Saber Viver Jovem

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Saber Viver Edições Especiais » Saber Viver Jovem » Saber Viver Jovem n.02

02/2009

Com amigos assim, a gente se sente em casa

DIA DE PAPO CABEÇA, DEPOIS DE MAIS UMA OFICINA DA SABER VIVER, NO PELA VIDDA NITERÓI.

O ASSUNTO FOI AMIZADE. SUELLEN E WALLACE, DA GALERA SABER VIVER, TROUXERAM UM AMIGO QUE NÃO É SOROPOSITIVO E NUNCA TINHA ESTADO LÁ, O WALLACE (POIS É, OUTRO WALLACE, TÃO TÍMIDO QUANTO O QUE A GENTE JÁ CONHECE. VAMOS CHAMÁ-LO AQUI DE WALLACE 2). BIANCA, TAMBÉM DA GALERA, CHAMOU TAMIRES, QUE FAZ PARTE DO GRUPO, MAS ANDAVA SUMIDA. PARA COMPLETAR A MESA, VEIO O JOÃO*, QUE É NOVO NA ÁREA, MAS ESTÁ DOIDO PARA SE CHEGAR MAIS.

Saber Viver Jovem: Quanto mais amigos melhor?
Suellen: Claro! Através de um amigo a gente conhece outros, e fica cheia de amigos.
João*: Mas a amizade só é boa quando tem companheirismo. É bom ter com quem desabafar e dividir os problemas, alguém em quem confiar.
Wallace: Amigo para encobrir as besteiras…
Tamires: É importante ter amigos nas horas boas e nas más.
João*: Chega um momento em que, só de olhar, dá pra perceber se o amigo tá precisando da gente.

SV: Como saber se a amizade é pra valer?
João*: Dá para ver quem é verdadeiro. Vem da alma, de dentro da gente. Tem gente que parece ser meu amigo, mas com o tempo, vejo que não é; então, eu descarto.
Bianca: Muitas vezes, acontece de você chegar precisando de ajuda, a pessoa te fortalece e depois fica falando mal por trás. Não é qualquer pessoa que é amiga. Tem que saber separar.
Suellen: Eu tinha uma amiga com quem eu falava sobre tudo, um dia quis contar a
ela que sou soropositiva. Mas, antes, numa conversa, ela falou para mim ‘Já pensou se aqui tem algum aidético? Eu tenho nojo deles’.
Bianca: Eu odeio a palavra aidético.
Suellen: Eu também. Me senti magoada, decepcionada e pensei: ‘ainda bem que não contei’. Nossa amizade nunca mais foi a mesma.

SV: É difícil falar sobre o HIV com amigos que não são soropositivos?

Tamires: Nunca contei para nenhum amigo. Tenho vergonha. Acho que eles não vão mais querer chegar perto de mim, vão ficar com nojo. Sinto vontade de contar, mas fico sem jeito, não consigo.
João*: Tenho um amigo com quem converso sobre todos os assuntos. Eu queria contar para ele, mas fico naquela: e se, no futuro, a gente brigar? Ele pode contar para todo mundo de vingança.
Wallace:Eu não escondo de ninguém que tenho o HIV, mas é diferente conversar com quem também sente isso na pele.
João*: Quem não tem o conhecimento que a gente tem, acaba discriminando. Nos olham como seres de outro mundo, nos taxam de homossexuais, falam um monte de besteiras que ofendem. Nada contra os gays, mas isso é ignorância.
Wallace: É burrice da pessoa.
João*: Falta de informação gera preconceito. Eu só me sinto à vontade para falar sobre o HIV com quem também tem.
Tamires:Eu acho que dá para ser amigo, mas se falar, vai ficar difícil.
Suellen: Mas eu contei para uma amiga que teve uma reação ótima! Ela foi à casa onde eu e o Wallace morávamos, onde só viviam crianças com HIV, e adorou nossa casa.A gente ficou bem próxima.
Bianca: Eu tenho grandes amigos que não sãosoropositivos, que sabem que eu sou, mas tenho mais amizade com quem tem o HIV porque com eles tenho mais liberdade para falar sobre tudo.

SV: Sobre o quê, por exemplo?
Bianca: Tipo ‘Ah! Esqueci o remédio’. Para quem não é soropositivo deve ser enjoado ficar ouvindo falar de remédio. Com quem vive a mesma coisa que eu, dá para dividir melhor tudo, inclusive as dores.
Wallace 2: Não acho chato falar de remédio. Eu me preocupo se meus amigos estão tomando os remédios.
Suellen:Até já chorou! Uma vez, por causa de uma briga com minha tia, o Wallace2 saiu de casa e não quis levar os remédios.Aí, o Wallace ficou chorando, pedindo para ele ir pegar os remédios e ir para casa dele.
Wallace 2:Tava chovendo e o Wallace quis ficar na rua. Já tinha até passado a hora do remédio. Eu fiquei muito preocupado.

SV:Wallace 2, como você ficou sabendo que seus amigos são soropositivos?
Wallace 2: Eu via que eles tomavam um monte de remédio todos os dias e perguntei o porquê.
Wallace: Aí eu respondi como falo com todo mundo ‘Porque sou soropositivo e tenho que tomar para ter saúde’.
Wallace 2: E não mudou nada na nossa amizade, pelo contrário, eu admiro a força deles.
Wallace: Eu e o Walace 2 falamos sobre tudo. Nossa amizade é para sempre.
Bianca: Eu acho que amigo de verdade não vai deixar de ser porque você é soropositivo.



SV: Amizade de verdade é para sempre?

João*: Quando a amizade é muito especial, é igual estrela, nasceu para brilhar.
Bianca:Mesmo quando você leva um fora, tipo o que eu levei do Wallace, a amizade não acaba, se for de verdade. Mas, se fosse outro, eu não perdoaria.
Wallace:É que eu tava super aborrecido e ela veio me perguntar se eu tinha tomado o remédio. Eu respondi ‘Não interessa’.
Bianca: Mas a minha amizade com o Wallace vai além disso. Foi com ele que eu aprendi a não ter preconceito comigo mesma. Eu fui criada pela minha avó com muito preconceito. Em casa, tinha um copo só para mim, por exemplo.
E eu continuei assim, com medo de passar aids para as pessoas até pelo copo!
Suellen: Foi aqui que ela se livrou disso.
Bianca: O Wallace me deu a maior bronca, disse que era uma coisa horrível ter preconceito consigo mesmo.Acho que só uma pessoa muito amiga e também soropositiva poderia falar assim comigo. Eu pensei ‘Se ele não tem preconceito com ele, porque eu vou ter comigo?’

SV: Que tal a experiência de amizade aqui, no grupo?
João*: Eu adoro dividir meus momentos bons com eles. Aqui fico mais à vontade.
Suellen:É como se a gente estivesse em casa.
Wallace:Eu sinto liberdade para falar sobre todos os assuntos, até os mais íntimos.
Tamires: Se alguém tá com problema, o outro tenta ajudar.

SV: Algum recado para quem não é soropositivo?
Wallace 2:Todo mundo é igual, todo mundo tem algum problema.
Bianca: Se informe sobre o assunto, antes de julgar. A vida de quem é soropositivo pode ser até melhor do que a vida de quem não é.
Suellen:Ser soropositivo não é nenhum bicho de sete cabeças! Eu me acho a tal!

SV: E para os outros soropositivos?
Wallace: Saiam de casa, façam parte de um grupo, participem dos eventos sobre HIV. Nós estamos aqui, fazendo uma revista!
João*: Eu queria visitar outros grupos de pessoas soropositivas. Seria muito legal a gente se conhecer.

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