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Saber Viver » Saber Viver n.16

06/2002

Companheiros para todas as horas

Os Buddies são voluntários que vão à casa dos soropositivos e transformam suas vidas

Pela manhã, Alejandro organiza a sua vida particular, almoça e segue para a zona oeste do Rio de Janeiro, local onde está concentrado o maior número de clientes da sua empresa de decoração. Mas essa rotina nem sempre é a mesma. Pelo menos uma vez por semana, Alejandro visita um outro “cliente” com o qual não estabelece nenhuma relação comercial. Desde 1999, Alejandro é um Buddy, palavra que significa companheiro em inglês. Clientes são as pessoas soropositivas que se inscrevem no projeto para receber a ajuda de um voluntário.

Existem vários projetos de formação de Buddies espalhados pelo mundo, com maior concentração em países da Europa e Estados Unidos. A idéia é americana e surgiu no início dos anos 80, quando não havia uma resposta médica para a epidemia. No Brasil, atualmente, existem três projetos Buddies, no Rio de Janeiro, em Salvador e em Belo Horizonte.

Os Buddies têm como tarefa visitar semanalmente seus clientes soropositivos em casa, dando apoio prático ou emocional, sem receber nenhum tipo de remuneração. No projeto Rio Buddy, que funciona desde 1997 no Rio de Janeiro sob a coordenação dos Grupo Pela Vidda Rio e Grupo Arco Íris de Conscientização Homossexual, os voluntários utilizam oito horas semanais para se dedicarem ao projeto. O projeto de Salvador, do Grupo de Apoio à Prevenção à Aids da Bahia (Gapa/Ba), solicita aos voluntários seis horas por semana de dedicação. “O apoio dado pelos Buddies pode ser desde ajuda para realizar tarefas práticas cotidianas a acompanhar o cliente às consultas médicas e orientá-lo sobre questões relacionadas ao tratamento”, explica Cristiane Silva, coordenadora do Rio Buddy.

“Sou uma pessoa mais completa com este trabalho”
Depois de se aposentar, Nélio Abieri, 62 anos, percebeu que queria continuar alguma atividade com a qual se sentisse gratificado. Foi pensando assim que, em 1999, ele se tornou um voluntário do projeto Rio Buddy. “O meu primeiro cliente era uma pessoa maravilhosa. Ele falava sobre detalhes da vida que eu nunca havia percebido”. Há um ano, o cliente de Nélio faleceu, mas essa relação foi marcante na vida do voluntário: “Ele fazia tudo com muita coragem. Enfrentava a morte”. Atualmente, Nélio está acompanhando outro soropositivo. “Tem muita gente que acha que sou um herói. Mas eu não me sinto assim. Minha família achava que eu iria ficar maluco. Eu não fiquei e hoje me sinto uma pessoa mais completa por causa deste trabalho”.


“Todo mundo tem tempo para ser voluntário”
Alejandro Pobes, 52 anos, também é voluntário do Rio Buddy desde 1999. Sentiu-se impulsionado a procurar o projeto porque é casado com uma pessoa soropositiva. “Antes, eu achava que não teria tempo de realizar um trabalho voluntário. Mas hoje acho que todo mundo tem tempo. Basta querer”. Para Alejandro, a recompensa do trabalho surge quando se percebe uma melhora na qualidade de vida da pessoa atendida. “Quando eu vi o meu cliente pela primeira vez, ele pesava 42 quilos com 1m84cm e não andava. Hoje, ele está com 65 quilos e vive uma vida praticamente normal. Isso é muito gratificante para mim”. Alejandro reconhece que este tipo de trabalho não é para qualquer pessoa. “O meu cliente vomitava e passava mal. Eu o limpava. A pessoa que entrar neste projeto tem que estar preparada para tudo”. Perguntado se ele se considera um anjo da guarda de seu cliente, Alejandro responde rapidamente: “Não! Eu apenas sou uma pessoa que o ajuda bastante”.


Quem pode se beneficiar com o projeto
Os soropositivos que vivem no Rio de Janeiro e quiserem solicitar o acompanhamento de um Buddy precisam ter um local de residência e disponibilidade para aderir ao tratamento. Uma comissão vai avaliar a necessidade desta pessoa e como ela poderá ser atendida. Para garantir uma convivência amigável, a equipe do projeto tenta promover uma parceria entre Buddies e clientes que possuam afinidades. Além disso, durante o atendimento, não pode ocorrer vínculo amoroso e nenhum tipo de troca financeira entre Buddy e cliente. “Tanto o cliente quanto o voluntário têm que aceitar as regras do projeto”, esclarece Cristiane. O Rio Buddy oferece um espaço para os familiares das pessoas atendidas e treinamentos específicos para os serviços de saúde.

Para usufruir de um Buddy em Salvador, a pessoa precisa ter alguma limitação física que o impeça de tocar a sua vida normalmente, ou um quadro de depressão agudo. O projeto Buddy baiano também oferece atendimento domiciliar aos familiares das pessoas atendidas.
O projeto de Belo Horizonte, coordenado pelo Grupo VIVHER, assim como o Rio Buddy, oferece o serviço também a pessoas hospitalizadas, além dos acompanhamentos domiciliares regulares.

Quem pode se tornar um voluntário
Quem é soropositivo também pode ajudar. Para se tornar um Buddy é necessário que a pessoa passe por um curso de capacitação que é oferecido pelas ONGs que coordenam esses projetos. Além disso, no Rio Buddy, é necessário ter mais de 18 anos e ser alfabetizado. O projeto de Salvador evita formar Buddies que tenham na família pessoas soropositivas. Todos os projetos colocam à disposição dos voluntários um suporte de avaliação e acompanhamento freqüentes.

“Na verdade, esses voluntários precisam ter disponibilidade espiritual e emocional para lidar com situações de crise, ter boa vontade para aprender e bom senso”, define Ézio Távola, do Grupo Pela Vidda Rio e coordenador da recém-criada Rede Buddy Brasil, que dará suporte para a implantação de 15 novos projetos Buddies em diferentes cidades do país.

Procure informações sobre Buddys
Projeto Rio Buddy e Rede Buddy Brasil – Grupo Pela Vidda Rio – Tel (21) 2518 3993 ou Grupo Arco Íris – Tel (21) 2552 5995 – O projeto carioca está precisando de voluntários que morem na Zona Oeste da cidade e na Baixada Fluminense, locais com grande concentração de soropositivos que se enquadram no perfil de clientes do projeto.

Projeto Buddy Salvador – Grupo de Apoio à Prevenção à Aids da Bahia (Gapa/Ba) – Tel (71) 328 4270

Projeto Buddy Minas Gerais – Grupo VHIVER – Tel (31) 3271 8310

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