Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids

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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Edições Especiais » Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids » Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids n.01

01/2004

Assistência integral à gestante HIV+. O atendimento em sala de espera

Equipe da Sala de Espera do Instituto de Puericultura (IPPMG) da UFRJ:
Iraína Fernandes de Abreu Farias (enfermeira)
Maria de Fatima Lago Garcia (psicóloga)
Regina Tirre Carnevale Mercadante (enfermeira)
Verônica Medeiros da Costa (nutricionista)
Virginia Helane de Almeida Ximenes (assistente social)

O atendimento à gestante com HIV+ iniciou-se em 1996 no Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira (IPPMG), uma unidade da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que passou a ser uma das referências para o Programa de Assistência Integral à Gestante HIV+ no Estado do Rio de Janeiro. No programa atuam dois infectologistas, um obstetra, duas enfermeiras, uma assistente social, uma nutricionista e uma psicóloga. À exceção dos médicos, os demais profissionais realizam também o atendimento de sala de espera.

Em relação à estratégia proposta como sala de espera, é importante destacar que a mesma ocorre em um espaço físico restrito no Setor Materno Infantil, onde as gestantes aguardam o atendimento.

Os encontros têm como objetivo trabalhar as informações e vivências, pois consideramos que, a partir dos sentimentos mais clarificados, há possibilidade de melhor absorção das informações e conseqüentemente uma perspectiva de adesão ao acompanhamento, visando evitar a transmissão vertical.

No tocante à adolescência, cabe ressaltar que esta é uma fase de mudanças e descobertas. Na busca de sua identidade individual e grupal, os adolescentes vivenciam cada vez mais cedo novos valores comportamentais relacionados à afetividade e vida sexual que, associados à pouca valorização para percepção de risco e o limitado acesso efetivo às informações sobre sexualidade, DSTs, aids e drogas, acabam tornando-os mais vulneráveis.

O despreparo dos serviços de pré-natal em oportunizar um atendimento específico à gestante adolescente, por diferentes justificativas, acaba retardando o início do acompanhamento e conseqüentemente observa-se demora na realização dos exames, dentre eles a testagem para o HIV. Como unidade de referência, recebemos em média seis adolescentes por mês na faixa de 14 a 18 anos para a confirmação de diagnóstico de HIV. Não raro, no segundo ou terceiro trimestre de uma gestação não planejada, não desejada ou rejeitada pela família, isso quando há referência desta e com agravante de não terem recebido adequado aconselhamento pré e pós-teste HIV, como recomendado pelo Ministério da Saúde.

Diante da confirmação do diagnóstico, é oferecido à gestante o espaço do grupo como parte do seu acompanhamento. Em nossos encontros, observamos várias situações conflituosas a partir de colocações feitas pelas adolescentes ou por seus responsáveis, que estão relacionadas à: descoberta e aceitação do diagnóstico; revelação do resultado ao companheiro e/ou familiares; início do tratamento; uso do preservativo; sigilo; preconceito; direitos e benefícios sociais; mudança dos hábitos alimentares; lazer, drogas lícitas e ilícitas; os horários da medicação; a impossibilidade de amamentar; cuidados no pós-parto com o corpo; adesão ao acompanhamento do recém nato; fortalecimento da cidadania e perspectiva de futuro.

Constatamos, ao longo desses anos, a necessidade de atendermos as adolescentes de forma diferenciada, considerando as particularidades da fase vivenciada. Sendo assim, destacamos a importância em priorizar cada vez mais o aconselhamento pré e pós-teste HIV como marco inicial na trajetória do diagnóstico e manutenção do acompanhamento em relação à condição de ser adolescente, estar grávida e com diagnóstico de HIV, como garantia da qualidade de vida atual e futura. Porém, tal não ocorre conforme preconizado.

Cabe ressaltar a importância da construção em equipe, de uma abordagem específica, levando em conta, entre outros, os seguintes aspectos:

 Assegurar a abordagem multiprofissional;
 Acolher desde o atendimento inicial;
 Estimular o comparecimento de um responsável no atendimento;
 Considerar as informações prévias quanto à infecção do HIV/aids, métodos contraceptivos, uso do preservativo etc;
 Esclarecer dúvidas mencionadas e veladas;
 Sensibilizar o responsável para o acompanhamento à adolescente na gestação e pós-parto;
 Estimular o resgate do vínculo familiar;
 Garantir sigilo;
 Orientar quanto aos cuidados necessários ao recém-nato;
 Incentivar a continuidade do acompanhamento da adolescente e da criança;
 Interagir com as coordenações de áreas visando assegurar os fluxos de encaminhamentos precoces;
 Estimular a inclusão em programas específicos à adolescência.

Devemos destacar que as reações e sentimentos, mesmo estando a adolescente “assistida”, poderão estar fragmentados e suscetíveis às interferências alheias, e suas expressões podem nos levar à reflexão…

O profissional me tratou como uma tábua ao me falar do resultado do exame de HIV

Estou me sentindo um ET

Meu pai disse que estou bichada

Estou preocupada com o que eu vou falar quando me perguntarem por que não estou dando o peito

Eu não sabia que estava fazendo esse exame

Você tem aids. Procure este hospital, aqui está o endereço

Pensei que ia morrer no dia seguinte

Aqui é o único lugar que posso conversar, só tenho vocês pra falar sobre isso…

Acreditamos que o trabalho em equipe que valoriza as atividades em grupo nas discussões sobre a infecção pelo o HIV junto às adolescentes proporciona novas reflexões sobre a prevenção, para uma qualidade de vida melhor. O grupo de sala de espera revela-se um espaço promissor como estratégia educativa e terapêutica, pois possibilita o trabalho em equipe e a caminhada para a atuação interdisciplinar.

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