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Circulador » Circulador n.05

10/2012

De jovem para jovem

Jovens do RAP da Saúde em Oficina de Graffiti para Prevenção da Dengue e Promoção da Saúde no Adolescentro Paulo Freire.

RAP contribui para promoção de saúde e cidadania

Adolescentes e jovens reunidos para planejar, discutir e executar ações de saúde e cidadania. O Projeto Rede de Adolescentes Promotores da Saúde, RAP da Saúde, aposta no protagonismo juvenil para melhorar a qualidade de vida nas comunidades.

“A ideia é trazer o tema da promoção da saúde para o cotidiano dos adolescentes e jovens, porque entendemos que eles são a principal fonte de troca com outros adolescentes e jovens, formando, assim, uma rede de promotores da saúde que vai aumentando sua trama a partir de conversas com familiares e amigos”, explica Luiza Cromack, da Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro (SMSDC-RJ) e coordenadora do RAP. Lançado em 2007, o projeto é uma iniciativa da Secretaria, por meio da Coordenação de Políticas e Ações Intersetoriais, em parceria com o Centro de Promoção da Saúde (Cedaps). Inicialmente atuou com 60 jovens na Rocinha, Complexo da Maré e Complexo do Alemão. Em 2009, o projeto se juntou à Plataforma dos Centros Urbanos (PCU) do Unicef, iniciativa que visa reduzir as desigualdades que afetam crianças e adolescentes.

“Articulamos as diversas instâncias existentes, como governo, sociedade civil, empresários e mídia, para chegar às comunidades”, explica Luciana Phebo, coordenadora do Unicef – RJ. Para isso, a PCU organiza-se em Grupos Articuladores Locais (GAL), formados por organizações sociais, instituições do poder público e grupos de adolescentes. Com a parceria, todo adolescente comunicador da Plataforma passou a ser também promotor de saúde do RAP. Os adolescentes se envolvem em todo o processo, desde a realização do mapeamento e diagnóstico locais até a execução dos planos de ação. “O trabalho em conjunto proporciona o exercício da cidadania desses jovens”, diz Luciana. As unidades de saúde são importantes âncoras para o RAP que está estruturado em seis pólos: Adolescentro Augusto Boal (CMS Américo Veloso); Adolescentro Paulo Freire (CF Rinaldo de Lamare); CAPS ad Raul Seixas; CF Alemão; PS Décio Amaral Filho; e CMS Masao Goto.

VALE A PENA! “Os jovens trazem novos olhares que os adultos, já engessados em suas práticas profissionais cotidianas, não conseguem ter. No RAP, eles têm oportunidades que outros jovens não têm e podem, assim, chegar a pontos vulneráveis da comunidade”. Luciana Phebo, coordenadora do Unicef – RJ

Criatividade e protagonismo

Hoje, o RAP conta com 150 jovens de 50 comunidades do município do Rio. Os participantes são formados como promotores de saúde através de treinamentos com metodologias participativas. Uma equipe de dinamizadores (jovens mais experientes) e de profissionais apoia este grupo. “Os profissionais jovens são coordenadores de pólos de atuação do RAP, o que facilita o diálogo com os integrantes. São psicólogos, arte-educadores, entre outros”, explica Luiza Cromack.

Juntos, eles realizam atividades em unidades de saúde, escolas e comunidades, visando mobilizar a sociedade para a saúde e cidadania. O coordenador técnico da Plataforma dos Centros Urbanos pelo Cedaps, Fransérgio Goulart, aposta no grupo para a transformação social. “Os jovens já são agentes promotores de saúde dentro das comunidades onde moram, antes mesmo da gestão pública”, afirma. “São eles e as mulheres que fazem o diferencial na comunidade, pois ficam mais tempo nesse espaço, conhecem a dinâmica local”, completa. Para Fransérgio, a criatividade juvenil é mola propulsora de mudanças. “Quando não têm uma atividade cultural, os jovens se organizam e constroem o campo de futebol, o show na comunidade. Eles criam alternativas”, diz.

EU APOSTO! “Precisamos deixar o discurso de que o jovem é o futuro, e o protagonismo juvenil traz isso. Jovem é o presente, o ator que faz a diferença nas comunidades”. Fransérgio Goulart, coordenador técnico da Plataforma dos Centros Urbanos

Cultura e autonomia

Lucas Pablo de Oliveira, de 22 anos, é um dos dinamizadores do RAP que atua na interface saúde e cultura. Para tanto, Lucas conta com a parceria entre o RAP e o Centro de Cultura e Educação Lúdica da Rocinha, que tem no brincar uma ferramenta para a cidadania. “A parceria se consolidou por dois motivos. O primeiro é que partilhamos uma sala no Adolescentro Paulo Freire, e o segundo é por conta dos quatro jovens do Centro de Cultura serem também do RAP”, diz. O jovem dinamizador conta que, durante as reuniões realizadas no Adolescentro, surgiu a ideia de criar um evento para refletir sobre as questões identificadas. “A mostra, chamada Brinquedo vira rua, rua vira brinquedo – A rua que queremos, a cidade que queremos – A criança e a cidade, superou nossas expectativas e desvendou novas possibilidades”, lembra. Para Lucas, é preciso apostar no jovem como ativo em sua comunidade. “O RAP dá aos jovens a oportunidade de fazer algo por sua comunidade e a sociedade em geral, e isso é saúde. Conhecer é saúde, multiplicar é saúde, está tudo interligado e em sintonia”. Além de informar, os grupos de discussão favorecem a autonomia dos jovens. “Com o RAP, participamos de assuntos que pertencem a nós e que, no entanto, antes, nós não participávamos”, afirma o promotor da saúde do pólo do Jacarezinho, Vítor Cândido, de 16 anos.

O arte-educador Daniel de Souza (de óculos, à esquerda) e a equipe de jovens promotores da saúde do RAP-Pólo Jacarezinho.

Teatro e Video

Buscando aproximar-se de um público específico, o arte-educador Daniel de Souza, responsável pelo RAP da Saúde no pólo Jacarezinho, capacita jovens agentes de teatro para o desenvolvimento de ações de redução de danos. “O teatro é um mecanismo muito forte para trabalhar a saúde, pois é lúdico, ajuda as pessoas a prestarem atenção no contexto, facilitando o aprendizado. Temas difíceis têm sido debatidos através do teatro”, explica. O mesmo acontece no RAP da Saúde – pólo Alemão, onde as sextas-feiras são destinadas ao planejamento de ações referentes à saúde. O educador físico Elias Simeão, coordenador do pólo, aponta que as atividades promovem a integração entre jovens e unidades de saúde. “O profissional muitas vezes não vê o adolescente a partir de suas atitudes positivas e atos comunicativos. Ter um adolescente atuando na unidade facilita essa abordagem, principalmente a partir de uma atividade como o teatro, que chama as pessoas para o posto de saúde não só quando estão doentes, mas também pensando no conceito de promoção da saúde”, afirma. Outra técnica utilizada é o vídeo. A arte-educadora da ONG Cineduc, Anna Rosaura Trancoso, coordenou uma série de oficinas de audiovisual com adolescentes e jovens do RAP, de diferentes pólos da cidade, para trabalhar temas como sexualidade, drogas, violência no namoro e mobilidade urbana (veja os links para os vídeos na pág 16). “Foi interessante porque jovens de diferentes pólos se misturaram, o que possibilitou uma pluralidade de visões”, destaca Anna, acrescentando que o material produzido terá muito mais facilidade para acessar outros jovens do que se fosse feito por adultos. Com oficinas de roteiro, produção, câmera e linguagem audiovisual, os jovens atuaram em todas as etapas do trabalho e, segundo a educadora, tiveram a oportunidade de desenvolver um olhar crítico: “Os jovens do RAP estão crescendo conscientes de que a educação preventiva é a base da saúde”.

EU APOSTO! “Os vídeos produzidos pelo RAP são instrumentos valiosos para a integração intersetorial, a descoberta de novas parcerias e o fortalecimento das já existentes. Os filmes abordam temas que envolvem vários aspectos da vida na cidade e possibilitaram aos jovens o desenvolvimento de novas habilidades”. Luiza Cromak, da SMSDC-RJ e coordenadora do RAP

Jovens do RAP-Pólo Rocinha reunidas em ação para valorização da paternidade durante I Semana do Bebê Carioca, realizada em agosto de 2011.

Reconhecimento

Em junho de 2011, o RAP da Saúde foi contemplado com o Prêmio Pró-Equidade em Saúde, concedido pelo Ministério da Saúde, Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (CONASEMS) e Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz). A premiação fortalece a importância da experiência no enfrentamento das iniquidades, dentro de uma tendência global que entende a saúde como a combinação de escolhas individuais e políticas públicas que atuam nos determinantes sociais: condições de trabalho, habitação, lazer e acessos a serviços essenciais. “O RAP é fruto de um trabalho de parceria que envolve adolescentes, jovens, comunidades, profissionais e gestores. Ficamos muito felizes com este prêmio”, comemora Viviane Manso Castello Branco, coordenadora de Políticas e Ações Intersetoriais da SMSDC e idealizadora do RAP da Saúde.

Participação política para garantir acessibilidade

Jovens do RAP-Pólo Jacarezinho apostam no teatro para ampliar o conceito de saúde entre a população.

Participar faz bem à saúde! A Rede de Adolescentes Promotores da Saúde, RAP da Saúde, sabe disso e está presente em diversos fóruns de discussão, atuando em variadas frentes. O tema da acessibilidade dá o tom das atividades realizadas no CMS Professor Masao Goto. A participação dos jovens do RAP, incentivada pela equipe de saúde, promove a integração entre adolescentes surdos e ouvintes, dando visibilidade às reivindicações da população surda. A professora Verônica Lima, que integra o Projeto Parceria Saúde, Educação de Surdos e Família, acredita que a participação no RAP da Saúde tem sido fundamental para a inserção política dos jovens surdos. “A inserção dos jovens nas discussões políticas gera decisões importantes para o desenvolvimento da cidadania da juventude”, diz a professora. Com representantes surdos e ouvintes, o RAP esteve presente na I Conferência Carioca de Juventude e na II Conferência Estadual de Juventude, realizadas em setembro e outubro de 2011, respectivamente. O grupo chamou a atenção para as questões relativas à acessibilidade a recursos físicos, linguísticos, comunicativos, educacionais e culturais para os jovens com deficiência. Os encontros foram preparatórios para a conferência nacional, realizada em dezembro. A discussão sobre os direitos ao desenvolvimento integral, durante a II Conferência Nacional de Juventude, contou com a participação de duas jovens surdas do RAP – pólo Masao Goto, representando o Rio de Janeiro. Junto com jovens surdos de outros estados, elas contribuíram para garantir o direito de implementação de escolas bilíngues (Lingua Brasileira de Sinais como primeira língua de instrução e língua portuguesa como segunda) em todo o país.

FALA, JOVEM!

“O RAP ampliou minha visão da saúde. No meu atual trabalho, como agente comunitária de saúde de Rio das Pedras, uso o que aprendi sendo dinamizadora do Polo Maré. Dei a ideia de montar pequenos grupos, cada um com um tema para pesquisar e apresentar para toda a equipe, como forma de aprendizagem e prática”. Jéssica Andrade, 23 anos

“Às vezes, o adulto vê o jovem como quem não quer nada. Mas, para mudar, é preciso conquista. Mostrar que o trabalho vale a pena, que é bom conhecer seus direitos. Tem coisas que os jovens não dão valor porque não conhecem”. Marcos Diniz, 24 anos

“O maior desafio é fazer com que os adultos entendam o papel dos jovens como parceiros, e não como pessoas que estão ali para serem mandadas”. Wallace Lima, 24 anos

“Para atuar no RAP tem que gostar de trabalhar com a comunidade”. Luana Alves, 26 anos

“Descobrimos novas formas de entender e ter saúde, pois a nossa definição de saúde é ampla. Entendemos que saúde vai além da doença, é também saúde mental e espiritual”. Ana Carolina da Silva, 25 anos

“Eu não sabia nada sobre saúde e ia da casa para a escola, da escola para a casa. Com o RAP conheci outro mundo. Um dos trabalhos que mais me marcou foi sobre violência”. Luciano Correa, 21 anos

 


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