Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids

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Saber Viver Edições Especiais » Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids » Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids n.02

03/2008

Criar parcerias: o segredo do sucesso

Pelos corredores, durante as reuniões de equipe, entre os diferentes serviços do hospital ou com organizações não-governamentais… Trabalhar em parceria é a melhor maneira de garantir um bom atendimento ao jovem soropositivo.

FORTALEZA
NO HOSPITAL SÃO JOSÉ, EQUIPE INTERAGE SEM HORA MARCADA

Para obter bons resultados na assistência aos jovens soropositivos, a equipe do ambulatório de HIV do Hospital São José multiplica, divide e soma saberes. Sem formalidades. Basta sair de sua sala e buscar o colega na sala ao lado ou compor uma rodinha no corredor.

“Quando sinto que meus argumentos se esgotam com um paciente, recorro à visão de outras categorias profissionais”, diz a enfermeira Joire Barbosa. Socorro Monte, também enfermeira, completa: “Muitas vezes pedimos a um colega para participar da consulta”. Para a infectologista Telma Queiroz esse suporte interdisciplinar é fundamental para o paciente jovem. “Um olhar diferenciado ou uma palavra dita de uma nova maneira podem fazer diferença”, diz ela. “O aconselhamento do médico, do assistente social, da psicóloga e da enfermeira funciona de modo complementar. Para o paciente é uma riqueza!” Ela cita o exemplo do jovem que, prestes a iniciar a terapia antiretroviral, é encaminhado para a psicóloga: “Quando ela sente que ele está preparado, me avisa”.

Enquanto não conseguem retomar as reuniões semanais de equipe, os profissionais continuam trocando experiências informalmente. Pelo que se vê no Hospital São José, está provado que conversa de corredor traz resultados.

BELO HORIZONTE
DOIS SERVIÇOS UNIDOS PELO MESMO OBJETIVO, NO CTR-DIP DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS

A entrada na adolescência das crianças atendidas na pediatria do Centro de Treinamento e Referência em Doenças Infecto-Parasitárias (CTR-DIP) do Hospital das Clínicas da UFMG criou novas demandas para as quais a equipe não se sentia preparada. “À medida que os meninos cresciam, a adesão ao tratamento piorava”, conta Flávia Faleiro, pediatra.

Em 2001, a equipe pediu ajuda a um outro serviço do hospital, a Saúde do Adolescente, e a parceria continua até hoje. “Unimos esforços para minimizar as dificuldades no acompanhamento dos adolescentes”, conta Patrícia Guimarães, pediatra especializada em saúde do adolescente. “As consultas tradicionais não são suficientes para uma boa abordagem”, explica.

Um dos principais frutos da parceria é o grupo de adolescentes, coordenado por Patrícia e pela psicóloga Júlia Mesquita. A infectologista Flávia acredita que tanto profissionais quanto pacientes foram beneficiados. “O grupo fortaleceu a adesão do jovem ao serviço e ao tratamento e a equipe pode aprimorar sua assistência. Essa parceria foi enriquecedora para todos”, comemora.

MANAUS
ONG É FUNDADA POR PROFISSIONAIS DO HOSPITAL TROPICAL

Odia-a-dia atribulado dos profissionais de saúde do Hospital Tropical não impediu que alguns deles se reunissem para fundar, em 1999, a Casa Vhida, Organização Não-Governamental que dá suporte a crianças e adolescentes infectados pelo HIV, em acompanhamento na pediatria do hospital. “Todos os que necessitam recebem alimentos, roupas, transporte, apoio escolar, além de suporte psicológico e jurídico”, conta Solange Dourado, pediatra e diretora-presidente da Casa Vhida.

As crianças e adolescentes cadastrados na ONG também podem contar com uma gama de atendimentos aos quais têm difícil acesso no hospital, como fisioterapia, cardiologia, oftalmologia e exames específicos. Tudo isso graças a convênios firmados com profissionais voluntários. A Casa oferece ainda estadia para os que moram no interior e vêm à capital para se tratar e moradia para os que não tem com quem ficar. “Nossos pacientes são muito carentes e a urgência de cuidar das crianças de forma integral foi o que nos impulsionou a criar a Casa”, diz Solange.

NITERÓI
HOSPITAL MUNICIPAL CARLOS TORTELLI E GRUPO PELA VIDDA-NITERÓI: MAIS QUE UMA PARCERIA

Os profissionais de saúde que atendem adolescentes portadores do HIV no Hospital Municipal Carlos Tortelli, em Niterói-RJ, são recrutados por uma Organização Não-Governamental, o Grupo Pela Vidda-Niterói. Quem trabalha no hospital tem carteira assinada em regime de CLT, mas é pago pela Fundação Municipal de Saúde. O convênio mostra ser mais que uma parceria.

Por um lado, o Pela Vidda trabalha para a seleção, a sensibilização e a atualização dos funcionários. Por outro, mantém uma ouvidoria junto aos pacientes. Para Inácio Queiroz, diretor de relações externas da ONG, o dinamismo é o principal objetivo do convênio: “Quando falta algo essencial e que não seja muito caro, como um bebedor, captamos verba na sociedade civil para comprar e nem se faz uma licitação”, exemplifica.

ONG capacita profissionais
O convênio, que já funcionava com o ambulatório de adultos, se estendeu para o ambulatório de pediatria em 1993, quando este foi inaugurado. Atualmente, a equipe da pediatria conta com seis médicos, uma nutricionista, uma enfermeira, um técnico em enfermagem, uma
psicóloga e três assistentes sociais.

A assistente social Virgínia Morais lembra que, antes do convênio, era comum profissionais de saúde pedirem transferência para outro serviço por medo de serem infectados: “O treinamento no Pela Vidda é fundamental, porque para trabalhar com portador de HIV o profissional tem que ter um perfil específico”, afirma ela. “Além disso, algumas pessoas trabalham bem com adultos, mas ficam com pena, por exemplo, de dar injeção em criança”, observa Virgínia, que é funcionária do Hospital Municipal Carlos Tortelli e voluntária do Grupo Pela Vidda.

HOSPITAL MUNICIPAL CARLOS TORTELLI
1.022 pacientes com HIV/aids
32 adolescentes acompanhados na pediatria, sendo três de transmissão horizontal.
Adolescentes acompanhados no ambulatório de adultos não estão contabilizados

SÃO PAULO
MÚLTIPLOS PARCEIROS FORTALECEM O TRABALHO DO SAE CIDADE LÍDER II

Para obter bons resultados, todas as parcerias são importantes. A equipe do Serviço de Atenção Especializada (SAE) em DST/Aids Cidade Líder II sabe muito bem disso. Juntos há 11 anos, a excelente afinação entre os profissionais – aliada à participação dos usuários – no planejamento e nas atividades do serviço, dá o tom do trabalho desenvolvido.

“Contar com uma equipe interdisciplinar há tempos atuando em conjunto é um privilégio, mas a colaboração dos usuários tem sido fundamental para a manutenção da qualidade do atendimento”, destaca a psicóloga Cristina Lara. O xodó da equipe é a horta cultivada no quintal do SAE, que garante um almoço nutritivo para funcionários e usuários.

Grupo de Incentivo à Vida: contribuição de ONG ultrapassa a assistência
Para fortalecer ainda mais o trabalho do SAE, especialmente em relação aos jovens, a contribuição da Organização Não-Governamental Grupo de Incentivo à Vida (GIV), que possui ampla experiência na área adolescência e aids, é muito bem-vinda. Além de incentivar a criação do grupo de jovens do serviço, é no GIV que os agentes de prevenção, que hoje lideram o grupo, constroem sua formação. “A participação dos jovens do SAE no GIV e em outras ONGs tem trazido muitos benefícios, pois contribui com novas propostas, idéias e informações. Apesar de não existir oficialmente, a parceria entre o SAE e a ONG existe na prática”, diz Cristina.

Para a psicóloga Bete Franco, do GIV, a parceria com o serviço de saúde tem um papel importante que ultrapassa a dimensão da assistência. “A ONG se configura como um espaço de pertencimento para o jovem, diferente do serviço e complementar”, explica. Ela acredita e trabalha para que as ONGs ampliem sua participação nas políticas públicas. “Nosso desafio agora, para melhorar a qualidade de vida de crianças e adolescentes que vivem com HIV/aids, é fomentar a discussão sobre políticas inter-setoriais, para além da saúde, como por exemplo, oportunidade de trabalho, questão de moradia, alimentação etc. Nós, da sociedade civil, temos o compromisso histórico, político e
ético de pautar tudo isso”, enfatiza.

SERVIÇO DE ATENDIMENTO ESPECIALIZADO EM DST/AIDS CIDADE LÍDER II
2.487 pacientes com HIV/aids
43 adolescentes (23 acompanhados na pediatria e 20 no ambulatório de adultos)

 

FALA, JOVEM!

SÃO PAULO
Karina, 20 anos, e Thompson, 20 anos, lideram as discussões do grupo de jovens do SAE Cidade Líder II e atuam em diversas ONGs.

tratamento
“O que mais atrapalha a adesão ao tratamento é o preconceito. Ouvimos vários relatos no grupo sobre isso”. Thompson

“Enquanto somos crianças e nossos cuidadores nos dão o remédio, é mais fácil. Mas agora, quando vamos dormir na casa de um colega, ou mesmo na escola, começa a complicar. É ruim ter que tomar tanto remédio todo dia”. Karina

preconceito
“Em uma oficina sobre HIV/aids em um centro profissionalizante, conversamos sobre discriminação e os alunos foram super preconceituosos. Ninguém sabia que eu era soropositiva. No dia seguinte, quando me apresentei como soropositiva, eles não acreditaram. Infelizmente ainda há a fantasia do HIV de antigamente”. Karina

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