Publicações

  • Fonte normal
  • Aumentar fonte
  • Adicionar a favoritos
  • Imprimir
  • Envie para um amigo:





Saber Viver » Saber Viver n.11

08/2001

De cara nova

Algumas pessoas buscam na medicina estética a solução para as transformações físicas causadas pela lipodistrofia

A perda de gordura em determinadas partes de corpo, principalmente na face, causada pela lipodistrofia vem fazendo com que algumas pessoas busquem alternativas para resgatar a aparência. Para o corpo, a utilização de aminoácidos associada a exercícios físicos traz bons resultados. O grande desafio, porém, está na face. Para Beatriz Moritz Trope, responsável pelo ambulatório de Dermato/Aids do Serviço de Dermatologia do Hospital Clementino Fraga Filho (UFRJ), os efeitos psicológicos causados pelo emagrecimento do rosto geralmente são graves e afetam a auto-estima dessas pessoas. “O impacto psicossocial que a lipodistrofia traz aos pacientes com HIV só é comparável ao estigma que o Sarcoma de Kaposi e a coloração acinzentada da pele geravam entre os próprios pacientes e o restante da sociedade no início da epidemia”, analisa a dermatologista.

Técnicas para preenchimento da face 
Dermatologistas e cirurgiões plásticos começaram a adequar técnicas de preenchimento facial em soropositivos com substâncias usadas para fins estéticos. Essas substâncias são divididas em dois grupos: absorvíveis e não-absorvíveis. No grupo das absorvíveis, a utilização de ácido hialurônico é mais comum. Porém, como esse tipo de substância é absorvida pelo organismo, é necessário reaplicá-la de 4 em 4 meses em média. Isso torna o tratamento muito caro e pouco prático.

Entre as técnicas não-absorvíveis, o exemplo mais comum é o metacrilato – substância formada por micro-partículas de acrílico que são injetadas embaixo da derme. O dermatologista Márcio Serra estuda há cerca de 2 anos várias formas de preenchimento facial e hoje ele é considerado um dos especialistas no mundo em metacrilato. “Por se tratar de pequenas partículas, elas possuem uma capacidade de aderência muito boa e o resultado fica muito próximo ao natural”, esclarece o dermatologista. Porém, uma sessão completa com esse produto, incluindo alguns retoques, custa em média R$ 750, um valor que só torna este tratamento acessível a poucos. Além disso, trata-se de um implante permanente, ficando no corpo a vida toda. “Alguns estudos vêm mostrando que a gordura perdida com a lipodistrofia não volta. Logo, não existe a possibilidade de o paciente engordar e o rosto ficar desproporcional”, justifica Márcio. Ele afirma que nunca teve nenhum problema de rejeição em seus pacientes utilizando o metacrilato brasileiro. Porém, o dermatologista diz que não pode assegurar, como todo tratamento relacionado à Aids, que daqui a 20 anos as pessoas que utilizaram essa substância não terão problemas.

Exercícios para a face: nova alternativa
O Hospital da Lagoa (RJ) vai realizar um estudo inédito no mundo. A pesquisa pretende analisar como a fisioterapia motora facial orientada por um fonoaudiólogo pode auxiliar no desenvolvimento dos músculos da face em pacientes soropositivos com lipodistrofia. O estudo será realizado em conjunto com os serviços de infectologia e de fonoaudiologia do hospital. “A nossa proposta é observar como determinados exercícios específicos na face podem prevenir ou tratar a lipodistrofia”, explica a chefe do Setor de Infectologia do Hospital da Lagoa, Ely Cortes. A idéia da pesquisa surgiu depois que Ely ficou surpresa ao observar as mudanças no rosto de um de seus pacientes que se submeteu a um tratamento com uma fonoaudióloga: “Eu achei que ele havia colocado algum preenchimento facial. Mas ele só tinha feito alguns exercícios com uma fonoaudióloga para resolver outros problemas”.

Benefícios psicológicos
Há um ano, Bruno* começou a perceber as alterações em seu corpo decorrentes da lipodistrofia. O rosto emagrecido tirou o ânimo de viver desse carioca de 44 anos: “Tinha vergonha de sair na rua. Eu não queria que as pessoas percebessem que eu estava contaminado pelo vírus da Aids. Era como se eu estivesse com o meu rosto marcado”. A reação de Bruno é bastante comum entre as pessoas que desenvolvem os efeitos da lipodistrofia muito acentuados no rosto. Inconformado, ele se informou sobre técnicas de preenchimento da face e começou a guardar dinheiro para se submeter a esse tratamento. “Fui decidido e disposto a mudar aquele rosto. Ao final do tratamento, eu já era outra pessoa”, comemora Bruno que, dois meses após a aplicação com metacrilato, está namorando e voltou a freqüentar locais públicos.

Daniel*, 35 anos, também sentia vergonha de sair na rua por causa do rosto fundo. Optou também pelo preenchimento facial com metacrilato. Morando no Ceará, veio ao Rio especialmente para realizar a aplicação. “No início eu fiquei com medo de deformar o meu rosto, mas acabou dando tudo certo. Sinto que resgatei a minha auto-estima”.

O cirurgião plástico André Finger utiliza várias técnicas de preenchimento facial em pacientes soropositivos e observa como os resultados são importantes para a saúde emocional do paciente. “Uma pessoa com HIV tem receio de ser identificada na rua por causa das transformações em seu corpo. Se você tem um defeito estético no rosto, ocasionado pelos remédios que você utiliza para tratar de uma doença que, infelizmente, ainda acarreta muito preconceito e discriminação, é como carregar o nome Aids na testa”, ressalta André. Para o cirurgião plástico, esses casos deveriam ser considerados reparadores pelos seguros saúde e não puramente estéticos. “Para um tratamento anti-Aids eficiente, é necessário que o paciente tenha auto-estima e uma convivência social plena”. Entretanto, qualquer mudança no esquema dos remédios deve ser vista com muita cautela. “O paciente precisa entender que a mudança de um esquema que está dando certo no combate ao vírus pode trazer sérios problemas à saúde”, alerta Márcio Serra.

Alguns grupos estão se mobilizando para ter acesso a técnicas de preenchimento da face. No Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro, o grupo de auto-ajuda Viva a Vida conseguiu mobilizar um médico a realizar aplicação de metacrilato em pacientes a preço de custo. Alguns membros do Grupo de Incentivo à Vida (GIV) de São Paulo entraram em contato com uma médica paulista que realiza o mesmo tratamento cobrando a eles em suaves prestações.

* Nomes fictícios

Algumas técnicas de preenchimento da face: Vantagens e desvantagens

Enxerto de gordura do próprio paciente – Não é a técnica mais indicada para pessoas soropositivas. A gordura enxertada será reabsorvida pelo organismo. Além disso, essas pessoas não possuem gordura disponível para ser retirada e reaproveitada. Geralmente o acúmulo de gordura desses pacientes está entre as vísceras.

Silicone – Os dermatologistas não costumam indicá-lo para o rosto porque se trata de uma partícula muito grande que não tem uma boa capacidade de aderência.

Metacrilato – Técnica de preenchimento não-absorvível que vem sendo utilizada com freqüência por alguns médicos. O produto adere bem ao rosto, dando uma boa aparência dois dias após a aplicação. Mas é caro e trata-se de um preenchimento permanente.

Ácido Hialurônico – Técnica de preenchimento absorvível. É necessário reaplicá-lo de 4 a 4 meses, o que torna o tratamento um dos mais caros e pouco práticos para o paciente.

 


Compartilhe