Publicações

  • Fonte normal
  • Aumentar fonte
  • Adicionar a favoritos
  • Imprimir
  • Envie para um amigo:





Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.08

03/2007

Depressão e HIV: identificação dos sintomas e diagnóstico

A identificação de sintomas e o diagnóstico da depressão são uma importante etapa do tratamento de uma pessoa vivendo com HIV/aids. Devido à multiplicidade dos sintomas, esse diagnóstico exige muita precisão. Os portadores de HIV, além do transtorno emocional que qualquer doença grave provoca, em muitos casos, têm que conviver com preconceitos, estigma e se adaptar a uma nova realidade de vida.
Para o psicólogo clínico Lahire Dutra de Carvalho Neto, que trabalhou durante 10 anos com pacientes soropositivos no Hospital Universitário Gaffrée & Guinle, no Rio de Janeiro, os sintomas que identificam uma depressão são:
• falta ou pouco interesse em atividades cotidianas;
• cansaço, perda de apetite ou total ausência deste, descartada qualquer doença clínica;
• falta de concentração em geral;
• pensamentos mórbidos freqüentes e pensamentos suicidas com ou sem tentativas;
• sensação de falta de esperança;
• dificuldades de dormir, perda total do sono ou aumento deste;
• culpa excessiva;
• julgamentos rígidos e depreciativos sobre si mesmo.
Segundo Lahire, que tem formação em psicoterapia breve e focal de base analítica, sexologia e terapia cognitiva comportamental, os sintomas da depressão são difíceis de serem avaliados e muitas vezes a queda imunológica decorrente do HIV traz sintomas parecidos com os da doença.
Para a médica psiquiatra Lizete Pontes Macário Costa, do Hospital Universitário Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro, e pesquisadora LEPPA – DST/AIDS – do Hospital Escola da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), os soropositivos devem reconstituir a sua identidade a partir da nova condição de serem portadores de uma patologia definitiva. Para isso, a médica afirma que é fundamental uma série de fatores: estrutura de personalidade prévia, grau de suporte familiar, o significado que a doença tem para o meio do indivíduo, as suas formas de manifestação e a resposta ao tratamento. Segundo ela, “alguns quadros mentais são comuns e esperados, como as reações de ajustamento e de adaptação ao diagnóstico”.

 

TIPOS E DIAGNÓSTICO

Existem dois tipos de depressão: a endógena – de formação interna, genética e transmitida entre familiares – e a exógena – causada por fatos externos com situações que independem da vontade do indivíduo, como doenças, perda de um familiar, de emprego e/ou prejuízos financeiros.
Por essas razões, os especialistas atuam com extrema atenção ao lidar com os pacientes, especialmente os portadores de HIV. Para Lizete Macário, fazer um diagnóstico de depressão para esses pacientes deve considerar os seguintes aspectos:
• a realização prévia de uma anamnese extensa buscando ouvir as queixas, entender os sintomas e confirmar o quadro clínico;
• a presença de profissional médico psiquiatra com experiência clínica
assistencial;
• o diagnóstico de depressão do paciente HIV/aids considera os mesmos critérios para o diagnóstico de depressão do paciente em outra situação clínica;
• a necessidade de realizar diagnóstico diferencial entre depressão
e as diversas manifestações reativas referentes à clínica da aids;
• o diagnóstico de doenças como anemia, desnutrição, distúrbio metabólico ou endócrino e efeitos colaterais dos medicamentos;
• o maior risco aponta para indivíduos com transtornos de personalidade, história de depressão, perdas recentes, baixo apoio familiar, passividade frente à doença e ao tratamento;
• a avaliação de risco de suicídio.

 

SENTIMENTO DE CULPA

O psicólogo clínico Lahire acredita que alguns pacientes soropositivos podem sofrer de depressão motivada pela sensação de limite da vida, da real possibilidade de morte, até então distante de si mesmo, e das perdas sofridas durante toda a sua vida.
A aceitação do diagnóstico positivo para o HIV pode ser dificultada pela experiência pessoal: vergonha e sensação de culpa por ter se arriscado e se contaminado quando já sabia como se prevenir. Então, o paciente sente medo de sofrer com um julgamento rígido de seus familiares, grupo de amigos, no relacionamento afetivo e na vida profissional. Por isso, o psicólogo afirma que a depressão precisa ser diagnosticada e tratada para que não se agrave o quadro clínico do paciente com HIV: “a depressão traz um efeito negativo na qualidade de vida do paciente e, quando não diagnosticada e não tratada adequadamente, acaba prejudicando todo o tratamento clínico.
Sabe-se também que a depressão crônica não tratada aumenta a mortalidade do paciente soropositivo e, em alguns casos, a presença do vírus no organismo pode acarretar a depressão”. A combinação de psicoterapia de apoio, focal e cognitiva combinada com medicação antidepressiva é aconselhável para um tratamento eficaz no combate à doença. “A psicoterapia é fundamental para ajudar a resgatar sua identidade, auto-estima, independência e ajuda na superação da discriminação, além de oferecer suporte à família para enfrentar esse momento tão delicado”, diz o psicólogo.

 

RELAÇÃO PACIENTE – MÉDICO É FUNDAMENTAL PARA TRATAMENTO

O suporte da família e amigos é fundamental para que o portador de HIV em estado depressivo apresente melhoras. Para Lizete Macário, “o tratamento integra a participação familiar, a relação paciente/médico/equipe de saúde, psicoterapia adequada ao paciente, suporte de grupo de apoio, uso criterioso de medicação antidepressiva. É recomendável cautela e monitoramento devido à interação medicamentosa. O uso de medicação ansiolítica é indicado em situações específicas, nos quadros de ansiedade, por exemplo, buscando a retomada de funções orgânicas”.
Ela esclarece também que, no caso de pacientes com histórico de depressão, é indicada a retomada do tratamento psiquiátrico com o objetivo inclusive de favorecer a adesão ao tratamento da aids. Em se tratando de diagnóstico de depressão reativa ao quadro clínico, o tratamento da causa clínica subjacente (doença infecciosa) tende a gerar mudanças no quadro de depressão diagnosticado.
A médica destaca a importância da relação médico-paciente: “o paciente com HIV/aids, como qualquer outro paciente, busca ajuda do médico porque se sente ameaçado por algo desconhecido em seu corpo que mobiliza seus temores ligados às possibilidades de adoecer e de morrer. As questões da vida do paciente passam a dizer respeito também ao médico e à relação que se estabelecerá entre ambos. A expectativa em relação à cura está contida no tratamento, na possibilidade de aderir ao uso da medicação. Então, é da maior importância que o médico incentive uma boa relação com o seu paciente para sua estabilidade física e psicológica”.
Compartilhe