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Saber Viver » Saber Viver n.21

04/2003

Como manter a cuca fresca

Hoje não é mais novidade: para ter uma vida melhor, além do corpo, é fundamental cuidar muito bem da cabeça

Manter a cuca fresca pode parecer uma tarefa difícil no mundo em que vivemos, principalmente estando infectado pelo HIV. Mas existem soropositivos que conseguem manter o alto astral e aproveitar o que a vida tem de melhor mesmo diante de tantos desafios diários. É o caso de Simone Borges, 33 anos, que hoje em dia se considera uma pessoa cuca fresca. Quando soube que estava infectada pelo HIV, ainda não havia tratamento disponível. Ficou muito assustada e a primeira providência foi buscar informação sobre o vírus com outros portadores do HIV no Grupo Pela Vidda do Rio de Janeiro. Depois disso, Simone procurou o Banco de Horas, que oferece atendimento psicológico gratuito para soropositivos. “Ir para um psicólogo não significa que a pessoa está maluca. Eu precisei de apoio profissional porque não estava lidando bem com a situação. Valeu muito a pena. Hoje eu sou outra pessoa”. Simone tem vários amigos, dança, trabalha e começou a namorar recentemente um soronegativo. “Sou uma pessoa normal que valoriza a vida. Sei o que quero e o que me faz bem”.

“Nunca me deixei abater”
Jorge Luiz, 36 anos, também se considera uma pessoa cuca fresca. “Nunca me deixei abater por causa do vírus. O meu trabalho e o meu tratamento são fundamentais na minha vida. Muitas pessoas precisam de mim e eu, como gosto de viver, trato da minha saúde muito bem”. Já Rafael* não teve a facilidade inicial de Jorge. Ele descobriu que estava infectado em 1989, mas sua família descobriu somente cinco anos depois, quando Rafael se internou com risco de vida. “Foi impressionante. A partir daí, tudo ficou mais fácil. Eu estava muito deprimido porque não podia dividir isso com os meus familiares”. Hoje, ele se considera uma pessoa alto-astral. Não perde uma praia com os amigos e tem como meta encerrar o curso técnico de enfermagem e fazer uma faculdade.

Estar bem de cabeça é fundamental para a saúde
“As pessoas que vivem menos estressadas respondem melhor ao tratamento e são mais saudáveis”, afirma o psiquiatra Leonardo Maia, coordenador da Clínica de HIV/Aids do Posto de Atendimento Médico Antônio Ribeiro Neto, no Rio de Janeiro. Para Leonardo, a primeira providência para deixar uma pessoa mais relaxada é ter informação sobre o HIV. “Geralmente as pessoas têm medo do que desconhecem. Mas, se um soropositivo buscar informação, perceberá que muita coisa mudou e que hoje é possível ter uma vida praticamente normal”, diz Leonardo.
Para Carmem Lent, coordenadora do Banco de Horas, buscar momentos felizes é o desafio de qualquer ser humano, mas, quando se trata de soropositivos, isso é fundamental. “Quando você passa um dia feliz, você tem menos chances de pegar uma doença do que em um dia estressante ou triste”. Porém, segundo a psicóloga, o primeiro passo para tornar a vida melhor é garantir o tratamento. “Aids não mata mais como há oito anos. Mas ainda não tem cura e se a pessoa não fizer o tratamento correrá risco de vida. No Brasil existe tratamento para todos e há inúmeras alternativas para que se conviva melhor com a doença”. Com o tratamento sob controle, o próximo passo é fortalecer ou construir novas amizades. “Quando a pessoa divide angústias e dúvidas, ela fica mais leve. Você pode encontrar em grupos de apoio novos amigos e até novos amores. Isso traz um amparo que faz bem à alma”, conclui a psicóloga.

Sentir-se parte da sociedade

Trabalhar ou fazer um trabalho voluntário; ter amigos, ajudando-os quando for preciso; preencher o seu tempo livre fazendo algo que lhe dê prazer. Essas são algumas dicas que a equipe de Leonardo Maia dá aos pacientes que freqüentam o PAM Antônio Ribeiro Neto. “É importante que todos entendam que são parte de uma sociedade. Sentir-se útil, fazendo algo que lhe faça bem, é um ótimo caminho para deixar uma pessoa mais leve e tranqüila”, completa Leonardo. Simone já descobriu isso: “Tento sempre fazer, durante o dia, alguma coisa que me dê prazer. Eu não sou um vírus. Sou um ser humano e quero ser feliz”.
* Nome fictício

VALORIZO A MINHA VIDA
“Sempre fui uma pessoa cuca fresca. Depois que descobri que sou soropositivo, não me deixei abater. Não me fiz de vítima. Valorizo a minha vida. Sou espírita cardecista. Quando estou chateado, abro o meu evangelho, leio algumas páginas e pronto: já me sinto melhor. A fé sempre me ajudou muito. O trabalho também. Acho o trabalho fundamental para o ser humano. Apesar de já estar aposentado, continuo trabalhando com festas e sou sócio em um bar. Enquanto eu trabalho, não fico colocando minhoca na cabeça. Ajudar os outros também me faz bem. Eu me sinto muito feliz quando percebo que, com um simples bate papo, às vezes ajudo os meus amigos. Por isso tudo, tenho prazer em cuidar da minha saúde. Sou uma pessoa dinâmica e espontânea. Eu não deixei o HIV me excluir da sociedade. Acho que todos nós devemos seguir a nossa vida normalmente, tendo fé e tratando muito bem da saúde”.
Jorge Luiz, 36 anos. Descobriu que estava infectado pelo HIV há 5 anos.

ME ACHO UMA PESSOA NORMAL

“Hoje, eu me sinto cuca fresca. Danço, trabalho, namoro, enfim, levo uma vida normal, tendo dias melhores e piores, como todo ser humano. Tento sempre fazer, durante o dia, alguma coisa que me dê prazer. Não precisa ser nada complicado. Relaxar ouvindo uma música já está muito bom.

Se você se coloca na posição de vítima, de pobre coitada, tudo fica pior. Se tenho que tomar remédios, sei que existem muitas pessoas com outras doenças que têm que fazer o mesmo. Se fico sem namorado, olho pro lado e vejo que há várias mulheres, muitas soronegativas, na mesma situação. Se acordo triste, percebo que a tristeza não é um problema só de quem vive com o HIV. Eu não posso dizer que os problemas apareceram na minha vida apenas depois que eu descobri ser soropositiva. Conheço as minhas limitações físicas. Por isso, levo o meu tratamento a sério. Além disso, tomo os meus cuidados. Se não me sinto bem, prefiro não sair à noite com os meus amigos. Todos entendem. Tenho amigos de infância que estão do meu lado. Os que sumiram depois que souberam da minha infecção, não me fazem falta. Ou seja, me acho uma pessoa normal. E é isso que importa: o que eu acho de mim. Sei o que quero e o que me faz bem”.

Simone Borges, 33 anos.
Descobriu que estava infectada há 5 anos.

 

 

Para ter uma cuca fresca:

1-Garanta o bem-estar físico

Não deixe a sua saúde de lado. Cuide-se. Se você se sentir mal com os remédios, converse com o seu médico.

2- Cultive amizades

Ter amigos é fundamental. Dividir dúvidas sobre o HIV e a Aids pode ajudar bastante. Procure grupos e instituições que trabalham com pessoas soropositivas. Ofereça o que você tem de melhor aos seus amigos.

3- Ocupe o seu tempo

Trabalhe. Conseguir um emprego não é fácil, mas vale tentar. Você não precisa (e não deve) contar que é portador do vírus. Procure um trabalho voluntário. Outra opção é ocupar o tempo fazendo algo que você goste: pescar, plantar, andar pelo bairro, fazer cursos (há vários locais que oferecem cursos gratuitos. Fique de olho).

4- Perceba o que você gosta de fazer

O prazer e o bem-estar podem estar relacionados a coisas simples do dia-a-dia. Tente descobrir o que mais lhe dá prazer. Se a sua cabeça estiver muito confusa, não pense duas vezes: busque ajuda no local onde você faz o tratamento.

 

 

 

 

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