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Saber Viver » Saber Viver n.22

06/2003

Com vida e diferente

Grupo Com Vida, no Rio de Janeiro, mostra que é possível fazer um trabalho de adesão diferente

Existem muitos grupos formados por soropositivos em hospitais. Agora, imagine se todos eles contassem sempre com a presença de vários profissionais de saúde nas reuniões, incluindo um médico, que não daria palestra ou coisa parecida, apenas ouviria e aprenderia com o paciente como é viver com HIV e Aids. Imagine também se, além de dar apoio aos pacientes, esse grupo também servisse para a formação de novos médicos mais sensíveis e interessados pelo bem-estar do paciente.

Pois saiba que este grupo existe e se reúne todas as segundas e quartas-feiras no Hospital Universitário Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro. Ele se chama Com Vida e recebe em média 25 pessoas por reunião. “Começamos em 1996 com encontros quinzenais. Com o tempo, o número de participantes foi crescendo e as reuniões passaram a acontecer duas vezes por semana”, conta Denise Herdy Afonso, clínica geral e uma das fundadoras do grupo.

O Com Vida faz parte do Ambulatório de Medicina Integral. Como o próprio nome sugere, esse ramo da medicina acredita que qualquer tratamento deve ir além da doença. É preciso entender como vive e pensa o paciente. “Acreditamos que cada um é cada um. Não trabalhamos apenas com a adesão aos remédios contra a Aids. Trabalhamos com adesão à vida. Queremos conquistar neste paciente qualidade de vida”, explica a psicóloga Lia Silveira.

A importância em ouvir o paciente
A cada reunião, o grupo, formado por soropositivos, psicóloga, médicos, enfermeira, nutricionista e estudantes de medicina, debate os mais variados temas de igual para igual. “No Com Vida todos têm algo a ensinar, seja morador de rua ou militante político. É um exercício de humildade”, reconhece Maria Silvia Borenstein, nutricionista do hospital. A enfermeira Célia Jorgina acredita que o grupo a fez repensar o seu trabalho: “No Com Vida, os temas surgem do paciente. Nós garantimos o acolhimento”.

Para a médica Denise Herdy, ouvir e compreender a realidade do paciente deveria ser uma prioridade para o médico: “Nós, médicos, geralmente, somos muito arrogantes. Não sabemos trabalhar em equipe e ouvimos muito pouco o outro. Porém, ter um bom relacionamento com o paciente é um trunfo que todos os médicos deveriam utilizar para construir um bom tratamento”. Tentando transformar essa realidade, o Ambulatório de Medicina Integral oferece a estudantes de medicina a possibilidade de participarem das reuniões do grupo. Essa estratégia de sensibilizar os futuros médicos vem dando certo. Os três estudantes que freqüentam regularmente as reuniões do Com Vida – Renata, Thiago e Tereza – já sentem que esses encontros poderão torná-los profissionais mais sensíveis. “Aqui a gente aprende que não adianta analisar somente a doença. É importante compreender o paciente e suas dificuldades”, diz Renata. “O que aprendemos no grupo não aprendemos na escola de medicina, que é ouvir o paciente com respeito e atenção”, revela Thiago. “Estou refletindo mais sobre a minha carreira depois que comecei a freqüentar o Com Vida”, revela Tereza.

Grupo conquista um espaço importante na instituição
Com sete anos de trabalho, o grupo Com Vida coleciona conquistas importantes não só para o grupo, mas também para a melhoria no atendimento do hospital. Uma das conquistas mais significativas foi o almoço. Nenhum profissional de saúde tem permissão para almoçar no refeitório do hospital. Mas os pacientes que freqüentam as reuniões reivindicaram e conseguiram esse benefício. Outra conquista que enche de orgulho o pessoal do Com Vida é a sala exclusiva para o grupo, que foi reivindicada pelos pacientes em reunião com a diretoria do hospital. Mas a consciência de cidadania deste grupo não beneficia apenas os soropositivos que freqüentam o Com Vida. Um dia, um integrante do grupo viu um vigilante do hospital tratar mal um idoso que pedia uma informação. Ele ficou tão incomodado com a situação que levou o caso a uma reunião do Com Vida. O grupo convidou os vigilantes para um bate-papo. Tudo foi resolvido com muito diálogo e cidadania, do jeito que o Com Vida gosta de trabalhar. SV

Hoje os remédios são meus aliados
“Apoio, tranqüilidade, conhecimento e diversão. São essas as palavras que definem o grupo Com Vida para mim. Participo das duas reuniões semanais. Esse espaço fez com que eu mudasse muito. Antes, eu era preconceituoso comigo mesmo. Tudo eu culpava o HIV. Hoje em dia eu vejo a vida de outra forma. O HIV existe, mas quem controla ele sou eu. O grupo é que me ajudou a perceber isso. O Com Vida me passou informações. Hoje, eu consigo ajudar outras pessoas e me sinto muito forte com isso. A minha saúde também melhorou depois que eu comecei a tomar os remédios certinho. Nunca gostei de tomar remédios. Mas, no Com Vida, aprendi a ver os remédios como meus aliados. Eles me ajudam a ficar de pé. Quando eu descobri o HIV, fiquei um tempo sem me tratar. Acabei ficando doente e achei que fosse o meu fim. O grupo me mostrou que não era o meu fim. Hoje eu estou bem, namorando. Por incrível que pareça, tenho uma vida mais saudável. O HIV serviu como um alerta para a minha vida”.

José Augusto Araújo, 38 anos, descobriu ser
soropositivo em 94. Há 4 anos participa do grupo.

Aprendi a me cuidar e a ter respeito pelo outro 
“Eu acho que o Grupo Com vida é a minha segunda casa. Antes, eu não entendia o que era ser soropositiva. Vivia muito deprimida. Achava que eu iria morrer logo. Depois que comecei a freqüentar o grupo, as coisas mudaram. A gente conversa muito sobre tudo aqui. Já me tratei em outros lugares, mas nunca me senti tão bem quanto aqui.
Hoje eu encaro o HIV numa boa. Além disso, comecei a cuidar mais de mim. Antes, eu só pensava em trabalhar e não conversava com as pessoas. Hoje, eu me cuido e tenho muito respeito pelo outro”.

Zélia Martins, 41 anos.
Descobriu-se soropositiva em 96. Em 98, começou a freqüentar o grupo.

A base da minha vida é o grupo 
“O grupo Com Vida se tornou a razão da minha luta. Do meu bem-estar. Todos os meus problemas eu procuro trazer aqui para o grupo. Para mim, é tudo. O grupo me incentivou a revelar para a minha família e para os meus amigos que eu era soropositiva. Capacitou-me a trabalhar em leito de hospitais dando aconselhamento a pacientes. Mudou completamente a minha vida. Antes, eu só pensava em trabalhar. No Com Vida, eu passei a ter amizade, união, informação. A base da minha vida é o grupo. Se ele não existisse em minha vida, eu já teria morrido. Antes, eu não era tão batalhadora. Essa característica surgiu a partir da minha convivência com o grupo”.

Sônia Maria da Silva, 38 anos, descobriu em 97 que era soropositiva. No final de 98, começou a freqüentar o grupo.

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