Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids

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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Edições Especiais » Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids » Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids n.01

01/2004

Crianças e adolescentes no fórum de ONG/Aids-SP. Articulação, formação e construção de caminhos

Elizabete Franco Cruz
Psicóloga, doutoranda GEISH/FE/UNICAMP, assessora de projetos e
ativista do GIV Grupo de Incentivo à Vida, coordenadora do GT de
crianças e adolescentes do Forum de ONG AIDS de São Paulo e Profa.
Universidade São Marcos

No ano de 2001, o Fórum de ONG aids de São Paulo criou um Grupo de Trabalho voltado para a discussão da problemática de criança e adolescente vivendo e convivendo com HIV/aids. Esse grupo é formado por ONG aids vinculadas ao Fórum que desenvolvem ações de prevenção às DST HIV/aids e de apoio a crianças e adolescentes vivendo e convivendo com HIV/aids.

Uma das iniciativas do grupo foi a realização do Projeto Encontro, que articulou diferentes atores da sociedade civil (incluindo crianças e adolescentes).

O Projeto Encontro teve como objetivo o empoderamento e melhoria da qualidade de vida de crianças e adolescentes vivendo e convivendo com HIV/aids no estado de São Paulo. Suas metas foram contribuir para o fortalecimento de crianças e adolescentes que vivem e convivem com HIV/aids no estado de São Paulo para o enfrentamento da vida e da epidemia; incrementar a qualidade de atenção oferecida por profissionais da saúde, educação, voluntários e familiares de crianças e adolescentes vivendo e convivendo com HIV/aids; combater o preconceito, estimular a inclusão social de crianças e adolescentes vivendo e convivendo com HIV/aids.

Para atingir suas metas, o projeto propôs, no primeiro ano do seu desenvolvimento, um conjunto de atividades: Festa Junina com ênfase na diversidade, Workshop para profissionais e voluntários, Workshop para familiares e cuidadores e Encontro de Crianças e Adolescentes Vivendo e Convivendo com HIV/aids.

O projeto reuniu cerca de 700 pessoas na festa junina, 100 profissionais e voluntários no workshop, 350 crianças (40 % soropositivas) e 150 familiares no dia do Encontro. Contamos com a contribuição de 70 voluntários, que ajudaram no desenvolvimento das atividades.

Esta iniciativa impactou positivamente a vida de crianças e adolescentes vivendo com HIV/aids de diferentes maneiras, mas principalmente através dos familiares, que tiveram espaço para repensar suas relações com crianças e adolescentes, principalmente percebendo a importância do diálogo e do respeito.

Exemplo: uma mãe chorou no intervalo do almoço porque percebeu que não vinha tratando sua criança com respeito e franqueza, estava emocionada por descobrir que podia estabelecer a relação com sua filha baseada em novos parâmetros. Além disso, percebeu que sua dificuldade era compartilhada por muitas pessoas.

• Dos profissionais e voluntários, que tiveram oportunidade de rever sua prática e ficaram sensibilizados para a humanização do atendimento e maior respeito com as perspectivas e direitos das crianças e adolescentes. O depoimento de um profissional na ficha de avaliação do workshop dizia o seguinte: “trabalho com aids há seis anos e nunca fiquei tão sensibilizado para a questão da criança e do adolescente como fiquei neste encontro”.
 Do exemplo de solidariedade oferecido pelos voluntários.
 Da convivência entre crianças e adolescentes soropositivos e soronegativos e da oportunidade de discussões sobre convivência, prevenção, solidariedade e amizade.
 Da vivência (e não do discurso) da diversidade num espaço onde reunimos pacífica e respeitosamente adultos, crianças, adolescentes, velhos, soropositivos, soronegativos, familiares, voluntários, negros, brancos, asiáticos, homens, mulheres, homossexuais, heterossexuais de diferentes pertencimentos econômicos.
 Da construção de um espaço onde pessoas vivendo com aids foram tratadas como sujeitos com direitos e dignidade.

Além disso, todos nós – crianças, adolescentes e adultos – vivemos com emoção a confecção de um laço gigante preenchido com a produção artística das crianças e adolescentes.

Quem esteve presente e observou o cuidado e carinho que as crianças demonstravam quando seguravam seus “paninhos” para colocar no laço, sabe que o projeto cumpriu seu papel despertando a solidariedade e respeito com o outro.

Em 2002, nosso ritmo foi um pouco menor, em decorrência de problemas enfrentados pelas principais lideranças do grupo; mesmo assim, conseguimos repetir a festa junina e manter as reuniões mensais.

No ano de 2003, novamente voltamos com força total. Uma das avaliações que fizemos após o Projeto Encontro foi a necessidade de ampliar a formação técnica do movimento social, com vistas à melhoria da qualidade do atendimento. Neste sentido, estabelecemos uma parceria com o GEISH-Grupo Interdisciplinar de Sexualidade Humana da Faculdade de Educação da UNICAMP e, sem nenhum financiamento, viabilizamos um curso mensal para representantes de 15 instituições ligadas ao Fórum. Nestes encontros, temos realizado leituras e debates sobre temas como concepções de infância, adolescência, sexualidade, relações de gênero, participação e ações educativas junto à população atendida.

O curso contribuiu para a adesão de mais pessoas ao GT, para o fortalecimento do grupo e permitiu que pudéssemos delinear as iniciativas para 2004, quando manteremos o curso, desenvolveremos novamente o Encontro para crianças e adolescentes, os workshops para profissionais e voluntários, a festa junina, um seminário sobre instituições de apoio para crianças e adolescentes e uma publicação.

A experiência do GT tem sido enriquecedora em diferentes aspectos. Um deles é comprovar o envolvimento, compromisso e seriedade de pessoas e entidades da sociedade civil. Outro ponto fundamental é observar que, paulatinamente, vamos conseguindo contribuir para uma mudança de mentalidades, tentando fazer com que as ações caminhem de uma perspectiva predominantemente assistencialista para uma perspectiva de direitos, que inclui a formação técnico política dos trabalhadores e voluntários deste campo. Fundamental ainda tem sido o percurso para subsidiar a revisão das concepções de infância e adolescência e o incentivo à participação da população infanto-juvenil nas ações e decisões.

No entanto, nossa maior vitória é que conseguimos manter uma articulação de ONG e dar destaque ao tema da infância e adolescência na pauta política do movimento de luta contra a AIDS, no Estado de São Paulo. Ainda é pouco, porque temos consciência dos muitos desafios que temos pela frente, incluindo tocar no que aparentemente é intocável: a perspectiva adultocêntrica que ainda vigora nos serviços de saúde, ONGs, escolas, comunidades – e ampliar o raio de ação e articulação com os outros fóruns do país. O caminho está sendo trilhado, e, como caminhantes, estamos acreditando que o caminho se faz ao caminhar…

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