Circulador

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Circulador » Circulador n.01

11/2004

Discriminação não combina com saúde

O direito a um atendimento de saúde adequado está previsto no artigo 196 da Constituição Federal. Todos os códigos de ética de profissionais da área também ressaltam a importância de prestar um atendimento de qualidade sem nenhum tipo de discriminação. Porém, muitas vezes, a realidade no serviço de saúde é outra. O que prevalece são os tabus e preconceitos que levam vários cidadãos a serem discriminados e estigmatizados, gerando sérios entraves na promoção da saúde.

A importância do respeito às diferenças

Vagner de Almeida coordena, na Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA), o projeto Juventude e Diversidade Sexual, destinado a jovens homossexuais. O objetivo principal do projeto é resgatar a cidadania desses jovens e inseri-los na sociedade. O grupo é formado por jovens da Baixada Fluminense e periferia do Rio de Janeiro. “Eles reclamam muito da compostura dos profissionais de saúde. Os travestis, principalmente, são muitas vezes humilhados e passam horas à espera de atendimento. A situação é pior quando alguns recebem o teste positivo para HIV/Aids, sem o menor cuidado e orientação. Muitos dizem que preferem se automedicar na farmácia”, conta Vagner. Caio, 23 anos, nunca se sente à vontade no serviço de saúde para se declarar homossexual: “Tenho certeza que serei discriminado. Eles não nos tratam com respeito. Faço o exame anti-Aids duas vezes ao ano e nunca revelo que sou homossexual”.

“Nunca digo no posto que estou infectada pelo HIV”

O medo da discriminação também faz com que, muitas vezes, jovens soropositivos não revelem que estão infectados pelo HIV nos serviços de saúde. “Faço o meu tratamento no Hospital dos Servidores do Estado (HSE), onde sou bem atendida. Porém, quando preciso de um atendimento de emergência, perto da minha casa, nunca digo que estou infectada pelo HIV”, confessa Luciana, de 19 anos, seguindo a recomendação de sua médica Maria Letícia Santos Cruz, pediatra e infectologista do HSE. “Infelizmente, oriento os jovens para que eles não se exponham demais. Em termos clínicos, dizer que é soropositivo não vai fazer muita diferença em um atendimento de emergência. Somente quando os encaminho para algum serviço, como ginecologia, por exemplo, preparo um laudo para o profissional”, revela a pediatra. Para Maria Letícia, nesses casos, a discriminação está relacionada à falta de informação que alguns profissionais de saúde ainda possuem sobre a epidemia. “Apesar dos esforços das secretarias de saúde, promovendo treinamento, muitos profissionais ficam preocupados quando atendem soropositivos. O primeiro passo é obedecer as normas de biosegurança determinadas pela Organização Mundial de Saúde, que devem ser seguidas em qualquer atendimento, como o uso de luvas, máscaras etc”. Quanto ao tratamento de emergência a uma pessoa com HIV, a médica do HSE esclarece que ele deve ser prescrito como em qualquer paciente imunodeprimido: “O primeiro passo é tratar a doença, seja uma tuberculose, uma sinusite ou uma pneumonia. Depois que o paciente melhorar, encaminhe-o a um especialista, sem discriminação e respeitando o sigilo e a individualidade de cada um”.

Seminário discute atendimento à população negra

Que a sociedade brasileira possui um componente racista, ninguém mais tem dúvidas. Agora, quais as conseqüências deste racismo no atendimento público de saúde? Esta questão foi debatida no I Seminário Nacional de Saúde da População Negra, em Brasília entre os dias 18 e 20 de agosto. “Apesar da universalidade que propõe o SUS, temos que discutir o racismo, que faz parte de toda a nossa sociedade e é reproduzido em alguns centros de saúde”, afirma José Marmo, um dos coordenadores do evento. Segundo dados coletados pela ONG Criola/RJ, a mortalidade materna entre negras no Paraná é 7,4 vezes maior do que entre brancas. Outro estudo divulgado pela ONG afirma que as brancas recebem mais anestesia na hora do parto do que as negras.

Profissionalismo e solidariedade: a equação ideal

Essas são as palavras que, para Vagner Almeida, da Abia, transformam um atendimento humanizado e eficiente. “Os jovens, principalmente os homossexuais, estão mais vulneráveis a contrair doenças como o HIV/ Aids. Estão na fase da experimentação de uma forma geral. Ou seja, precisam receber um atendimento baseado no respeito pelas diferenças e na escuta comprometida. Somente assim será possível construir uma estratégia de atendimento que os leve a opções mais saudáveis de vida”. Para Maria Letícia do HSE, o desafio das unidades é facilitar o acesso do jovem saudável ao atendimento médico. “Os serviços de saúde precisam chegar a esses jovens saudáveis, criando um intercâmbio maior com a comunidade, com as escolas e com grupos específicos, como os que trabalham com homossexuais”.

Adolescência e Diferença

Na adolescência, as alterações físicas e de sentimentos nem sempre são acompanhadas de mudanças dos comportamentos infantis para comportamentos mais responsáveis e autônomos. A sociedade é ambígua ao lidar com o “diferente”. Compreender e trabalhar as limitações, muitas vezes, esbarra na expectativa social da “normalidade”, que contraditoriamente valoriza as incapacidades em detrimento das possibilidades do indivíduo. Quando pensamos nas pessoas com deficiência como sujeitos que têm pretensões, ambições e escolhas, percebemos a necessidade que eles têm de viver experiências novas que expressem sua capacidade de estar integrados na comunidade e, portanto, expostos a riscos, liberdades e responsabilidades. Muitos adolescentes com deficiência são capazes de desenvolver comportamento apropriado, autonomia, independência e relacionamento com os outros desde que experimentem sua sexualidade de forma tranqüila e segura conhecendo as transformações físicas, emocionais e sociais que ocorrem neste período particular de vida.

Por Sandra Lobo, Coordenadora do Progr. de Reabilitação a Prefeitura do Rio de Janeiro

lobo@pcrj.rj.gov.br

Uma profissional que vai onde o jovem está

O prazer em atender a meninos e meninas de rua surgiu a partir do 5º período da faculdade de medicina em 1978, quando Regina Esteves começou a estagiar na Funabem. Atualmente, como pediatra do CMS Manuel José Ferreira, Regina dedica algumas horas da semana visitando casas de acolhida nos arredores do bairro do Catete, com a enfermeira Gicélia Lombardo. O objetivo de seu trabalho é conscientizar meninos e meninas de rua, assistidos por estas instituições, a terem mais cuidado com a sua saúde. “Para o trabalho dar certo, preciso ir onde estes jovens estão. Con- Uma profissional que vai onde o jovem está quisto a confiança deles, ouvindo-os e entendendo o momento deles. Esta estratégia é fundamental para prestar um bom atendimento a este público”, explica Regina, baseada em seus 20 anos de experiência. Para ela, o principal desafio é deixar de lado o preconceito e tratar de temas que são fundamentais na vida desses jovens como sexo, drogas e violência: “Quando você conhece a história de cada um, você percebe que nada acontece por acaso”. Hoje, vários jovens vão voluntariamente ao posto à procura da pediatra: “Isto significa que o trabalho vem dando certo”, comemora.

Teatro do Oprimido põe o povo no palco

A arte pode se transformar em um instrumento de transformação da vida. Dentro desta concepção, o Centro do Teatro do Oprimido (CTO-Rio), criado há 18 anos pelo teatrólogo Augusto Boal, trabalha implementando projetos artísticos que estimulam a participação ativa das camadas menos privilegiadas da sociedade. O objetivo básico deste trabalho é fortalecer a cidadania utilizando o teatro como meio. Nos espetáculos do CTO-Rio, o público opina e é convidado a participar, buscando alternativas para resolver o conflito Grupo Artemanha (CTO) apresentando a peça Fruto Proibido, gerado pela peça. espetáculo de prevenção às DST/Aids Além dos espetáculos, o CTO-Rio oferece oficinas para profissionais das mais diversas áreas, principalmente os de Saúde e de Educação, no intuito de dar subsídios para ampliar o diálogo destes profissionais com o público em geral. “O teatro tem o poder de chamar a atenção, de abrir portas e ampliar o diálogo”, afirma Helen Sarapeck, uma das coordenadoras do CTO.

FALA, JOVEM!

Os profissionais de saúde têm que entender que a dor
não escolhe idade. Uma vez fui ao posto de saúde e
passaram várias pessoas na minha frente. Eu estava
realmente passando mal. Depois deste tratamento,
como eu ainda vou dizer que sou soropositiva? Carla, 19 anos

A fila é um saco. Uma vez, cheguei no posto de
manhã cedo e sai às quatro da tarde. O pior é que,
como você fica muito tempo esperando, todo mundo
quer saber o que você tem e por que você toma
medicamento. Eu fico morrendo de medo de as pessoas
descobrirem que eu tenho o HIV. Suelen, 18 anos

Os profissionais de saúde deveriam tratar todos
como serem humanos, sem preconceito. Eles deveriam
receber um treinamento, serem mais preparados
para nos deixarem à vontade. Eu quero ser tratado
com respeito. Robson, 17 anos

Acho que todos os postos deveriam ter atendimento
especial para jovens, em dias separados. Eles devem
ter mais cuidado com a gente também. Uma vez,
uma enfermeira começou a me perguntar coisas íntimas
quando soube que eu era soropositiva. Isso não
está certo! Consuelo, 19 anos

Somente os profissionais que gostam de jovens deveriam
atender a gente. Eu percebo que têm médicos
e enfermeiros que não têm paciência com a
gente. Cláudia, 17 anos

Eu não me sinto à vontade no posto de saúde para
declarar que sou homossexual. Quando faço exame
anti-HIV, minto! Tenho medo de ser discriminado.
Tenho vários amigos que já foram discriminados.
Muitos preferem não ir ao posto. Se automedicam
comprando remédios na farmácia. Luiz Caio, 23 anos

Uma enfermeira do posto perto de minha casa,
quando foi me atender, perguntou se eu tinha Aids.
Quando eu perguntei o porquê da pergunta, ela me
disse: porque você é travesti! Suelen, 19 anos

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