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Saber Viver » Saber Viver n.41

10/2007

Cuidando de sua saúde sem anti-retrovirais

“Acompanho a Saber Viver desde que soube que sou soropositiva, há três anos. Até hoje não preciso tomar anti-retrovirais, mas muitas vezes me sinto tratada como alguém que está apenas aguardando a hora de iniciar a medicação, como se não houvesse mais nada a fazer. Será que é só isso?”.

VERA, SÃO PAULO – SP.

A mensagem acima, enviada à Saber Viver, confirmou a importância de abordar, na revista, questões por que passam muitos de nossos leitores: soropositivos com bom estado imunológico que, por recomendação médica, não precisam tomar os antiretrovirais. Motivo para comemorar? Sem dúvida, eles têm. Afinal, é muito bom poder viver sem remédios. No entanto, essa “espera” a que Vera se refere, sua expectativa – e da equipe de saúde – a cada resultado de exame ou a cada gripe mais forte, gera uma tremenda angústia e uma saudável pergunta: Como deixar de ser apenas paciente e fazer algo por minha saúde?

Superando antigos conceitos
É claro que podemos fazer muito por nossa saúde, seja tomando ou não os anti-retrovirais! Manter-se bem informado é o primeiro passo. “Muita gente ainda pensa que por ter o HIV, vai morrer logo. Isso a faz deprimir e se isolar, o que faz mal para a saúde de qualquer pessoa”, diz o infectologista Gustavo Magalhães, do Hospital Universitário Pedro Ernesto e do Posto de Saúde de Santa Cruz, no Rio de Janeiro. É verdade que o HIV deixa o organismo mais vulnerável a algumas doenças, mas o processo é lento e, quando for necessário, os medicamentos vão ajudá-lo a se defender. Atualmente, os anti-retrovirais são altamente eficazes e têm menos efeitos colaterais do que os da década de 90.

Acompanhamento médico é fundamental
O que determina o início da terapia anti-retroviral é a contagem de células CD4, que são o alvo do HIV no organismo. “Cada indivíduo reage de um modo particular ao ataque do HIV”, explica Gustavo Magalhães. “Por isso os exames de controle são essenciais”. O médico aconselha às pessoas que estão com o CD4 elevado a fazer ao menos dois exames por ano. Já os que estão com o CD4 mais baixo devem realizar exames com uma freqüência maior. Não faltar às consultas médicas também é muito importante, assim como ser assistido por outros profissionais, como nutricionista e professor de educação física. “Uma alimentação saudável e a prática de exercícios físicos regulares (dentro do limite de cada indivíduo) podem fortalecer o sistema imunológico e adiar a necessidade dos anti-retrovirais”, revela Gustavo.

Cuidados com a alimentação
A nutricionista Marlete Pereira da Silva, do Hospital da UFRJ, recomenda uma alimentação balanceada a todos os que querem manter uma vida saudável. Evite comidas gordurosas e capriche nos legumes, verduras, frutas, iogurtes e alimentos integrais. “Pessoas com histórico familiar de diabetes, hipertensão ou colesterol alto devem ter um cuidado maior e seguir uma dieta com baixos teores de açúcar e gordura, com acompanhamento nutricional”, alerta Marlete.
Para se proteger contra doenças parasitárias e infecções intestinais, a nutricionista aconselha mais alguns cuidados: evite carnes cruas e mal passadas, dispense a maionese e preste atenção à higiene dos alimentos.

Aceitar o diagnóstico e seguir em frente
A busca por mais qualidade de vida compensa. Vera conta que, quando soube do HIV, teve crises de pânico e depressão. Mas, com ajuda médica e nutricional, já retomou seu ritmo normal. “Hoje pratico exercícios, participo de uma ONG e tento me equilibrar com homeopatia e terapia”, diz ela.
Gisela Cardoso, psicóloga do Hospital da UFRJ, destaca que, para uma vida mais saudável, o primeiro passo é aceitar o diagnóstico. “Quem não admite ser soropositivo, acaba deixando de se cuidar, faltando às consultas e aos exames”, diz ela, acrescentando que ter um acompanhamento psicológico e participar de um grupo de apoio pode auxiliar muito.

Mantendo a “cuca fresca”
Marclei é soropositivo há nove anos. Assim que descobriu o diagnóstico, tomou anti-retrovirais por quase dois anos, depois parou, por recomendação médica. Ele conta que dribla a ansiedade de ter que voltar a tomar a medicação sendo produtivo e otimista. “Vejo o lado positivo da vida: se tiver que começar com os remédios, sei que serão mais potentes e modernos do que os do passado”, diz ele, que é professor e membro da ONG carioca ABIA – Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids. “Aprendi a lidar com minhas limitações que, afinal, fazem parte da vida de todo o mundo”, revela Marclei. Wiliam, de 20 anos, descobriu ser portador do HIV no início de 2007. “Tenho vários amigos que tomam remédio e botei na minha cabeça que uma hora eu vou ter que tomar também”, diz ele, que freqüenta as reuniões de jovens soropositivos do Projeto Pensando no Futuro, no Hospital dos Servidores do Estado, no Rio de Janeiro. O grupo está construindo, junto com a equipe da Saber Viver, a nova edição da revista Saber Viver Jovem.
Mesmo encarando com tranqüilidade a espera pelo anti-retroviral, Wiliam segue as dicas da médica para adiar a hora de ter que tomá-los. Evita beber e come pouca gordura: “Minha vida é só trabalho”, exagera. Ele só tem um receio: conciliar a disciplina exigida pelos medicamentos com os plantões como
segurança de uma firma particular: “Trabalho das 18h às 6h, cada dia num lugar diferente. Por isso tenho medo de não conseguir tomar os remédios nas horas certas”, explica.

Invista no seu bem-estar
Já para nossa leitora Vera, a perspectiva de tomar os anti-retrovirais é assustadora. “Parece que os médicos estão sempre me preparando para começar com os remédios na próxima consulta”, diz ela. “Eles só se preocupam com os números dos exames. Acho isso triste”.
Você tem razão, Vera, nossa vida é bem mais do que números numa folha de exame. Mas deixe a preocupação de lado, invista no seu bem-estar e acredite: é possível levar uma vida saudável, mesmo tendo o HIV.

QUANDO COMEÇAR A TERAPIA ANTI-RETROVIRAL
Segundo o Ministério da Saúde, deve-se iniciar a terapia antiretroviral quando o nível de CD4 estiver menor que 200 ou se houver sintomas importantes.
Pessoas com CD4 entre 200 e 350 devem ser avaliadas, com critério, pelo médico. Quem está com o CD4 maior que 350 e não apresentar sintomas, não deve iniciar a terapia.

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