituição.

Wania Carvalho ressalta a importância de haver na equipe um profissional com perfil para essa ação, que possa entender o paciente e ajudá-lo. “Percebemos que os efeitos colaterais não são o maior motivo para o abandono do tratamento, e sim problemas emocionais, psicológicos e sociais”, conta. “Buscar é acolher, é ouvir os problemas dos pacientes e até de seus familiares”, explica a pesquisadora, lembrando que o serviço precisa se preparar para dar encaminhamentos às dificuldades do paciente, oferecer atendimento psicológico e saber lidar com situações de uso e abuso de álcool e outras drogas.

O exemplo de Campinas
Campinas mostrou que a longa experiência no combate à epidemia e a parceria articulada entre governo e sociedade civil podem fazer diferença. O bem sucedido trabalho de acolhimento desenvolvido no Centro de Referência e Tratamento de Campinas, apresentado pela enfermeira Márcia Santos, é um exemplo disso.

Pedidos de exames e casos de menor complexidade ou mais urgentes podem ser resolvidos ou encaminhados pela equipe de enfermagem logo no primeiro dia em que o paciente chega ao Centro, quando são feitas a triagem e a avaliação de risco. “É por meio do primeiro atendimento que começa o vínculo com o serviço. Os pacientes se sentem bem recebidos, tiram suas dúvidas, e não precisam esperar, angustiados, por algo que nós, enfermeiros, podemos ajudar a resolver”, conta Márcia.

A fórmula deu certo. Conhecendo bem os pacientes, os enfermeiros podem encaminhá-los para um profissional mais adequado a seu perfil e necessidade. “Cada pessoa tem sua especificidade. Nas consultas, eu vejo se o paciente está muito abalado ou precisa de determinado tipo de intervenção, e assim posso direcioná-lo para o profissional de saúde mais adequado”, diz Márcia, mostrando a credibilidade que a equipe ganhou.

Prêmio é lançado durante o Congresso
Iniciativas como a de Campinas podem servir de estímulo para que coordenações municipais se inscrevam no Prêmio Município-Mundo, lançado no Congresso. A idéia é criar um selo que reconheça municípios que atendem a boas práticas de prevenção, numa forma de certificar e valorizar trabalhos de excelência. O edital deve sair em agosto de 2008 e a previsão é que 10 municípios sejam premiados no próximo Congresso. A data e o local já estão marcados: o VIII Congresso Brasileiro de Prevenção das DST e Aids será em Brasília (DF), em novembro de 2010. Prepare-se!

SAÚDE, DIVERSÃO E ARTE

Arte como ferramenta para inovar e fazer prevenção. Essa foi a proposta da programação cultural do VII Congresso de Prevenção. As atividades culturais complementaram a programação e associaram Diversão no Labirinto das Sensações expressões artísticas à prevenção e à assistência, com mostras de cinema, teatro, fotografia, música e literatura, dentre outras manifestações.
A presença cultural foi sentida desde a abertura do Congresso, com a peça teatral “A Dhiversidade em Cena”, do grupo paulista “Good Morning, São Paulo”, composto por hetero e homossexuais, travestis, prostitutas, pessoas com deficiência visual e cadeirantes, soropositivos ou não.
Em homenagem à Caio Fernando Abreu, morto em 1996, vítima da aids, a exposição Jardim das Letras apresentou um pouco da obra do escritor gaúcho. A partir de vídeos, áudios e trechos de contos, romances, crônicas e peças teatrais, o visitante conheceu e experimentou a vida desse amante de jardins, da vida e da literatura.

Outra atividade de destaque foi o Labirinto das Sensações, uma iniciativa da Cia. Paulista de Artes e do Programa Municipal de DST/Aids de Jundiaí (SP). A intervenção artística convidava o espectador a experimentar sensações com a ajuda de performances de atores, estimulando a reflexão sobre as DST/aids e o uso do preservativo.

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