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Saber Viver » Saber Viver n.01

11/1999

Assumir que é soropositivo é uma boa?

Esta é uma das perguntas que sempre surge quando pegamos o teste anti-HIV e descobrimos que deu positivo. Qual será o melhor caminho?

José, 45 anos, optou pelo isolamento total. Trabalhava numa empresa de vigilância. Hoje está afastado. Vive com seu cachorro, numa casa na Zona Norte do Rio de Janeiro, totalmente sozinho. “Não tenho amigos”, afirma ele. Sua companheira faleceu em 1995. Por opção, ela nunca tomou nenhum remédio contra a Aids. Os quatro filhos do casal vivem com a sogra de José. “Todos os vizinhos sabem que eu sou soropositivo por causa da morte da minha mulher. Ela freqüentava uma igreja no bairro. Eu prefiro ficar isolado na minha casa do que ter de ouvir piadinha”. A família de José o trata normalmente, mas nunca conversa sobre Aids. O hospital Pedro Ernesto é o único lugar onde ele diz manter algum relacionamento. “Às vezes vou pra lá pra conversar com as pessoas”. José sente falta de uma companheira. Mas diz que tem medo da pessoa se afastar quando souber que ele é soropositivo.

Felipe, 37 anos, escolheu um caminho diferente de José. Professor de Educação Física, ele dá aula normalmente em duas academias de ginástica e mantém um grande grupo de amigos. Até agora, não contou a ninguém que é soropositivo e não sente necessidade de contar. Apenas um amigo, que vive em Brasília e que também é soropositivo, sabe. Felipe fez o teste há dois anos. “Na verdade, antes eu já desconfiava que estava com Aids. Só em 1997, após duas pneumonias, tive coragem de fazer o exame”.

Com a família, estabeleceu o pacto do silêncio. Ou seja, mesmo sem ter comunicado o fato, ele acredita que a mãe e a irmã sabem. “Eu não falo nada para poupá-las. Elas não têm a minha força.”

O medo do preconceito
Hoje Felipe não sabe se assumir que tem o HIV para todas as pessoas é a melhor opção. “Acho que eu não agüentaria uma reação de preconceito”. Na dúvida, ele permanece com este segredo. Por outro lado, o professor de Educação Física é capaz de enumerar vários fatores positivos que conseguiu tirar da doença: “A vida passou a ter uma meta pra mim. Vivo muito melhor o presente. Tenho acordado com muita disposição de dois anos pra cá. A Aids mudou a minha forma de encarar a vida. As coisas pequenas não me aborrecem mais”.

Para Cazu Barroz, 26 anos, a Aids também trouxe muitas transformações. Ele se sentiu obrigado a assumir publicamente a doença depois de ter sido vítima de discriminação na empresa em que trabalhava. Ator e escritor, hoje Cazu é militante de uma ONG do Rio de Janeiro. Em qualquer manifestação de rua, matéria de jornal ou de TV, lá está Cazu dando seu depoimento e falando de sua vida. “As pessoas me param para dizer que não sabiam que quem tem Aids é assim, normal. Quando isto acontece, me sinto vitorioso”. Ele reconhece, no entanto, que esta opção é pessoal. “Acho que o melhor caminho é a pessoa assumir pra si que é soropositiva. Assumir publicamente, na sociedade em que vivemos, ainda é muito complicado”. Entretanto, o militante afirma que o isolamento não é a melhor forma de se proteger. “É fundamental ter um amigo com o qual se possa conversar. É muito importante dividir os problemas com as outras pessoas”.

O psicólogo Alexandre do Valle, coordenador do Banco de Horas (uma instituição que cadastra psicólogos que atendem pessoas soropositivas), concorda com as opiniões de Cazu. Ele afirma que assumir publicamente é uma opção individual. “Eu nunca diria a uma pessoa que ela tem de assumir publicamente que tem Aids. Infelizmente, a sociedade ainda não está preparada para conviver com esta notícia e isto poderia trazer alguns trans-tornos à pessoa”.

Por outro lado, romper com o isolamento, dividindo com algum amigo suas angústias e seus problemas é fundamental para a saúde. Alexandre explica que o isolamento pode causar até depressão. “Procure uma pessoa, um amigo, alguém em que possa confiar. Ou procure um grupo de apoio. Neste local você encontrará pessoas que passam pelos mesmos problemas que você”.

* José e Felipe são nomes fictícios.

Banco de Horas – Possui um cadastro com 200 psicólogos que atendem soropositivos gratuitamente.
Telefone: (0xx21) 274-7272.

Governo garante que não faltarão medicamentos

O Ministério da Saúde enviou, no dia 10 de setembro, um projeto de lei ao Congresso Nacional propondo um aumento de R$ 270 milhões para a compra de medicamentos que combatem a Aids e outras doenças.
Com o aumento do dólar, alguns remédios importados, como os anti-Aids, subiram muito de preço, onerando o orçamento do Ministério da Saúde. Se for aprovada pelos deputados e senadores, esta verba garantirá a compra de medicamentos e a regularização da distribuição nos postos de saúde.

Várias ONGs/Aids do Brasil realizaram manifestações em suas cidades no dia 8 de setembro com o objetivo de pressionar o governo. No Rio, os participantes se vestiram de preto e percorreram o centro da cidade. Em Porto Alegre, o protesto contou com a participação de integrantes do governo do estado.

O Ministério da Saúde garante que os pacientes que necessitam dos medicamentos poderão ficar tranqüilos. Segundo o governo, todas as providências foram tomadas para que não faltem os remédios.

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