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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.07

11/2006

Bastidores do tratamento

Profissionais do Serviço de Atendimento Especializado em DST/Aids (SAE) de Campos Elíseos, São Paulo, e do Programa Municipal de
DST/Aids de Contagem, em Minas Gerais, investem em estratégias lúdicas para estimular seus pacientes


Um dos principais desafios enfrentados por aqueles que trabalham com pacientes portadores do HIV/aids é fazer com que eles percebam a importância de aderir corretamente ao tratamento ao qual estão submetidos. Para superar esse problema, profissionais de duas unidades de saúde, uma em São Paulo e outra em Minas Gerais, se valeram de muita criatividade e dedicação.

Utilizando estratégias capazes de simplificar as explicações sobre a ação do HIV e dos anti-retrovirais e demonstrar a dinâmica do tratamento como um todo, essas iniciativas buscam estimular a adesão ao tratamento, através de atividades interativas e recursos lúdicos.

O Serviço de Atendimento Especializado em DST/Aids (SAE) de Campos Elíseos, região central de São Paulo, responsável pelo atendimento médio mensal de 800 pessoas em uso de terapia anti-retroviral, vem obtendo resultados positivos na adesão ao tratamento, através do uso de sete objetos tridimensionais, confeccionados com material plástico, que auxiliam os pacientes a entender o que está acontecendo em seu organismo. “Muitos dos usuários têm pouca escolaridade e muita dificuldade de compreensão apenas com explicações verbais e mesmo através de folhetos com figuras”, explica Renata Simões, psicóloga do serviço.
Os objetos representam espacialmente o HIV e a célula CD4; o momento da fusão entre o vírus e a célula de defesa; a dominação da célula pelo material genético do vírus; a diminuição do número de CD4 e o aumento de HIV no organismo; e, por fim, a representação do efeito do uso correto dos anti-retrovirais, com o aumento de células de defesa e diminuição de carga viral.

Um outro exemplo de abordagem lúdica vem da farmácia do Programa Municipal de DST/Aids de Contagem, em Minas Gerais, que apostou na criação de uma maratona do conhecimento para diminuir a falta de informação sobre o tratamento entre seus usuários.

Lá, como em São Paulo, os profissionais também diagnosticaram que baixa escolaridade e precárias condições sócio-econômicas dificultavam uma maior adesão ao tratamento entre os 479 pacientes que recebem anti-retrovirais na unidade. A saída foi criar a maratona “Eu conheço o meu tratamento”, com o objetivo de produzir conhecimento sobre saúde e tratamento de maneira lúdica e interativa. A maratona iniciou em junho de 2006, com 50 usuários inscritos.
Desde então, o grupo se reúne mensalmente e os integrantes assistem a aulas expositivas, participam de dinâmicas, interagem em jogos e brincadeiras educativas e respondem a questionários avaliativos. Para Renata Macedo, responsável pela farmácia do Programa, a informação é fator determinante para o sucesso da adesão à terapia anti-retroviral.

RESULTADOS COMPROVAM EFICÁCIA 
A utilização de recursos lúdicos já demonstra bons resultados no SAE Campos Elíseos: números do serviço apontam que 30% dos usuários modificaram seu comportamento após serem orientados com o material educativo e passaram a aderir ao tratamento. “Grande parte dos pacientes nem sabia por qual motivo faziam coleta periódica de sangue”, conta o auxiliar de enfermagem José Fernando de Oliveira, criador dos objetos em três dimensões.

O mesmo saldo positivo foi constatado pelos profissionais que atuam em Contagem. Dados do primeiro questionário aplicado no grupo da maratona mostravam que 50% dos participantes sabiam o nome dos medicamentos ou os identificavam pela forma ou pela cor.

Após o terceiro encontro, 87% dos mesmos entrevistados já listavam corretamente o esquema medicamentoso que seguiam. O sucesso da iniciativa, segundo Renata Macedo, deve-se, em parte, à abordagem em grupo: “A maratona tem sido uma experiência gratificante e enriquecedora, transformando as relações paciente-farmácia, melhorando o vínculo com o serviço e construindo a responsabilização do usuário com os medicamentos”.
Os resultados favoráveis às duas estratégias lúdicas também podem ser observados em frases ditas pelos usuários de ambos os serviços, como a de um paciente do SAE Campos Elíseos, durante a interação com os objetos representativos de células e vírus: “Agora eu sei o que está acontecendo comigo!”. Ou de MMS, 36 anos, usuário do Programa de Contagem: “A maratona foi muito interessante para mim, que tinha pouco conhecimento sobre o assunto. Agora eu tenho aderido da melhor forma possível ao tratamento”.

CRIATIVIDADE NA ABORDAGEM
Para atrair seu público-alvo, o Programa Municipal de Contagem estipulou que cada participação dos usuários na maratona conta pontos para uma premiação final. Em dezembro, o vencedor receberá um aparelho televisor de 20 polegadas. Além disso, o Programa distribui certificados de participação e organiza eventos em datas comemorativas – a primeira reunião aconteceu no dia da estréia da seleção brasileira na Copa do Mundo. Telão, pipoca e suco estavam à disposição dos participantes.

No SAE Campos Elíseos, o trabalho artesanal do auxiliar de enfermagem José Fernando, que transforma pequenos globos de plástico, miçangas e contas em vírus, células e processos químicos, auxilia os pacientes a compreender a dinâmica do tratamento antiretroviral.

Segundo a psicóloga Renata Simões, isso é importante para a concretização de todo o processo. “É difícil para a pessoa aceitar a medicação quando não está sentindo nada”, diz ela. “Nestes casos, se a adesão não for bem trabalhada, os efeitos colaterais dos medicamentos acabam sendo uma das razões de abandono ou má condução do tratamento”.

NOVOS DESAFIOS

As iniciativas do SAE Campos Elíseos – SP e do Programa Municipal de Contagem – MG se assemelham, também, pelo fato de serem construídas na medida em que são aplicadas.

As adaptações, portanto, são constantes. José Fernando, do SAE paulistano, dá pistas de como se preparar para o trabalho: “Quem atua na área de saúde tem que saber ouvir. Todos os dias aparece uma situação nova e temos que estar preparados. Por isso, é importante saber trabalhar em grupo”.

Mas o maior desafio atual para os profissionais do SAE é a continuidade do trabalho. Como foram confeccionados de maneira artesanal, os objetos exigem reparos constantes.

Há interesse do serviço em buscar parcerias que possam assumir a fabricação e distribuição do material e já está em andamento a elaboração de um manual explicativo para que outros profissionais possam utilizar o material em trabalhos educativos na área de adesão e prevenção ao HIV/aids.

Em Contagem, a idéia é realizar a segunda edição da maratona, no ano que vem. Revelado o ganhador da maratona de 2006, o que se pretende é aplicar, no último dia do projeto, o mesmo questionário utilizado nas sessões iniciais, de maneira a “identificar e quantificar a melhora no conhecimento, disponibilizando assistência individualizada àqueles que apresentarem dificuldades e rendimento baixo”, explica Renata Macedo. O passo seguinte, de acordo com o cronograma, é criar um grupo mensal, com duração de quatro horas, destinado a incluir todos os candidatos à terapia antiretroviral, regularizando as atividades já desenvolvidas este ano.

Para aqueles que pretendem utilizar técnicas lúdicas em programas de adesão, Renata Simões, do SAE Campos Elíseos, dá uma dica: “Começar por um bom diagnóstico da situação, isto é, buscar compreender as razões que dificultam a adesão à terapia”. A opinião é complementada por Renata Macedo, do Programa Municipal de Contagem, que sugere: “Conhecer a realidade onde se está inserido, identificando os fatores que caracterizam a população atendida para, então, estabelecer mecanismos de intervenção. E, finalmente, ser criativo e incentivar a
transformação do paciente em sujeito ativo de sua terapia”.

MAIS INFORMAÇÕES
SAE Campos Elíseos – São Paulo:
simoes.nunes@yahoo.com.br
(Renata Simões)
Farmácia do Programa DST/Aids de Contagem – MG:
farmaciasae@pop.com.br
Tel: (31) 3352 5793

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