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Saber Viver » Saber Viver n.38

12/2006

As mulheres e a aids

Eu vivo com HIV. Não tive nenhuma intenção de me expor a essa infecção: não fui violentada fisicamente; conhecia as formas de transmissão e como evitar o HIV; tinha autonomia financeira, intelectual e social; uma boa relação com familiares e amigos. Mesmo assim, não consegui exigir o uso do preservativo numa relação amorosa, baseada na confiança, na reciprocidade e na realização de projetos futuros.
Não pretendo ficar exposta às doenças oportunistas, ou seja, ter aids. Mas hoje, depois de 10 anos de convivência com o HIV, sei que isso não depende apenas das tomadas corretas do coquetel e da manutenção de uma boa qualidade de vida. Precisamos entender também a aids como uma epidemia social. Assim, penso nas mulheres trabalhadoras rurais e sem teto, que partilham o medo da fome, do frio, das doenças com seus filhos; penso nas jovens adolescentes que, apesar de todos os esforços, continuam sendo exploradas sexualmente, algumas vezes pelos próprios familiares ou namorados; enfim, penso nas muitas mulheres pelo Brasil, nas filas dos hospitais públicos ainda chegando para morrer de aids, ou mais especificamente, de suas causas e interfaces sociais. O quanto isso tem a ver com a nossa sociedade machista que confere aos homens o exercício da coerção pela força, da infidelidade, do “direito de posse” do corpo de outra pessoa? Enquanto isso, o lugar da mulher é de abnegação e sujeição,
sendo estimuladas a serem frágeis, puras e submissas, reconhecidas nessa sociedade apenas como mãe e esposa. Quase a totalidade de nós, apesar de cientes dos riscos a que estamos expostas, não tem condições emocionais, nem apoio social para assumir a proteção dos próprios corpos.
Enfim, acredito que de nada adianta continuarem “receitando” o uso da camisinha enquanto não começarmos a mudar nossas vidas e nossa sociedade. Nós, mulheres, tornamo-nos – muito rapidamente – a metade da população infectada do planeta. Logo, precisamos de medidas imediatas que nos ajudem a conquistar a nossa autonomia individual e coletiva. Dói ser mulher num mundo que valoriza uma aparência feminina “apetitosa” e “comportada”. Mas essa regra pode ser mudada.
Depende da decisão e do esforço de todas e todos nós.

Regina Lasmar é da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids
da Bahia e pertence ao Movimento das Cidadãs Poshitivas.
Salvador (BA) – por e-mail.

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