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Saber Viver » Saber Viver n.14

02/2002

Dando a volta por cima

Como algumas pessoas saíram da depressão e reconquistaram a alegria de viver depois da infecção pelo HIV

Para alguns, pode parecer impossível, mas várias pessoas reconquistaram a alegria de viver depois de muito sofrimento decorrente da descoberta do vírus da Aids em seus corpos.

Babi*, uma baiana de 28 anos, sempre foi alegre a brincalhona, até descobrir, em 1998, que estava infectada pelo HIV. A depressão foi tão forte que arrancou do corpo de Babi 29 quilos em apenas alguns meses. Ela acredita ter sido infectada por um namorado que terminou a relação sem grandes explicações meses antes de ela receber o resultado do exame. Ela ficou tão fraca que precisou usar uma cadeira de rodas. “Antes, eu pesava 58 quilos. Mas naquela época cheguei aos 29 quilos e o meu cabelo caiu. Os meus amigos me olhavam e saíam correndo chorando. Até eu acordar para vida, foram 7 meses de sofrimento. Eu não conseguia acreditar que era portadora do vírus da Aids”, conta. Babi usa como referência para sua volta por cima a leitura de um livro sobre a vida de um rapaz tetraplégico, que fez com que ela reavaliasse o seu comportamento. “Eu pensei: existe tratamento para o meu problema. Então, comecei a me alimentar melhor e a resgatar a minha vontade de viver”.

Encarando a Aids de outra forma
Em 2000, uma amiga a convidou para participar de um encontro de pessoas vivendo com HIV/Aids, em Campina Grande (Pb). Quando Babi chegou no evento e observou que havia muitas pessoas vivendo com HIV, começou a encarar a epidemia de uma outra forma. “Hoje, o HIV não me assusta mais. Eu posso dizer que conquistei qualidade de vida. Eu vivo, curto a minha vida e faço tudo que eu fazia antes. Apenas observo os meus limites. Tomo a minha medicação, porque ela é a minha bateria. Me alimento bem melhor. É lógico que eu como pizza e tomo a minha cervejinha, mas faço isso tudo com moderação e me sinto mais disposta e feliz. Trabalho no Grupo de Apoio à Prevenção à Aids (Gapa) da Bahia e me sinto realizada com o meu trabalho. Agora eu sei que a recuperação depende muito mais de nós. Para isso, basta a pessoa acreditar que ela pode”, relata Babi.

“Superei o trauma de estar com HIV” 
Epifânio Corrêa de Souza, carioca de 38 anos, também sofreu quando soube que era soropositivo. Tinha muito medo de que as pessoas descobrissem e o descriminassem. Ficou durante 2 anos em abstinência sexual. Não tinha ânimo para encarar a vida. Assim como Babi, Epifânio conseguiu dar os primeiros passos para uma transformação quando conheceu a Rede de Pessoas Vivendo com HIV/Aids (RNP) do Rio de Janeiro. “Eu participei de um grupo de ajuda mútua e percebi que existiam muitas pessoas com o mesmo problema que o meu e estavam conseguindo superá-lo”. Ele participou de um encontro nacional da Rede em agosto de 1997 e ficou impressionado com o astral das pessoas que lutavam para conseguir melhores condições de vida para as pessoas infectadas. Hoje, Epifânio é presidente de honra de uma ONG (A Gatahi, que funciona no Hospital de Ipanema, no Rio de Janeiro) e membro do conselho fiscal da RNP da cidade. “Convivendo com essas pessoas eu consegui superar o trauma e perceber que o fato de eu estar vivendo com HIV não significava que a vida acabou”. Epifânio acredita que conversar com amigos e manter a mente ocupada, desenvolvendo algum tipo de atividade, são as principais dicas para afastar a depressão gerada pelo diagnóstico positivo para o HIV. “Acho que todas as pessoas têm que acreditar que podem transformar suas vidas”, conclui Epifânio.

“Eu sentia pena de mim mesma”
Marina*, carioca de 22 anos, se vangloria de ter transformado a sua vida depois que descobriu ser soropositiva. Ela recebeu o resultado do exame durante uma internação numa clínica de recuperação de dependentes químicos em São Paulo. Depois desse dia, a vida de Marina se transformou em sucessivas crises de depressão profunda. Mesmo com o apoio recebido de amigos e profissionais durante a internação, Marina negava o fato de estar infectada pelo HIV. Planejava sair da clínica, voltar a se drogar e morrer. Foi encaminhada a um infectologista paulista que, depois de estar com os exames, receitou a ela os anti-retrovirais. Mais problemas. Marina teve vários efeitos colaterais e a depressão aumentou. “Eu sentia muita pena de mim mesma e não conseguia enfrentar a epidemia”, conta. Chegou a freqüentar uma ONG paulista, mas não conseguiu permanecer lá por muito tempo. Quando voltou para Rio, depois de ter sido dispensada da clínica, começou a se sentir melhor. “A minha família e os meus amigos me deram um novo ânimo”. Marina começou a freqüentar uma reunião de Narcóticos Anônimos específica para soropositivos. A partir daí, a sua vida começou realmente a se transformar.

“Hoje me sinto mais forte do que o vírus”
Marina conheceu um rapaz que a levou para desenvolver um trabalho voluntário junto a crianças no projeto ConvHIVendo, no Hospital Gafrée Guinle (Rio de Janeiro). Ela ainda sentia dificuldade em se aceitar soropositiva. Começou a namorar esse rapaz que um dia a convidou para participar de um treinamento no Grupo Pela Vidda Rio de Janeiro. “Foi perfeito, porque eu estava precisando ter informações sobre a epidemia. Depois do treinamento, eu senti uma grande mudança em mim. Hoje eu me sinto mais forte do que vírus. Trabalho no Disque-Aids do Pela Vidda e ainda sou voluntária do grupo. O Pela Vidda e o Gafrée se tornaram a minha família. Eu fiz amigos de verdade. Hoje, eu sei que a vida é maravilhosa. Eu sempre digo às outras pessoas para não se isolarem. Busquem ajuda em uma ONG ou em um grupo de auto-ajuda. Busquem informação. Acreditem em vocês. Isso é fundamental”, diz Marina que foi aprovada recentemente para o curso de dança Angel Vianna. Mais uma conquista dessa menina cheia de vida.

Entrar em sintonia com outras pessoas
Para a psicanalista Zulma Guimarães, membro da equipe de aconselhamento do Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) do Hospital Escola São Francisco de Assis no Rio de Janeiro, a rede de solidariedade que existe em torno das pessoas infectadas pelo HIV é o melhor remédio para superar qualquer depressão. “Quando você se aproxima de algumas pessoas que estão passando por problemas semelhantes aos seus, você se fortalece e percebe que não está sozinho”. Zulma, que atende várias pessoas soropositivas no CTA, afirma que quando a pessoa recebe o resultado positivo para o HIV, sente-se absolutamente isolado. “Cada um possui uma forma de encarar esse momento. Mas a maioria acredita, inicialmente, que está sendo atingida por uma coisa poderosa, que a torna diferente das outras pessoas, sobre a qual não se pode fazer nada”. Para combater esse efeito, a psicanalista aposta na sintonia entre as pessoas: “O ser humano é social e solidário. Apesar do preconceito que ainda envolve os infectados pelo HIV, existem muitas redes de solidariedade, como ONGs e grupos que oferecem acompanhamento psicológico”. Porém, Zulma alerta que muitos soropositivos, ainda impactados com o resultado do exame, não conseguem buscar ajuda. “Seria interessante se os soropositivos que conseguiram dar a volta por cima pudessem se aproximar das outras pessoas em salas de espera dos hospitais, por exemplo, e conversar. Às vezes é muito difícil para uma pessoa deprimida buscar ajuda e uma simples conversa pode desencadear uma reação positiva naquela pessoa”, propõe a psicanalista.
* Nome fictício

Lugares para trocar experiência de vida

Bahia – Gapa/Ba – (71) 328-4270
Centro Baiano Anti-Aids – (71) 322-2552

Brasília – Gapa /DF – (61) 322-0000
e 225-6373

Ceará – RNP/Fortaleza tele/fax (85) 283-6724

Minas Gerais – Gapa/MG – (31) 271-2126

Rio de Janeiro – Pela Vidda Rio
(21) 2518 3993 – RNP/RJ (21) 3899 5477

Rio Grande do Sul – Gapa/RS
(51) 3221-6363

São Paulo – GIV (11) 5084-0255
RNP/Sorocaba (11) 3825-8692


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