Circulador

  • Fonte normal
  • Aumentar fonte
  • Adicionar a favoritos
  • Imprimir
  • Envie para um amigo:





Circulador » Circulador n.05

10/2012

Cidade saudável em construção

Governo e sociedade civil se articulam para promover saúde no Rio de Janeiro

Uma cidade saudável, na definição da OMS, é aquela que enfatiza a saúde de seus habitantes dentro de uma ótica ampliada de qualidade de vida, que garante o acesso à cidadania. A saúde da população está, portanto, intrinsecamente ligada a áreas como saneamento, habitação, emprego, educação, lazer e transporte, e impõe respostas que requerem o envolvimento de distintos atores. Com essas premissas, setores da prefeitura e da sociedade civil produzem ações que visam a uma maior equidade de condições de vida aos moradores do Rio de Janeiro.

O Morro do Borel comemora novo sistema de coleta de lixo, com equipamentos mais adequados e maior frequência de retirada dos resíduos. “É necessário o engajamento de todos para que o novo sistema funcione”, diz o diretor do programa UPP Social, José Marcelo Zacchi, acrescentando que o lixo aparece como demanda número um nas comunidades.

Cidade integrada

Derrubar as fronteiras entre favela e asfalto, promovendo o desenvolvimento social e urbano de áreas historicamente carentes de políticas públicas é o objetivo principal dos programas UPP Social, coordenado pelo Instituto Pereira Passos, e Morar Carioca, da Secretaria Municipal de Habitação do Rio de Janeiro. A palavra de ordem dos dois programas é integração. Articulando ações de vários órgãos da prefeitura com os governos estadual e federal, a UPP Social pretende “garantir o acesso das comunidades a bens de serviço público com qualidade compatível ao restante da cidade”, nas palavras de José Marcelo Zacchi, diretor do programa. Para ele, a pacificação de áreas antes deflagradas pelo tráfico e pelas armas é condição fundamental para os avanços sociais e urbanos pretendidos. “Temos agora uma oportunidade valiosa”, comemora. Zacchi destaca também a importância da participação comunitária para o sucesso do programa. “A construção de uma sociedade democrática envolve o diálogo entre as porções formais e informais da cidade, para que sejam encontradas as soluções mais adequadas a cada contexto”, acredita ele, que aposta na transitoriedade do programa: “Espero que um dia a UPP Social se torne desnecessária”.

Olhar territorial

Antonio Veríssimo e Luis Valverde, coordenador e gerente, respectivamente, da Secretaria Municipal de Habitação do Rio de Janeiro, apontam a participação popular como uma das maiores qualidades do programa Morar Carioca, coordenado pela secretaria. “Projetos adequados às expectativas dos moradores serão apropriados por eles de maneira mais efetiva”, acredita Veríssimo, informando que um levantamento das demandas das comunidades, conduzido e analisado pela ONG Ibase, servirá de suporte para as ações. A meta é urbanizar 219 favelas do Rio, divididas em 40 territórios. Valverde destaca a ampla discussão pública gerada pelo Morar Carioca. “O envolvimento de diversos setores da sociedade favorece que a população cobre por sua execução e manutenção”, diz. Mas é o olhar territorial, não fragmentado, um dos grandes avanços do programa, segundo Valverde. “As comunidades próximas têm interdependências, usam os mesmos equipamentos, o mesmo transporte, vivem problemas ambientais parecidos. A definição de soluções requer políticas públicas integradas, de âmbito municipal, estadual e federal”, explica. Além de levar infraestrutura, equipamentos e serviços de manutenção e conservação urbana, o programa também vai promover melhorias nas habitações, no que diz respeito à salubridade. “Este é mais um diferencial do Morar Carioca”, destaca Veríssimo.

EU APOSTO! “A cidade é o lugar do convívio e das trocas. A favela não pode mais ser vista como um gueto. Seus moradores têm que ter acesso aos benefícios que a cidade moderna oferece para que se sintam cidadãos plenos”. Antonio Veríssimo, coordenador da Secretaria Municipal de Habitação do Rio

Soluções compartilhadas

A busca de soluções compartilhadas é o trabalho diário de Aldecir Costa, agente cultural de saúde do Núcleo de Cultura, Ciência e Saúde, da Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro (SMSDC-RJ). Aldecir, que atua no Morro Azul, conta que a conscientização dos moradores do Morro sobre a questão do lixo partiu da criação de um canteiro de plantas medicinais, cultura que faz parte da história da comunidade. “Os moradores desconheciam os perigos que o lixo pode trazer para a saúde. Mas, depois de conscientizados, eles passaram a fazer o descarte corretamente”, diz ele, acrescentando que a Comlurb foi procurada para colaborar. “Conseguimos aumentar a frequência da retirada do lixo, além de disponibilizar mais e maiores lixeiras. Hoje o Morro Azul está limpo!”

VALE A PENA! “Mostrar às pessoas que moram em comunidades que existem formas mais saudáveis de viver faz com que elas busquem e alcancem uma melhor qualidade de vida”. Aldecir Costa, agente do Núcleo de Cultura, Ciência e Saúde da SMSDC – RJ

Diagnóstico de demandas e potencialidades

Integrante da Rede Brasileira de Habitação Saudável, a Fiocruz está presente em diversas comunidades da cidade, identificando primeiro as demandas e as potencialidades de cada local para depois agir. Para Simone Cohen, pesquisadora titular do Departamento de Saneamento e Saúde Ambiental da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz), as soluções em saúde urbana são processos coletivos que exigem tempo para a maturação. “O diagnóstico social, que requer a participação da população envolvida, com seus saberes e especificidades, é o ponto de partida para promoção de espaços saudáveis e sustentáveis”, assinala. Uma das áreas de atuação da Fiocruz é o desenvolvimento de competências nos agentes comunitários para identificar e propor soluções para as vulnerabilidades e os riscos do ambiente construído e seu entorno. “O agente se torna capaz de sugerir mudanças para melhorar a ventilação e a luminosidade da casa ou para extinguir um foco de umidade – ações fundamentais para a prevenção da tuberculose e outras doenças respiratórias –, de propor uma coleta de lixo mais adequada e de identificar riscos para idosos e crianças, como escadas mal feitas e lajes sem proteção”, descreve Simone Cohen.

Fortalecer grupos locais

A vitalidade dos grupos comunitários é a força motriz do trabalho desenvolvido pelo Centro de Promoção da Saúde (Cedaps) em favelas e periferias do estado do Rio. “Encontramos, nesses locais, muita gente querendo produzir saúde”, conta Kátia Edmundo, coordenadora do Cedaps. “Nosso objetivo é qualificar e reforçar a participação da comunidade”, diz ela. Wanda Guimarães, também coordenadora do Cedaps, observa que, nas políticas públicas, o interesse atendido é sempre o de uma parcela da população. “Os grupos locais precisam ter voz, colocar suas demandas e cobrar que sejam atendidas para contrapor o processo de exclusão histórico das favelas e periferias, especialmente no que diz respeito à interlocução com o poder público. Nosso trabalho é fazer essa conversa fluir”, assinala.

Mapa falante desenhado por moradores do Morro do Alemão O Mapa Falante é uma ferramenta desenvolvida pelo Cedaps em conjunto com os moradores para fazer um diagnóstico de seu território. “O morador conhece bem o local onde vive. É ele quem vai apontar os problemas e ajudar a mapear os recursos dessa comunidade, revelando ações que podem ser potencializadas”, explica Wanda, coordenadora do Cedaps.

Rede de Comunidades Saudáveis

Uma das estratégias bem sucedidas do Cedaps é a construção da Rede de Comunidades Saudáveis do Rio de Janeiro, que hoje conta com 153 associações afiliadas. “A Rede é um chamado da sociedade civil, o que a difere de outros movimentos de cidades saudáveis do país e do mundo, que partem de universidades ou de prefeituras”, ressalta Kátia. Os membros da Rede discutem ações, participam de fóruns e integram outras redes, o que fortalece e amplia sua atuação na sociedade. Garantir o direito de todos à vida urbana saudável e a políticas públicas adequadas é o desafio atual das cidades. “Cidade saudável é aquela que diminui as distâncias, promovendo a equidade”, conclui Kátia Edmundo.

EU APOSTO “No capital humano, na participação social para a cidade ser saudável. Pessoas e associações pequenas devem ser consideradas pelo poder público na hora de planejar ações dentro de comunidades. Eles são agentes importantes de mobilização e informação”. Kátia Edmundo, coordenadora do Cedaps.

Edemilson Santos, jovem comunicador do GAL Berço dos Sonhos, registra a mais recente conquista das comunidades Sagrado Coração, Morada Verde e Jardim Palmares: a construção da passarela sobre a Avenida Brasil.

Sociedade organizada faz  diferença

O Unicef, através da iniciativa Plataforma de Centros Urbanos (PCU), é um forte aliado para a redução das desigualdades. Para garantir os direitos de crianças e adolescentes que vivem em comunidades populares (leia matéria da pág 4), a iniciativa envolve vários segmentos da sociedade, a partir dos Grupos Articuladores Locais (GAL). O trabalho realizado pelo GAL Berço dos Sonhos, em Jardim Palmares – Paciência, é um exemplo de articulação bem sucedida entre governo e sociedade civil. Um de seus parceiros mais próximos é o Centro Municipal de Saúde (CMS) Floripes Galdino Pereira, com diversas ações planejadas e realizadas em conjunto – como caminhada contra dengue e esquetes teatrais sobre a prevenção e tratamento da sífilis. A construção de uma passarela sobre a Avenida Brasil, que facilita o acesso das comunidades Sagrado Coração e Morada Verde ao CMS e também às escolas e ao comércio da região, merece destaque. “Há anos os moradores lutavam por essa passarela”, conta Glaucia Meires, do GAL Berço dos Sonhos. Suely Gomes Osório, chefe do Serviço de Assistência Integral à Saúde do CMS Floripes Galdino Pereira ressalta a importância da parceria: “O CMS e o GAL, juntos, realizam um trabalho consciente e integrado de saúde e cidadania que procura representar as necessidades e os desejos da comunidade”.

VALE A PENA! “O GAL Berço dos Sonhos, em parceria com o CMS Florípes Galdino Pereira e a força da Plataforma dos Centros Urbanos do Unicef, garantiu a construção de uma passarela junto ao Ministério Público, mostrando que a sociedade unida e organizada faz diferença”. Glaucia Meires, do Grupo Articulador Local (GAL) Berço dos Sonhos

Compartilhe