Conversa Positiva

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Saber Viver Edições Especiais » Conversa Positiva » Conversa Positiva n.02

09/2002

Conviva bem com o seu corpo

As modificações corporais provocadas pela lipodistrofia causam um grande impacto emocional na vida de muitas pessoas com HIV/Aids. Com o auxílio da psicóloga do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids de São Paulo, Valvina Adão, pudemos desvendar algumas questões que trazem enorme sofrimento aos soropositivos e entender que o resgate da auto-estima perdida passa necessariamente por uma redescoberta do corpo.

“Quando comecei a notar que minhas pernas e braços estavam afinando e minha barriga crescendo tive uma sensação horrível. Ficava me olhando no espelho e via que a cada dia meu corpo se modificava. Meus conhecidos na rua viviam me perguntando porque eu estava tão magra, se eu estava doente. Eu ficava completamente arrasada. Não tinha mais vontade de sair de casa, não queria que as pessoas me vissem”. Amélia*, 39 anos

O maior problema que a lipodistrofia traz para uma pessoa está ligado à perda de identidade. O corpo é parte fundamental da nossa identidade, que vai se construindo desde a primeira infância. Quando você se olha no espelho e não se reconhece mais, porque a imagem que você vê é de um corpo e um rosto que você não aceita como seus, o impacto emocional é muito grande. No processo de envelhecimento, que também costuma ser desagradável para muitas pessoas, as idades física e mental andam juntas. No caso da lipodistrofia, você observa uma transformação corporal da noite para o dia, sem nenhum vínculo com a idade cronológica. Claro que o sofrimento é infinitamente maior.

A segunda parte do problema ocorre quando as outras pessoas passam a estranhar e perguntar o que está acontecendo com você. Como reação imediata, quase todos os soropositivos relatam que passam a evitar os encontros sociais e, assim, experimentam sentimentos de extrema solidão e tristeza.

“Não tive problemas em começar a tomar os anti-retrovirais, mas, quando percebi que estava emagrecendo e que minha fisionomia estava mudando, disse para minha médica que, se continuasse assim, eu não iria mais tomá-los. O que adianta estar com os exames todos ótimos e por fora me sentir horrível, odiar meu corpo, não querer sair, ter vergonha de ir à praia, de tirar a roupa na frente dos outros?”. Murilo, 46 anos

A lipodistrofia também interfere na sexualidade dos soropositivos. Não se sentir atraente pode fazer com que você se afaste do parceiro ou não queira investir em novos encontros afetivos.

Com tantos problemas emocionais provocados por este efeito colateral é fácil entender porque muitos soropositivos sentem vontade de abandonar o tratamento anti-retroviral, mesmo sabendo racionalmente o quanto esta atitude pode causar prejuízos à saúde.

Quando estamos com a auto-estima baixa, fica muito mais difícil enfrentar todas as barreiras que envolvem o viver com Aids. Alguns médicos não dão a devida importância a esses sentimentos. Insista em conversar com seu médico sobre como você se sente em relação à terapia. Peça a ele para lhe indicar caminhos que possam melhorar sua qualidade de vida. Procurar a assistente social ou a psicóloga do local onde você faz tratamento pode resultar em uma enorme melhora do seu estado de espírito.

“Depois que eu comecei a malhar, me olhava no espelho todos os dias. Com o tempo, fui notando diferenças. Em seis meses de musculação, vejo que minhas pernas e nádegas aumentaram. Até vieram me dizer que eu estava mais gordinha, com a bunda empinada. Eu me senti ótima!”. Amélia*

“Hoje, resolvi cuidar mais de mim. Faço musculação, ginástica facial, bioenergética e oficina de sexualidade. Voltei a usar sunga na praia e agora percebo que quando alguém me olha na rua é porque pode estar a fim de mim. Enfrentar a lipodistrofia é uma questão de postura. Por que andar de ombro curvado ? Aos 46 anos, não posso pensar que vou ficar igual ao que eu era antes da lipodistrofia ou da Aids”. Murilo

O aumento da auto-estima é, sem dúvida, o principal benefício alcançado por quem pratica atividade física. Exercitando-se, você sai da inércia, se responsabiliza por sua saúde, percebe-se mais bonito e feliz, mas é preciso também se libertar da busca ansiosa e obstinada pelo modelo físico ideal.

Para a psicóloga Valvina Adão, quem pensa em solucionar a questão da lipodistrofia apenas aumentando os músculos está tocando somente na superfície do problema. “Eu entendo que os exercícios físicos funcionam como uma motivação necessária, mas acredito que a pessoa só irá sentir-se satisfeita consigo mesmo se ela se reconhecer em uma nova realidade. Isso só acontece se houver uma modificação interna e externa”, afirma a psicóloga. Em seu trabalho, com uma equipe multidisciplinar, Valvina busca ajudar a pessoa soropositiva a reconstruir sua identidade. “Trabalhamos com a forma de andar, de falar, de mastigar, exercitamos a respiração, a região pélvica, o cheiro, o toque. Queremos resgatar sua sensualidade em relação à vida”, diz ela. O objetivo não é reconstruir uma imagem antiga, que remeta ao passado, mas construir uma nova imagem, levando em conta todas as experiências vividas.

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