Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids

  • Fonte normal
  • Aumentar fonte
  • Adicionar a favoritos
  • Imprimir
  • Envie para um amigo:





Saber Viver Edições Especiais » Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids » Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids n.01

01/2004

Como antender o adolescente soropositivo

Maria Letícia Santos Cruz
Médica Pediatra e Infectologista do Serviço de Doenças
Infecciosas do Hospital dos Servidores do Estado do RJ

Poucas são as unidades que possuem serviço ou setor voltado para a assistência ao adolescente. Normalmente, os serviços de Medicina do Adolescente estão em hospitais universitários e a maioria dos programas de aids não conta com essa opção de assistência.

Para muitos profissionais de saúde, os adolescentes são pessoas desagradáveis, mal educadas e intratáveis. A intolerância e o despreparo de muitos profissionais dificultam e podem inviabilizar o acesso do jovem aos cuidados necessários.

O serviço que recebe pessoas soropositivas entre 10 e 20 anos deve contar com profissionais que gostem de trabalhar com adolescentes e que estejam preparados especificamente para acompanhar portadores de HIV. A identificação de profissionais com essas características é o ponto de partida para o trabalho. A complexidade da demanda faz com que seja indispensável o trabalho em equipe. Não queremos aqui propor nenhuma fórmula ou composição formal de equipe, mas pelo menos duas pessoas precisam estar envolvidas e disponíveis para a assistência a adolescentes HIV +. Podem ser dois médicos, um médico e um enfermeiro, um médico e um psicólogo ou assistente social. O ideal é que essas pessoas estejam articuladas às diferentes formas de assistência que podem ser necessárias (SAE, Hospital Dia, internação e atendimento domiciliar) e que mantenham o contato com os pacientes mesmo quando eles forem transferidos temporária ou definitivamente para esses serviços. O objetivo deve ser prestar assistência integral ao adolescente HIV+ desde o momento do diagnóstico até o fim da adolescência (idade variável) quando ele poderá ser transferido para um programa de aids geral, dentro da mesma unidade e às vezes com a mesma equipe.

A experiência do Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro
O atendimento a adolescentes soropositivos no Hospital dos Servidores do Estado ocorre no serviço de Doenças Infecciosas e Parasitárias (DIP). O hospital não conta com serviço específico para adolescentes. Definimos, no ambulatório geral do DIP, um horário específico para atendê-los.

A equipe é composta por uma médica infectologista e uma pediatra, uma psicóloga e duas enfermeiras. O serviço de DIP conta com uma assistente social e com setores de SAE, internação, Hospital Dia e atendimento domiciliar.

Os adolescentes têm consultas mensais no DIP, geralmente no dia em que é desenvolvida uma atividade em grupo. O início dos anti-retrovirais é adiado enquanto o estado clínico e imunológico (contagem de células CD4) permitirem. Sempre que possível, optamos por usar esquemas simplificados, com drogas que possam ser usadas uma ou duas vezes ao dia. Todos são tratados de acordo com o Guia de Tratamento Clínico da Infecção pelo HIV em adultos e adolescentes do Programa Nacional de DST/aids do Ministério da Saúde.

No serviço de DIP do Hospital dos Servidores do Estado, são atendidos adolescentes provenientes de dois programas: aids pediátrico e ambulatório de prevenção de transmissão vertical do HIV. Apesar de terem em comum o vírus, são populações com características bem distintas.

Da Imunopediatria para o DIP
Os pacientes da Imunopediatria normalmente já são acompanhados naquele setor há alguns anos e estão habituados ao ambulatório e enfermaria de Pediatria. Os pediatras, muitas vezes, adiam ao máximo a transferência desses pacientes para o programa de adolescentes. São jovens que, em alguns casos, apresentam atraso no desenvolvimento somático e emocional decorrentes da infecção e de situações de perdas associadas ao HIV. A transferência geralmente só se concretiza quando se torna inevitável, como na necessidade de uma internação hospitalar que não pode mais ocorrer na enfermaria de pediatria. Nessas situações, a internação tem sido trabalhada pela equipe como uma oportunidade de aproximação do jovem com o serviço do DIP, devido à possibilidade de contatos diários entre o paciente e diferentes profissionais. Esses pacientes geralmente já estão em uso de anti-retrovirais e nessa ocasião a administração das drogas deve ser revista pela equipe, que identifica quem é o responsável por “se lembrar” dos remédios. Normalmente um adulto ou irmão mais velho tem essa responsabilidade e o adolescente pode ou não estar comprometido com seu tratamento. Durante esses primeiros contatos, o comprometimento com o próprio tratamento é estimulado.

Outro problema com os adolescentes provenientes do programa de aids pediátrico é que eles, por vezes, chegam ao nosso ambulatório ainda sem conhecer sua condição de portador de HIV.

A revelação do diagnóstico pode levar bastante tempo ou se completar em poucas consultas. Tudo depende da resposta do adolescente, à medida que damos as informações. Logo nas primeiras consultas, conversamos na presença dos pais sobre o que o novo paciente sabe a respeito do problema que o traz tão freqüentemente às consultas. Deixamos claro para os pais que vamos precisar informar o adolescente sobre sua condição de HIV + . Nem sempre os pais aceitam bem a idéia neste momento. Às vezes, a família precisa de um tempo antes da revelação.

Gravidez precoce e HIV
As meninas provenientes do ambulatório de prevenção de transmissão vertical do HIV (onde a cada ano cresce o número de gestantes infectadas entre 13 e 18 anos) chegam ao serviço precisando lidar com dois fatos novos em suas vidas: a maternidade precoce (apesar de algumas vezes desejada e até planejada) e a infecção pelo HIV. O serviço oferece testagem para os parceiros das gestantes e aqueles com diagnóstico positivo para o HIV que estão na mesma faixa etária das parceiras também são admitidos para acompanhamento.

Grupos de discussão
Desde o início, tivemos a proposta de formar um grupo de adolescentes que favorecesse a discussão e a troca de experiências entre jovens com o mesmo “desafio”. Mas o grupo demorou mais de oito meses para se formar. Durante os primeiros meses, o encontro dos jovens ocorreu apenas na sala de espera do ambulatório, pois a freqüência era muito irregular e a resistência ao acompanhamento era patente. Apesar de conversarem muito pouco entre si, eles perceberam que aquele espaço/horário era destinado a eles e que o serviço os estava acolhendo. Nesses primeiros meses, eles tiveram acesso a atendimentos individuais com a médica, a psicóloga e a enfermeira. Com o tempo, esses encontros informais facilitaram a formação do grupo.

Desde que tiveram início, em 2002, os encontros em grupo têm acontecido regularmente e são agendados uma vez por mês. Para ser convidado a participar do grupo, o adolescente precisa conhecer seu estado de portador do HIV.

Os assuntos tratados no grupo são sugeridos pelos adolescentes. O termo HIV surgiu desde o primeiro encontro e raramente deixa de ser o centro das discussões. Os principais temas abordados em grupo têm sido: preconceitos, medo de contar o diagnóstico a familiares e amigos, contar ou não contar para os namorados, o impacto do diagnóstico em suas vidas, o que significam os exames que fazem periodicamente (CD4 e carga viral) e a possibilidade do vírus se tornar resistente aos medicamentos.

O entrosamento da equipe de profissionais é fundamental para o bom andamento deste trabalho. Procuramos afinar o conhecimento dos profissionais sobre adolescência e discutir os casos regularmente. Algumas noções sobre aspectos práticos ao longo da adolescência podem ser úteis.

Compartilhe