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Saber Viver » Saber Viver n.27

04/2004

De vítimas a atores da vida

De vítimas a atores da vida

É comum em algumas pessoas, ao se depararem com um grande problema em suas vidas, assumirem a condição de vítima e ficarem se perguntando “Por que comigo?”, “Será um castigo divino?”, “Será que o mundo está contra mim?”.

Sem dúvida, em alguns momentos, a vida nos coloca em situações que podem causar grande sofrimento, principalmente quando alguém se descobre infectado pelo vírus HIV e, imediatamente, acredita estar diante da morte. Mas será que cultivar sentimentos como a pena de si mesmo, a mágoa, o medo e a raiva do mundo é a saída ideal para tornar a sua vida melhor?

A psicóloga Rosemeire Zago acha que não. Segundo ela, quando uma pessoa assume o papel de vítima, permanece no mesmo lugar e não consegue promover grandes transformações em sua vida. Freqüentemente, isso ocorre logo que algumas pessoas descobrem em si o vírus da aids. Elas tendem a achar que são as únicas com este problema, assumindo o papel de vítima da situação. Com o tempo, algumas conseguem se livrar deste sentimento, principalmente quando resolvem encarar o problema e conhecer outras pessoas, também infectadas, que levam uma vida normal.

“Pensei que era um castigo”

Jairo Brito Lima viveu essa experiência. Descobriu que era soropositivo ao doar sangue no Instituto de Hematologia do Rio de Janeiro, em 1997, aos 33 anos. “Eu achava que tinha morrido naquele momento. Comecei a questionar Deus na minha vida. Pensei que era tipo um castigo. Me senti uma vítima da sociedade”, contou Jairo, um católico praticante e tão fervoroso que chegou a estudar num seminário para freis franciscanos. Só começou a superar esse sentimento quando reencontrou dois amigos que se revelaram também soropositivos. Jairo viu que os dois estavam bem de saúde, com boa aparência e levavam a vida normalmente. A partir daí, Jairo deu um basta ao perfil de vítima. Integrou-se ao grupo Com Vida, que se reúne no Hospital Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro. “Hoje percebo que Deus não foi tão ruim como eu pensava. Agora, estou tentando não ter vergonha nem do meu passado nem do meu presente e pensar no meu futuro”, disse. Jairo está desempregado no momento, mas planeja voltar a trabalhar. Ele também tem uma vida afetiva estável com um parceiro de 18 anos atrás que ele reencontrou nas reuniões do Com Vida.

 

Dupla volta por cima

Outro exemplo de superação é Jaqueline Rocha Côrtes (foto), primeiro transexual operado a se casar em cartório no Brasil. Ela, que nasceu com corpo de homem, se descobriu soropositiva em 1994. “No primeiro momento, foi só depressão. Ainda não tinha o coquetel e havia muito óbito pela doença. A tristeza era mais forte em mim porque, depois da aids, comecei a achar que ia morrer sem me tornar mulher, como sempre quis”, revelou.

A vida de Jaqueline também começou a mudar quando ela encontrou outras pessoas vivendo normalmente com o vírus. A depressão e a sensação de vítima deram lugar a uma grande força para lutar pelos seus desejos. Primeiro, Jaque virou militante a favor dos soropositivos. Em 1995, entrou no Grupo de Incentivo à Vida (GIV), em São Paulo. Logo depois, ajudou a fundar a Rede Nacional de Pessoas Vivendo com Aids e hoje representa a Rede Latino-americana de Pessoas Vivendo com Aids em um órgão da ONU e integra o Comitê Global Diretor da Campanha Mundial de HIV e Aids. Mas o seu grande sonho foi realizado em 1999, quando conseguiu fazer a operação de mudança de sexo no Hospital das Clínicas de São Paulo. Hoje, aos 44 anos, ela se sente realizada ao lado do marido, Vítor, em São José do Rio Preto (SP). Desde 1997, sua carga viral é indetectável e o CD4, acima de 800. Casados desde fevereiro, os dois já deram entrada na papelada para adotar um bebê.

 

Ser vítima não leva a lugar algum

Para a psicóloga Carmen Lent, coordenadora do Banco de Horas – ONG que reúne psicólogos que atendem soropositivos a preços mais baratos ou de graça no Rio de Janeiro –, assumir o papel de vítima faz parte da personalidade de cada um, independente do HIV: “As pessoas que se vitimizam comportam-se dessa maneira independentemente do HIV. Há algumas que, mesmo quando procuram a terapia, acham que vão aprender a cobrar do mundo o que ele deve a elas”. A psicóloga Rosemeire Zago complementa, afirmando que geralmente quando uma pessoa se sente vítima não consegue dizer “não” para o outro e acha que sempre está dando mais do que recebe: “A pessoa, quando se acha vítima, não consegue reagir. Fica no mesmo lugar como se estivesse em uma porta giratória. Só conseguimos nos livrar da dor quando a encaramos de verdade. Temos que lembrar que a nossa felicidade não depende dos outros, depende da vontade de transformar nossas vidas, lutando pelos nossos desejos”. Agora, cabe a você escolher o rumo que deseja seguir. SV

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