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Saber Viver » Saber Viver n.42

03/2008

Atendimento de referência a soropositivos tem qualidade ameaçada

PAM Antonio Ribeiro Neto, no Rio, sofre com a aposentadoria de profissionais

A satisfação de quase dois mil pacientes soropositivos pode ser comprometida a partir de fevereiro. Referência no atendimento a pessoas vivendo com HIV/aids no Rio de Janeiro, a Clínica de Aids do PAM Antonio Ribeiro Neto vive um momento de interrogação: como conservar a qualidade do serviço após a aposentadoria de três profissionais de saúde? Os futuros aposentados – um psiquiatra e dois clínicos – correspondem à quase metade da equipe formal da unidade de saúde, que além do atendimento médico oferece acompanhamento psiquiátrico, assistência social, orientação nutricional e inúmeras oportunidades de lazer. A preocupação é que a redução do contingente de funcionários, que ainda não foi assegurada pela contratação de novos profissionais, prejudique o tratamento dos pacientes atendidos pela unidade.

 

Aposentadoria tranquila?
“Sempre acreditei que a aposentadoria fosse uma época tranqüila. No entanto, vivo um momento de profundo desespero, pois não há previsão de contratação de profissionais para substituir os funcionários que precisam se aposentar”, desabafa o psiquiatra Leonardo Maia, de 67 anos, há dez coordenador da Clínica de Aids do PAM Antonio Ribeiro Neto, que se aposentará em fevereiro. “A essência de nosso trabalho gira em torno do paciente. É por ele que estamos aqui. No entanto, pela primeira vez nos vemos obrigados a encerrar as inscrições para atendimento na Clínica. É angustiante”, reconhece.
Desde 1998, quando assumiu a coordenação da Clínica, Leonardo enfrenta, com uma equipe reduzida, o desafio de humanizar o atendimento e promover a melhoria de qualidade de vida dos pacientes. O primeiro passo foi a estruturação de uma equipe multidisciplinar de profissionais de saúde – desafio em uma realidade carente de recursos financeiros e humanos. Nestes dez anos, a equipe de Leonardo – composta pelo psiquiatra, cinco médicos, uma assistente social, dois auxiliares e um técnico de enfermagem – atingiu o objetivo de oferecer um serviço de saúde que atenda integralmente o paciente e não apenas enfrente o vírus. A conquista é mérito também de pedagogos, nutricionistas e professores de educação física que atuam como voluntários na Clínica.

Pacientes contribuem com serviço
A excelência do atendimento, hoje ameaçada pela carência de recursos humanos, é resultado de um árduo trabalho que transformou a unidade de saúde. Em 1995, quando o serviço estava submetido a outra chefia, a Clínica de Aids encontrava-se em estado absolutamente caótico, com problemas gravíssimos na relação entre profissionais e pacientes. A partir da organização dos pacientes, que solicitaram intervenção do Conselho de Saúde, e da entrada de Leonardo Maia na coordenação do serviço, a implantação gradativa de uma diretriz humanitária para o atendimento imprimiu um caráter diferenciado ao serviço, que se tornou referência.

Usuários também preocupados
“Nossa preocupação em relação à aposentadoria dos profissionais que ajudaram a construir esta história é dupla: primeiro, não sabemos se haverá alguém para substituílos. Além disso, não temos a certeza de que serão pessoas capacitadas e motivadas para perpetuar o perfil da Clínica”, pondera o presidente da Associação de Usuários e Amigos do PAM Antonio Ribeiro Neto (AUAPARN), Mauro da Silveira. A unidade de saúde enfrenta ainda outro desafio: a procura por infectologistas. Segundo Mauro, a dinâmica de troca de postos de trabalho repercute negativamente sobre o atendimento. “Este é um problema antigo. Quando a Clínica de Aids consegue contratar um médico infectologista via concurso público, o profissional rapidamente solicita transferência para um hospital, em geral para a Comissão de Infecção Hospitalar. Este fluxo é tão freqüente que há anos a AUAPARN solicita vagas específicas para infectologistas, com determinação em edital para que o profissional não possa se afastar do atendimento por mínimo três anos. Já solicitamos ao Programa Municipal de HIV/Aids um levantamento oficial sobre a necessidade da contratação de infectologistas, mas ainda não obtivemos resposta”, Mauro alerta. Em nota oficial concedida em 15 de janeiro à Saber Viver, a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro informa que “está atenta à questão relativa a recursos humanos e trabalhando para melhorar o quadro atual. O edital de um novo concurso será divulgado nos próximos dias”.

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