Saber Viver Mulher

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Saber Viver Edições Especiais » Saber Viver Mulher » Saber Viver Mulher n.03

02/2004

Com garra e coragem, todo sonho pode virar realidade

Cleidejane vive com seus quatro filhos em Duque de Caxias, município de poucos recursos e muita violência, na Baixada Fluminense (RJ). Essa mulher, de 40 anos, é uma guerreira. Apesar dos erros que cometeu na vida e das injustiças que sofreu, não se deu por vencida. Cleide, hoje, sabe a força que tem e corre, com toda a garra, atrás de seus objetivos: sua felicidade, dos que estão à sua volta e melhores condições de vida para as pessoas que vivem com HIV e aids em Caxias

Saber Viver: Como era a sua vida quando você descobriu que tinha o HIV?
Cleidejane: Descobri em 93. Mas eu não quis ir ao médico, nem me tratar.Minha vida era passar dias e noites correndo atrás do homem que eu achava que amava, pai dos meus três filhos mais novos. Ele não prestava, mas eu só queria saber de andar grudada nele. Acho que é o mal da mulher, esquecer dela mesma, de tudo, por causa de uma paixão doentia. Meus filhos ficavam com minha mãe ou minha irmã, porque eu não tinha condições de cuidar deles. Em 96, fui internada em estado grave. Achei que ia morrer e me sentia muito deprimida por ter dedicado minha vida a um homem que nunca me deu valor e por não ter cuidado dos meus filhos.

Sua família apoiou você durante sua doença?
Cleide: Não. Só recebi ajuda de meus amigos da igreja. A dedicação deles e a minha vontade de ficar com meus filhos me deram força para viver. Em 97, comecei o tratamento contra a aids e nunca mais fiquei doente.
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Como é sua vida agora?
Cleide: Aquela Cleide de antes morreu, não existe mais. Eu descobri que tenho valor. Hoje, sou uma mulher responsável, segura e com muita garra. Tenho minha casa, onde vivo com meus três filhos, e em breve, também com minha filha mais velha, que vai me dar um neto.

Porque você resolveu montar uma ONG?
Cleide: Porque percebi que Caxias não tinha preparo para atender as pessoas que vivem com HIV/aids. Quando eu precisei ser internada com urgência, rodei dentro de uma kombi durante horas, pois nenhum hospital queria me aceitar. No posto de saúde de Caxias, quando comecei meu tratamento, havia apenas uma médica para atender mil pacientes. Nós tínhamos que chuva, sendo apontados pelas outras pessoas como “o pessoal da aids”. Eu resolvi fazer alguma coisa.

Como foi que você passou da idéia à ação?
Cleide: Eu e a Darci Vargas, assistente social do posto de Caxias, fizemos um cartaz convidando as pessoas soropositivas para uma reunião. No começo foi difícil, mas com o tempo o grupo foi se formando. Meu desejo era criar uma instituição para exigir melhorias para as pessoas que vivem com HIV/aids dentro do município de Caxias.

E o que você já conseguiu?
Cleide: Muita coisa. Criamos a ONG Grupo HIVIDA que atende a pessoas soropositivas. Encaminhamos quem precisa de atendimento jurídico ou de outras especialidades para profissionais voluntários; temos grupos de discussão de adultos e de adolescentes e um espaço para as crianças brincarem. Quando possível, oferecemos lanche ou almoço. Além disso, graças à nossa luta, hoje, o setor de aids do posto de saúde de Caxias conta com quatro médicos e o local de espera dos pacientes está muito melhor.

O que você tem aprendido com essa experiência?
Cleide: Principalmente a respeitar e cuidar do próximo. Antes, eu só pensava em mim.
Quando se trabalha ajudando os outros, descobrimos coisas que nem sabíamos que existiam dentro de nós.

Qual o próximo passo?
Cleide: Quero melhorar minha atuação e conquistar mais espaços para o Grupo.
Participo de seminários, faço parte de conselhos comunitários de saúde, de ação social e de fóruns. Meu sonho é ter uma cadeira no Conselho Municipal de Saúde de Caxias e ter uma casa definitiva para a instituição.

E sua vida pessoal, como está?
Cleide: Eu não tenho tempo de ser dona de casa, então meus filhos têm que colaborar, cada um faz sua parte. É cada um por si e todos por todos. Mas eu cobro deles que não faltem à escola e façam sempre o dever. Eles também me ajudam no HIVIDA.

Você já reencontrou o amor?
Cleide: É isso que me falta agora. Um amor verdadeiro. Sexo é bom, mas não é tudo. Tem muitas outras formas de dar prazer: ser companheiro, amigo, respeitar o outro. Mas eu estou paquerando. Eu acho que o problema é que, de tanta batalha, meu lado mulher ficou meio esquecido. SV

HIVVIDA
Tel: (21) 2650-1379/2782- 8362
E-mail: hivvida@bol.com.br

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