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Saber Viver » Saber Viver n.11

08/2001

Quero mais é viver!

No final de 1997, enquanto eu estava de férias, aproveitei esses dias para ficar junto aos meus familiares e principalmente fazer alguns exames laboratoriais, pois me sentia estressado, com falta de apetite, extremamente cansado e com perda substancial de peso em um espaço-tempo muito curto. No momento em que o médico solicitava os exames de praxe, pedi que incluísse também o de HIV. Após uns dez dias do retorno das férias, o médico me ligou e me disse o que já era tão visível. Terminei de atender um cliente e falei ao colega que só retornaria na segunda (era uma quinta-feira).

Caminhei sem rumo… Já estava documentado: o vírus tinha registrado sua permanência no meu organismo. Procurei contatar uma das assistentes sociais da empresa na qual trabalho. Desabafei, chorei, meus medos ficaram latentes. Sentia-me culpado por ter permitido a infecção do HIV. No mesmo dia contatei uma das psicólogas da empresa, que já me aguardava. A psicóloga escutou-me. Prontificou-se a cuidar do meu afastamento do trabalho e ainda a marcar consulta com um médico infectologista (meu médico até hoje). Disse que, para evitar comentários, especulações, o meu afastamento na folha funcional seria registrado como estresse. Não concordei, não estava estressado. Estava definitivamente a partir daquele momento com AIDS e tinha que encarar a minha nova realidade. Isolei-me, embora tenha permitido que a psicóloga repassasse a realidade aos meus colegas. Fiquei mais de um ano afastado, cuidando da minha saúde.

Após três meses, liguei para o meu local de trabalho. Quem me atendeu foi uma colega mais próxima. Conversamos muito e pude constatar que minha verdade já não era segredo. Senti-me aliviado: não havia o que esconder.

Após um ano de afastamento, chegava a hora de retornar ao dia-a-dia. Resgatar o espaço profissional. Superar os medos, conviver com os limites. Os medicamentos acompanham-me no trabalho. Embora procure ser discreto, tomo-os nos horários devidos, sem preocupar-me se estou ao lado de um colega, cliente ou não. Às vezes sinto náuseas, tenho vômitos esporádicos.

Já faz mais de um ano que retornei ao trabalho. Logo devo estar de férias. Estou precisando, não pelo HIV, mas para me energizar. Quanto ao trabalho? Estou bem, obrigado! Se existe discriminação? Não sei, não me dei conta deste pequeno detalhe. Meu período de limbo, introspecção já passou. Hoje me deixo hipnotizar pelos sons, aromas, cores e sabores. Quero sentir a essência da vida.
Quero mais é viver!”

Addison
addison.ss@ig.com.br

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